Lápides Mentais
Dia desses um amigo veio me contar que um conhecido em comum havia morrido. Uma infelicidade, inesperada, começou o dia de um jeito e, pronto, terminou assim, sem vida.
Eu tinha pensado nesse conhecido em comum não havia muito tempo. Algumas semanas, talvez. Passei pelo perfil dele no Instagram, vi que me seguia, mas todas as publicações eram antigas. Não me dei ao trabalho de retribuir. Até porque tinha o quê, coisa de quinze, vinte anos que não nos encontrávamos? Não consigo dizer. É provável que tenhamos passado um pelo outro na rua, nos cumprimentado, mas não conversado. Não sei bem sobre o que falaríamos, caso tivéssemos tentado.
Numa das últimas publicações, ele falava de um tema de seu interesse. Falava bem, boa dicção, fala articulada, mas me ative a um ponto: ele já não parecia tão feio como era quando novo.
O morto que me desculpe, mas ele era muito feio quando novo.
No vídeo, alguns quilos a mais, cabelo devidamente cortado, dentes melhor alinhados. Um feio normal, nada notável. Passaria despercebido no transporte público, o que com certeza não acontecia em outros tempos.
Agora, com a notícia da fatalidade, lembro desse momento, lembro dessa impressão e rio sem graça da minha própria cretinice.
O amigo que trouxe a notícia — que, a bem da verdade, não era uma novidade; soube alguns dias antes de nos encontrarmos — uma vez sofreu um acidente de bicicleta. Quebrou os dois antebraços em regiões parecidas. Foi engessado com os dois bracinhos dobrados pra frente, condenado a permanecer segurando em um guidão invisível por umas quatro ou seis semanas. Condenado a receber comida na boquinha, a precisar de ajuda para ir ao banheiro, qualquer que fosse o motivo. Obviamente, condenado a ouvir piadas de mau gosto por mais tempo do que aquele que precisou estar imobilizado.
Quando nos reencontramos depois de alguns anos, lembrei dessa história. Contei para os presentes. E, se um dia alguém, surpreso com o fato de nos conhecermos de outros tempos, perguntar, provavelmente vou comentar sobre essa história novamente.
— Uma vez ele quebrou os dois braços, andava assim, como um tiranossauro inofensivo, um Horácio com braços de gesso.
A gente é tanto e faz tanto e, no entanto, quando vai, o que deixa?
Num breve piscar e a gente resumido numa lápide mental de quem nos conheceu em algum momento, só uma frase, só uma palavra.
Ele era feio.
Ele engessou os dois braços.
Ele escrevia bobagens.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
