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Mac DeMarco faz show bacana no Rio de Janeiro

 

Mac DeMarco, Sacadura 154, 03 de abril de 2026

 

A chuva que molhou as calçadas da Gamboa ontem à noite parecia menos um contratempo meteorológico e mais uma moldura deliberada para a melancolia solar de Mac DeMarco. No Sacadura 154 — esse enclave de tijolos aparentes onde o Rio de Janeiro tenta, entre o mofo histórico e a promessa portuária, equilibrar sua própria decadência — o canadense revelou que os 35 anos lhe trouxeram uma dignidade inesperada. Quem foi em busca do bufão indolente de outrora, o mestre do desleixo lo-fi, encontrou um artista que finalmente trocou a máscara da ironia pelo rigor da própria sonoridade. O som estava seco, de uma nitidez cortante, com o indefectível chorus da guitarra atravessando a umidade carioca com a precisão de quem não precisa mais de truques para seduzir.

 

A abertura, com a dupla “Shining” e “For The First Time”, desfez qualquer suspeita de frouxidão. Há uma disciplina quase camuniana na forma como DeMarco agora ocupa o palco: menos gestos, mais substância. O entrosamento da banda é absoluto, uma máquina de precisão que serve de alicerce para que as melodias flutuem sem esforço. Mas o momento em que o show verdadeiramente ganhou uma estatura transcendental foi no diálogo com a guitarra de Pedro Martins. Não foi uma “canja” protocolar para afagar o ego da plateia local; foi uma colisão de inteligências musicais. Em “Still Beating”, a simbiose entre o balanço mineiro de Martins e o minimalismo de DeMarco evidenciou que o interesse do canadense pelo Clube da Esquina e pela harmonia brasileira não é um fetiche de turista, mas um componente vital do seu DNA criativo.

 

O miolo do setlist, com “Passing Out Pieces” e “Knocking”, mergulhou em uma densidade introspectiva que encontrou eco em uma plateia incomumente atenta. O Rio, tantas vezes acusado de dispersão, ontem ouviu o silêncio. O episódio do fã que lhe entregou o álbum de 1980 da Rita Lee foi o ponto de maior voltagem humana da noite. O olhar de Mac para aquela capa não foi de curiosidade superficial, mas de um reconhecimento de linhagens: ele sabe que a liberdade irreverente de Rita é a mesma que permite a ele, em 2026, ser um operário da canção despojada.

 

A reta final foi uma elegia à permanência. Se “Freaking Out the Neighborhood” trouxe o vigor necessário, foram “My Kind of Woman” e a hipnótica “Chamber of Reflection” que selaram o pacto existencial da noite. Ali, a catarse não precisou de fogos de artifício; foi cerebral, contida, quase uma meditação coletiva. O encerramento com a longa jornada psicodélica de “Moonlight on the River”, com suas texturas errantes e experimentais, deixou claro que DeMarco já não habita o lugar-comum do rock alternativo de consumo rápido.

 

O que vimos ontem foi a vitória da música sobre o mito. Mac DeMarco despiu-se do personagem para deixar apenas a ossatura das composições à mostra, tratando o repertório com um respeito que muitos confundem com distância, mas que é, na verdade, a forma mais alta de devoção. DeMarco envelhece diante de nós com a elegância de quem descobriu que a simplicidade, quando executada com tamanha clareza de intenção, é o último degrau da sofisticação. Uma noite para recordar que o essencial, como diria o outro, é invisível aos olhos, mas perfeitamente audível aos ouvidos limpos.

 

Colaborou Giovanna Lucato

 

 

Setlist

 

Shining
For the First Time
Sweeter
On the Level
Phantom
Salad Days
20191009 I Like Her
Rock and Roll
Still Beating
Passing Out Pieces
Home
Heart to Heart
Knockin
Ode to Viceroy
Another One
Rooster
Freaking Out the Neighborhood
Holy
Moonlight on the River
My Kind of Woman
Chamber of Reflection
Nobody

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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