Silva – Bloco do Silva ao Vivo

 

 

Gênero: Pop, axé
Duração: 74 minutos
Faixas: 19
Produção: Silva
Gravadora: Slap/Som Livre

2 out of 5 stars (2 / 5)

 

Rapaz, o Silva se transformou numa espécie de Caetano Veloso indie após passar por um processo de downsizing artístico. Este disco/lançamento digital, é o registro de um show seu em sua Vitória natal, realizado em agosto deste ano. Confesso que sua audição me deixou – como diziam os antigos – bastante aturdido. Até bem pouco tempo, o cantor, compositor e multinstrumentista capixaba era uma das mais promissoras apostas da música nacional independente. O cara tinha a manha pra criar melodias e arranjos que evocavam o melhor de Guilherme Arantes e Lulu Santos, além de possuir uma assinatura própria, algo que tinha a ver com o olhar para o mar, para a distância, um clima de melancolia, de saudade. Onde foram parar essas referências, carambas?

 

O próprio Silva deu um sinal de aviso para o público quando lançou um álbum em que interpretava a obra de … Marisa Monte. Este disco se transformou em show – novamente registrado em CD/DVD em 2016. Depois ele soltou um álbum de inéditas, intitulado “Brasileiro”, em 2018, no qual estava contida a canção “Fica Tudo Bem”, na qual ele dividia os vocais com … Anitta. Aliás, esta e “A Cor é Rosa” são as duas únicas canções autorais que Silva inclui neste disco ao vivo. As outras 17 faixas são regravações daquilo que parece ser a ideia que a classe média do Sudeste do Brasil tem de Carnaval na Bahia. É aquela visão pasteurizada de folia, de animação, de abadá colorido pago com o décimo-terceiro. Aliás, o arranjo original de “Fica Tudo Bem”, que evocava certa doçura e vulnerabilidade, é substituído por um samba meio torto, que vitima de morte a intenção da gravação original.

 

Aliás, alguém com mais estofo poderia analisar este disco como a consumação da morte de um artista e sua substituição por outro. Sai o Silva compositor, promissor, cheio de ideias e entra um outro, capaz de interpretar uma playlist de carnaval feita no Spotify. Dá a impressão que o primeiro era só mais um Silva que a estrela não brilha. Nesta hipotética playlist estão aqueles sucessos convencionais dos programas de auditório dos anos 1990: “Bom Demais” e “Mal Acostumada”, do Ara ketu;  “Tá Tudo Bem”, do repertório de Ivete Sangalo; “Beleza Rara” e “Alô Paixão”, ambas da Banda Eva (nos tempos de Ivete Sangalo).

 

Além dessas, um pot-pourri simpático com as ótimas “Prefixo de Verão” e “Baianidade Nagô”, da Banda Beijo, talvez as melhores canções de todo o axé noventista. Ah, sem esquecer a profusão de canções do repertório carnavalesco de Caetano Veloso, de “Meia Lua Inteira” a “Tieta”, passando por “Não Enche”, sem falar em “Eu Também Quero Beijar”, de Pepeu Gomes; “Toda Menina Baiana”, de Gilberto Gil e “Uma Brasileira”, dos Paralamas do Sucesso. Fechando a tampa, temos Daniela Mercury dividindo os vocais em “Nobre Vagabundo”. Ou seja, é um disco com cara de fita cassete gravada em 1999 com os hits do carnaval de algum aluno da PUC-Rio.

 

Nada contra isso, claro. Silva está correndo o país com seu show e conseguiu fazer com que ele sobrevivesse ao tempo da folia momesca de 2019, adentrando as celebrações que antecipam os festejos de 2020. Será que ele não sente falta de cantar suas músicas autorais? Qual será o Silva a ser levado a sério? O compositor de antes ou o folião indie, moldado minuciosamente para consumo de um público maior? Você decide.

 

Ouça primeiro: “Prefixo de Verão”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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