Dois discos horríveis de 2019

 

 

Eu acredito no poder da crítica construtiva. E na força moralmente questionável da destrutiva. E sou totalmente contra o banimento das opiniões negativas na imprensa. É uma regra dourada que, se um disco, livro, filme ou algo no gênero é ruim de forma involuntária, as probabilidades de alguém ler algo a respeito disso é muito baixa. “Não damos espaço para este tipo de disco” foi algo que já ouvi de um editor. É uma opção, claro. Como a Célula Pop existe para desafiar este tipo de coisa, resolvi lembrar que não fizemos lista de piores discos de 2019, muito por conta do respeito aos profissionais envolvidos na confecção de um álbum. Tem fotógrafo, designer, todo tipo de pessoal de estúdio, enfim, uma galera que precisa trabalhar e dá graças aos céus quando surge uma demanda.

 

 

Minha consciência ficou muito mais leve quando vi que os dois piores e imperdoáveis trabalhos de 2019 foram lançados por gravadoras grandes, à moda antiga.  São eles: “O Baile do Silva”, do cantor e compositor capixaba … Silva e o “Acústico MTV” de Tiago Iorc. Em ambos os casos houve grana e planejamento suficientes para que tudo saísse bem, mas, como diria Chico Buarque, “qual o quê”. Cada um à sua maneira, “Baile” e “Tiago” são duas bombas articuladas com estratégias de mercado nocivas e que confirmam uma venda de alma e individualidade ao mercado, da forma mais visível e assumida. Eu ainda acredito que evolução artística não passa por descaracterização, apesar de, a cada dia que passa, ter minha posição questionada pelo neoliberalismo que erode tudo e todos. Sendo assim, em busca de cliques, projeção, divulgação e etc e tal, Silva e Tiago Iorc se movimentaram para confirmar sua posição de ex-independentes que assinaram com o sistema. Você pode me censurar e me chamar de ingênuo, se não fosse, estaria fazendo outra coisa além de um site de cultura pop a esta altura do campeonato. E, sim, é pra isso que existem espaços como este. Você nunca verá este tipo de opinião na grande mídia.

 

 

Tiago Iorc lançou um disco muito legal chamado “Troco Likes” há quase quatro anos. Era a passagem de seu trabalho para um novo nível de apreciação. Ali, Iorc manejava muito bem o talento natural de compositor e cantor em busca de uma audiência maior, com canções arejadas e modernas, no sentido Jason Mraz/John Mayer do termo. Arranjos legais, boa produção, o álbum foi um merecido sucesso e catapultou Iorc para o olimpo midiático nacional, a Globo. A partir daí, ele foi recebido como o mais novo talento da música brasileira, o cara que iria encampar a demanda nacional por novidade, além de ser bonito e descolado. Logo foi transformado numa espécie de não-símbolo sexual, algo meio noveleiro, meio Altas Horas e teve seu trabalho exposto e divulgado aos sete ventos, vencendo o protocolar Grammy Latino e por aí vai. Depois de algum tempo, lançou DVD Ao Vivo, participou do programa X-Factor, mas, do nada, Tiago, cansado e em busca de privacidade, sumiu das redes sociais, do vídeo e de todos os lugares.

 

Algum tempo – cerca de um ano, acho – passou sem notícias do sujeito. Silêncio na comunicação. O cara foi para os Estados Unidos, morava em Los Angeles, sumiu. Do nada, do mais absoluto éter, vem a notícia da Universal, a gravadora, que Iorc se pronunciara. Mais que isso, do nada, do mais absoluto éter, ele vinha com um novo disco, todo gravado lá fora, lançado via digital por aqui. E mais: ele vinha numa onda meio Chico Buarque, chamando o disco novo de … “Reconstrução”, posando como se fosse o meme Mano do Céu na capa. Além das faixas, um clipe para cada canção do disco, com momentos que variavam do pós-indie acústico ao … supostamente sexy, com suspiros, arfadas e demais questões referentes às vias aéreas. E, como se não bastasse, algum tempo – pouco – depois, a mesma Universal anunciou que a MTV iria retomar o lançamento de discos baseados no antigo programa Acústico MTV, e, imagine só, com … Tiago Iorc, num show em que visitaria o repertório do novo álbum. Sensacional para quem esteve em silêncio e reclusão nos últimos tempos, não? Eu acho.

 

Não que “Reconstrução” seja um disco ruim, pelo contrário. Ele só não é um trabalho pós-reclusão e nem reconstrói nada, é uma sequência para o que Tiago fez em “Troco Likes”, com um pouco menos de brilho e originalidade. Já o “Acústico MTV” é a celebração deste embuste. Nada revolucionário, fica preso à fórmula obsoleta e não acrescenta nada a um artista que já tem uma pegada acústica em seu trabalho. Ou seja, pra enganar fãs dispostos a consumir, consumir, consumir.

 

A gente resenhou “Reconstrução” aqui.

 

Com Silva a questão é bem pior. O outrora promissor cantor e compositor capixaba, responsável por belos discos como “Claridão” e “De Frente Pro Mar”, sofreu uma mutação terrível na qual abraçou com amor e alegria um repertório de axé noventista, com a intenção de fazer uma espécie de baile de carnaval indie-malandro, com releituras de Banda Beijo, Banda Eva, Ivete Sangalo e outros bichos. O álbum desfruta de toda a qualidade da Som Livre, tentáculo sonoro da Globo, e não economiza na produção. Tem a versão óbvia para “Tieta” e “Não Enche”, de Caetano, naquela onda Circo Voador/Lapa, que dá urticária até no mais bem intencionado ouvinte.

 

O disco é fruto de uma turnê que o músico faz pelo país e que deve continuar à toda força nesta proximidade com o Carnaval. É um exercício de estilo dos mais descabidos, um troço que só faria sentido se viesse algo como no filme “Yesterday”, no qual um músico obscuro e em baixa passa a ser o único conhecedor das músicas dos Beatles. Do contrário, todos os originais são absolutamente melhores, não que isso seja necessariamente bom.

 

A gente também resenhou o “Bloco do Silva” aqui.

 

Num tempo em que as pessoas batalham pelo lançamento de um novo disco, estes dois álbuns surgem como duchas fortíssimas de água gelada no coco alheio. Dinheiro, oportunidade, divulgação, projeção, visibilidade, tudo jogado no pântano da malandragem midiática e pela busca incessante de likes. Aliás, troquem esses likes por algo que valha à pena. Agradecemos todos desde já.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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