Paul McCartney – McCartney III

 

Gênero: Rock

Duração: 45 min
Faixas: 11
Produção: Paul McCartney
Gravadora: Parlophone

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Quis o destino que este “McCartney III” surgisse num ano como 2020. A exemplo de seus dois antecessores, lançados em 1970 e 1980 – anos “cheios – trata-se de um álbum em que Paul McCartney assume total controle da criação, execução, produção e tudo mais. É o proverbial “bater escanteio, cabecear, fazer o gol e levar a bola para o meio de campo”. Tudo o que se ouve aqui é pensado e tocado por Paul, o que é algo sempre revelador, pois muitos ainda pensam que o ex-Beatle é um “bobão”. Que faz shows “cômodos”, baseados nas glórias do passado coletivo ou solo e que, há muito tempo lança discos “normais”. Bem, claro que esta visão, caso exista mesmo, é cheia de equívocos e preconceito. Paul é um gênio da produção pop/rock, inventou um monte de coisas que se tornaram clichês e será lembrado quando o museólogo do século 35 estiver organizando o setor “músicos vitais do século 20”. “McCartney III” é um disco menos experimental, mais reflexivo, mas que pode – e vai – surpreender muita gente, inclusive os fãs.

 

Gravado em casa, em meio à pandemia da covid, Paul, 77 anos, concebeu as onze faixas e as executou. Se permitiu fugir de vários formatos convencionais que, sim, ele tem explorado nos últimos lançamentos, ainda que seu último trabalho, “Egypt Station” (2018), mostre que o homem não sossega e ainda tem muita inspiração em si. Longe da mesmice, dá pra gente entender este “McCartney III” como um disco esteticamente semelhante ao anterior, mas só em nuances. Também há algo do último trabalho em que ele deu algum sinal de renovação estética, o ótimo “Chaos And Creation In The Backyard”, de 2004. Aqui, de fato, Paul se permite vôos mais altos e acaba reencontrando uma de suas mais raras qualidades, a experimentação, algo que ele deixa de lado há tempos, justo em favor de uma forma de produção que, sim, é mais confortável, mas nunca é menos bela. Mas quem conhece o Macca experimentador de estúdio, sabe muito bem do que o homem é capaz quando está livre para brincar com timbres, mesas, efeitos e demais apetrechos. As onze faixas deste novo trabalho são cheias dos mais diversos tipos de ousadia mccartneyana possível em 2020.

 

Em tempo: quando falo em experimentação, não falo em algo como “Temporary Secretary”, faixa icônica do “McCartney II”, na qual Paul brinca com a eletrônica do Kraftwerk e outras doideiras da época. Os arroubos que Macca se permite aqui são típicos de um músico cascudo, que viveu e viu absolutamente tudo nesta vida. Não espanta, portanto, que ele venha evocando um por de sol no campo, traduzido em canções calcadas em violões acústicos ou mesmo em instrumentais, caso de “Long Tailed Winter Bird”, que abre o álbum com lirismo. Aliás, como bom álbum com linhas e conceitos claros, o fecho vem com a segunda parte deste canção, “Winter Bird: When Winter Comes”, que evoca o mesmo andamento acústico, mas chega com letra que fala da passagem do tempo e de como ela impacta em nós, não importa quem sejamos. O tempo passa pra todos, lembram? Neste mesmo terreno, mas um pouco adentro no terreno do rock mais clássico, Paul também brinca com “Find My Way”, que poderia estar em “Band On The Run” sem qualquer problema.

 

Já “Pretty Boys”, também acústica e reflexiva, lembra diretamente canções como “Junk” ou algo que Macca costumava gravar na época de “Ram”, de 1971. A melodia é linda de morrer, no melhor padrão que o homem nos brinda há tanto tempo. “Woman And Wives” é balada ao piano, coisa linda que evoca tantas e tantas outras composições que ele já fez ao longo da vida. Imagino como deve ser difícil tratar com o tema, tendo ele experimentado relacionamentos bons e péssimos. “Lavatory Lil” ostenta uma linha de origem diretamente beatle, lembrando algo que poderia estar no “White Album”. O andamento é roqueiro, enguitarrado, com força e propriedade. Assim como ela, “The Kiss Of Venus” também poderia estar lá, mas no setor acústico.

 

A mais bela canção do álbum é “Deep Deep Feeling”, que tem quase oito minutos e meio de duração e, sim, é o momento em que Paul mexe na mesa do estúdio, imprime efeitos, coros, detalhes, percussões e todo um arsenal de criatividade. É, de longe, a melhor gravação dele desde, pelo menos, “My Brave Face”, de 1989. “Slidin'” é outro rockão, parente direto de “Let Me Roll It” (de “Band On The Run”). “Seize The Day” e “Deep Down” completam os trabalhos, sendo que esta última é outra colossal faixa, com o prazer de ouvir Paul na bateria, mostrando sua batida tão característica, em meio a teclados, pianos elétricos e metais sintetizados.

 

“McCartney III”, assim como seus dois irmãos mais velhos, é produto de seu tempo. Marca uma parada reflexiva na carreira, um olhar para frente e para trás e antecipa novos momentos. Com tanto já vivido, não é de espantar que ele seja a aposentadoria de Paul em relação ao estúdio, algo que, por outro lado, parece impossível para alguém tão criativo e inquieto. Mas, caso seja mesmo um adeus do estúdio, ele terá se despedido com seu melhor álbum em uns 40 anos.

 

Ouça primeiro: “Deep Deep Feeling”

 

 

+3

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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