“Drums and Wires” – XTC segue explodindo cabeças

 

 

O XTC é considerada uma dessas mais fantásticas e inventivas bandas de pós-punk. E antes mesmo de “Drums and Wires”, seu terceiro e marcante disco, o grupo já demonstraria, ainda que timidamente, em “White Music” (1977) e “Go 2” (1978), que seria capaz de incorporar sons, misturas e arranjos diferentes daqueles apresentados com mais proeminência em seus dois primeiros discos.

 

Foi no meio do verão de 1979, em 17 de agosto, que o XTC lançaria o seu diferenciado “Drums and Wires”. Se pensarmos que 1979 foi o ano do falecimento de Sid Vicious, conseguimos até perceber o motivo de algumas bandas daquela época estarem transitando entre o fantasma da sonoridade punk e a descoberta dos novos sons que estavam chegando.

 

Grande época. Foi também o ano de lançamento de “London Calling” do The Clash, “Unknown Pleasures” do Joy Division, “Eat to the Beat” do Blondie”, “Join Hands” de Siouxsie and the Banshees, “Setting Sons” do The Jam, “One Step Beyond…” do Madness, “Duty Now for the Future” do Devo e “Reggatta de Blanc” do The Police.

 

Dito isto, não é difícil perceber o caldeirão de criatividade que as bandas poderiam aproveitar para fazer as suas poções mágicas que tornaram esse momento um dos mais curiosos e conquistadores da história da música. Os exemplos dos lançamentos de 79 nos fazem sempre voltar àquela velha dicotomia: o pós-punk por um lado, e o new wave por outro. Há tantas teorias para diferenciá-los, outras para aproximá-los. Mas uma coisa é certa, especialmente com “Drums and Wires” do XTC, talvez não estejamos falando, necessariamente, de gêneros musicais, mas sim de uma era.

 

O XTC era uma banda britânica no fim da década de 70 – e isso, por si só, já fala muita coisa. Agora, imagine experimentar as suas mais diferentes e talvez até um pouco tresloucadas ambições. Foi isso que Andy Partridge, Colin Moulding, Terry Chambers e Dave Gregory fizeram – e este último havia acabado de entrar para o XTC, substituindo, com as suas guitarras, o tecladista Barry Andrews.

 

“Drums and Wires” é o terceiro disco do XTC e, sim, foi aquele que definiu para a banda uma sonoridade marcada e autêntica. Por ser autêntica, o XTC ganhou mais relevância. Com seu único single, “Making Plans For Nigel”, conseguiu chegar às principais paradas britânicas e americanas. O título do disco fala por si: o intuito da produção era enfatizar as guitarras e as baterias, com sons limpos, diretos e groove-pop audacioso. Mais do que isso, o produtor Steve Lillywhite mantinha a ambição de criar no terceiro trabalho do XTC um verdadeiro som de “big drum”. E o XTC soube escolher bem o produtor para esse encargo, pois Steve havia produzido, no ano anterior, “The Scream” do Siouxsie and the Banshees – e sabemos bem que foi Steve o responsável por mesclar os ritmos pesados de baixo e bateria, dando ao som de “The Scream” uma toque menos claustrofóbico.

 

O disco foi gravado em quatro semanas, e a crítica especializada dizia que “Drums and Wires” era o “som de bateria que arrancaria a sua cabeça”. Definitivamente a pretensão do “big drum” deu certo. E, enfática, a crítica acertou. Alguns diziam que aquilo era uma verdadeira joia do art-pop. Se uma das consequências do pós-punk foi ampliar o conceito do punk – liricamente, artisticamente e musicalmente, algumas bandas como o XTC conseguiram tornar tudo mais ainda interessante.

 

Apesar de estarmos falando de guitarras e baterias, ironicamente, a canção com mais notoriedade do disco e uma das mais emblemáticas do grupo não foi escrita pelo guitarrista Partridge ou pelo baterista Chambers, mas sim pelo baixista Moulding. “Making Plans For Nigel”, canção que abre a viagem inventiva de “Drums and Wires”, se tornou um dos grandes hits do new wave alternativo ou do pós-punk diferentão (se é que possamos assim dizer). Realmente, “Making Plans For Nigel” estava à altura do espirituoso terceiro disco do XTC. Apesar de qualquer coisa, foi também com “Drums and Wires” que Andy Partridge, Coling Moulding, Terry Chambers e Dave Gregory se consolidaram como compositores.

 

Entre arranjos minimalistas, sons diretos, pop melódico e inventivo, uma pitada de reggae e mais algumas de ska, funk, art-rock, punk e até mesmo Beatles (sim, o quarteto de Liverpool está sempre em quase tudo), todos os momentos de “Drums and Wires” são bem aproveitados. Não apenas musicalmente, mas também liricamente. As letras são de personalidade interessantíssima, pois nos apresentam emoções referentes ao mundo moderno – aquele em que a tecnologia, ao mesmo tempo, nos encanta e assusta (aliás, lembre-se que foi em 1979 a Sony lançou o nosso querido – ou não – walkman), e em que os humanos, pegando de empréstimo da fala de Nietzsche, continuam demasiado humanos, com suas emoções simples e complexas.

 

Sim. Algumas bandas eram mais radicais que o XTC. Outras, mais voltadas ao mainstream. Alguns diziam que o XTC era apenas uma nova versão do Talking Heads. Mas foi com “Drums and Wires” que a banda apresentou um novo modelo inventivo e criativo, com eficácia de composição, abrindo as portas para a criação de seus outros fantásticos discos como “Black Sea” e “English Settlement”. XTC foi e continua sendo, de fato, uma banda essencial e consolidadora de um tipo de música emergente na sua época, pois apresentou canções pouco convencionais, muito autênticas e extremamente cativantes, abrindo o caminho para que outras bandas fizessem o mesmo: explodir nossos ouvidos com sons magnéticos! Com “Drums and Wires”, o XTC segue explodindo cabeças

 

 

Sobre a capa: Não! Não é um disco do Toto. Andy Partridge sempre encarou a banda com uma certa obsessão de deixar nela uma identidade. O terceiro disco revisitou o logo usado pelo grupo em 1977 no seu álbum de estreia, o “White Music”. Quem havia tornado o nome da banda em um rosto foi Jill Mumford, depois de ouvir as ideias de Partridge. Jill rabiscou o rosto em um maço de cigarros. As cores primárias combinaram bem, e também foram a pedido de Partridge. Olhando para o resultado, eu sinto que “Drums and Wires” é daqueles discos sem enrolação. É direto. Especialmente na capa, que combinou perfeitamente para reconhecermos, no primeiro olhar, o que estamos ouvindo.

 

Ouça primeiro: a canção catchy “Making Plans For Nigel”.

Maisa Carvalho

Maísa Carvalho é piauiense com toques paulistas, estuda Direito, é curiosa com as coisas do mundo, amante das artes humanas e apaixonada por música.

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