Juana Molina – o segredo do Primavera Sound 2026

Os cartazes dos festivais atuais fazem a gente apertar os olhos para melhorar a visão. As letras vão diminuindo de acordo com a suposta importância que as atrações têm para a organização do festival, que, quase sempre, repete a lógica do mercado. No caso da edição 2026 do Primavera Sound SP, numa das linhas com menor tamanho, está o nome de Juana Molina. Na nossa opinião, ao lado de Strokes e Courtney Barnett, ela é a grande atração dessa leva de artistas. E por que, ora bolas? Explicamos abaixo.
Se você nunca ouviu falar de Juana Molina, não se sinta mal: ela é um dos segredos mais bem guardados da música argentina e uma das artistas mais desafiadoras da cena contemporânea. Sua vinda ao Primavera São Paulo, em meio a esse gigantes do mainstream, é o tipo de escalação que justifica a existência de um festival, oferecendo ao público a chance de descobrir uma artista que vive em uma frequência totalmente única. A trajetória de Juana parece saída de um roteiro de cinema: filha de um cantor de tango, ela viveu o exílio em Paris antes de se tornar, nos anos 1980/90, uma estrela da comédia na TV argentina. No auge da fama, ela chocou o país ao abandonar os holofotes do humor para se dedicar a uma música introspectiva e experimental, lançando o incompreendido “Rara” em 1996, sob a produção de Gustavo Santaolalla.
A resistência inicial do público argentino, que esperava piadas em vez de sintetizadores, empurrou Juana para o mercado internacional, onde ela floresceu como uma artesã de sons hipnóticos, descoberta pelo selo britânico Domino. O verdadeiro marco zero de sua identidade sonora veio com “Segundo” (2000), onde ela começou a sobrepor camadas de violão acústico e eletrônica ambiente. Esse estilo foi refinado em “Tres Cosas” (2002) — álbum que figurou na lista de melhores daquele ano do New York Times — e seguiu em uma crescente de complexidade com “Son” (2006) e “Un Día” (2008). Nesses trabalhos, Juana se consolidou como uma mestre dos loops vocais e rítmicos, construindo ecossistemas que parecem pulsar com vida própria, algo que se tornou ainda mais sombrio e tátil nos elogiados “Wed 21” (2013) e “Halo” (2017).
Após um hiato de oito anos sem composições inéditas de estúdio, Juana retornou em 2025 com “DOGA”, um álbum que traz o espírito de seu tempo sem abrir mão da estranheza que a define. O disco é fruto de centenas de horas de improvisação com sintetizadores analógicos, resultando em um material que é, ao mesmo tempo, o mais acessível e o mais torto de sua carreira. Em “DOGA”, ela deixa de lado o fascínio pelo oculto para explorar sua própria natureza; as texturas evocam zumbidos de insetos e fenômenos orgânicos, criando uma experiência sensorial densa e envolvente. É a obra de uma artista que, aos 63 anos, continua sendo a mente mais jovem e inovadora de qualquer line-up. Seu show deve focar no repertório de “DOGA”, mas deve trazer canções de toda sua carreira. Se você estiver em SP, não perca.
Ver Juana Molina no palco do Primavera Sound será presenciar um laboratório de alquimia sonora em tempo real. Ela não faz refrões fáceis ou segue fórmulas prontas e gosta do imponderável. Em um mundo dominado por algoritmos que tentam prever nossos desejos, a música de Juana é o triunfo do inesperado.
Para fechar essa imersão na obra de Juana Molina e preparar os ouvidos para o Primavera Sound SP, selecionei dez canções que atravessam sua carreira, desde a transição da TV até o vigor sintético de seu álbum mais recente.
Aqui está um roteiro de treze canções importantes dela para você dar o primeiro passo no streaming:
– “Vaca que cambia de querencia” (Segundo, 2000): O marco inicial de sua fase experimental, onde o violão dedilhado começa a se fundir com camadas eletrônicas sutis, criando um clima pastoral e hipnótico.
– “Martin Fierro” (de Segundo, 2000): Juana reconstrói a tradição argentina sob uma ótica quase alienígena.
– “Sálvese Quien Pueda” (Tres Cosas, 2002): Uma das melodias mais ensolaradas e acessíveis de sua discografia, mostrando que Juana sabe ser “pop” sem perder a estranheza das texturas.
– “Un Día” (Un Día, 2008): Uma aula de minimalismo e repetição; a voz de Juana se torna um instrumento rítmico que guia o ouvinte por um transe quase tribal.
– “Eras” (Wed 21, 2013): Com uma batida que flerta com o boogie e uma energia mais efervescente, é uma prova de que a experimentação dela também pode ser vibrante e dançante.
– “Sin Guía No” ( Wed 21, 2013): Mostra o lado mais “banda” e orgânico dela, com uma linha de baixo viciante.
– “Cosoco” (Halo, 2017): Um dos maiores destaques de sua fase madura, com uma sonoridade rítmica e percussiva que lembra uma versão “desconstruída” de clássicos latinos.
– “Paraguaya” (Halo, 2017): Sombria e misteriosa, esta faixa usa sussurros e ecos para criar uma atmosfera de realismo fantástico que é a cara da sua obra.
– “Cara de Espejo” (de Halo, 2017): Uma aula de como usar sintetizadores para criar tensão.
– “Sin Dones” (Halo, 2017): Uma canção baseada em múltiplas vozes sussurrantes que funcionam como fantasmas rítmicos, exemplificando o domínio de Juana sobre as camadas vocais.
– “desinhumano” (DOGA, 2025): Uma das portas de entrada do novo álbum, onde as texturas sintéticas começam a “entortar” a percepção do ouvinte de forma fascinante.
– “Uno es árbol” (DOGA, 2025): Faixa que abre seu disco mais recente, utilizando sintetizadores analógicos para mimetizar sensações orgânicas e inaugurar seu retorno após o hiato.
– Miro todo (DOGA, 2025): Uma jornada hipnótica de quase nove minutos que mostra a capacidade de Juana de sustentar ecossistemas sonoros complexos e envolventes.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
