Rock In Rio 2026: demoramos, mas entendemos
Eu não fui ao Rock In Rio 2026. Nem vou. Não cubro o evento desde 2019, quando estive para ver os shows de Nile Rodgers e Weezer. Claro, teve Foo Fighters também, como não? Deve ter tido Capital Inicial, Red Hot Chili Peppers, Guns’n’Roses, essa turma. Teve Alok também. E, claro, teve Sepultura. Eu só lembro que era a época em que o Weezer estava divulgando seu álbum de covers, chamado de “Teal Album”, então, as canções que mais levantaram a galera foram as covers de “Africa” (Toto) e “Everybody Wants To Rule The World” (Tears For Fears). Acho. Baita deprê, mas fazer o quê, gente? Não faz tanta diferença assim, mas aquela deve ter sido a última edição do festival a trazer algo de minimamente interessante no chamado Palco Mundo. Felizmente há outros eventos que se responsabilizam pela manutenção de uma conexão em tempo real entre nós e o que está acontecendo no mundo em termos artísticos. Primavera, Lollapalooza, C6, as iniciativas bravas de gente sensacional como a Balaclava e a Maraty, além das demais produtoras independentes. Gente que merece todo o nosso respeito porque, além de insistir nessa misteriosa conexão entre nós e o presente, sua sangue e corre risco real ao trazer atrações pouquíssimo conhecidas da nossa cada vez maior massa de insensatos. Mas esse texto não é sobre essa conjuntura, mas sobre um estalo que tive ao ver algumas postagens no Instagram. Gente que foi à Cidade do Rock para caçar … brindes. Daí me dei conta de algo óbvio, que faz todo o sentido do mundo: há uma desproporção entre a penúria da escalação de bandas e artistas e a inventividade das ativações e ações de merchandising presentes no evento, o que só me faz concluir algo: o Rock In Rio de 2026 pode marcar o início de uma nova era, a que a pessoa disputa mais os estandes e seus brindes do que o lugar perto do palco.
Esse raciocínio me deu paz e alívio. Até então, eu pensava que estávamos diante de uma grande pasmaceira, que envolve alguns atores específicos. Primeiro, temos uma parcela significativa da imprensa supostamente alternativa, cooptada pelas migalhas dadas pela organização do festival, permitindo que usufrua de salas refrigeradas, boca livre e acesso continuado às edições, tudo em troca de afago, divulgação, aval e atribuição de relevância a atrações que não movem mais uma palha no tabuleiro do mercado mundial (pense, em que lugar do mundo gente como Ne-Yo ou Nelly tocariam para públicos tão grandes? Ou onde alguém diria que o Foo Fighters é a maior banda de rock do planeta?). Depois, a imprensa hegemônica, há muito domesticada pelas relações comerciais temerárias que aparam qualquer possibilidade de visão crítica e chance de fazer a organização do festival perceber que precisa modificar algo. E, por fim, a própria organização do evento, mas o “estalo” que tive, finalmente explica e justifica sua postura. O verdadeiro motivo da existência do Rock In Rio não está mais nos palcos, gente, está nos estandes. É simples. Senão vejamos.
Para cada apresentação das Nova Twins, do Black Pantera, de Jon Batiste e de Laufey, existem várias ativações “geniais” de marcas e a gente vai agora resenhar com toda a consideração que o evento merece. No estande do Doritos, é possível rodar uma roleta e ganhar brindes sensacionais – um chapéu, pins ou mesmo um pacote do salgadinho, na sua versão turbinada! A Natura está dando pochetes e gloss pra galera! No estande do Tic Tac, é possível montar tic tacs personalizados com os seus sabores preferidos, subvertendo assim a lógica empresarial que teima em escolher por você. E ainda dá pra levar ele pra sua casa! Também tem o estande da Kinoplex, que está divulgando o novíssimo filme da franquia “Jogos Vorazes”, mas, se você for fera, respondendo direitinho ao quiz, leva um lenço do longa, vale-ingresso e pipoca! E, mais: você ainda pode trançar o seu cabelo! Por essa ninguém esperava! E mesmo que você não vá ao estande, tem button distribuído no gramado, ou seja, não dá pra escapar. Na Tim, se você participa da ativação, ganha um vídeo seu feito por um drone e uma sensacional ventosa de celular. Na Movida, se você mandar bem no jogo de dança, pode levar leque personalizado, pulseira ou cabo para celular. E a Drogaria Venâncio está dando pelúcias roqueiras de bichinhos! Se você acertar as músicas que estão tocando, é certeza levar um amiguinho peludo para casa. Na Piracanjuba, você pode ganhar uma bebida Whey e na C&A, você joga o jogo da memória e pode ganhar vários brindes – pins, boné, camiseta, bolsinha ou jaqueta, sem falar que você vai poder personalizar alguns itens.
E tem mais: A Philco vem com um jogo musical que pode render ao vencedor uma caixa de som, mas todo mundo ganha uma minibag (que é a nossa pochete com nome para a galera achar sensacional) ou um pin. O Itaú vai dar copos e capinhas para óculos. A Schweppes vai dar SHOULDER BAG E BUCKETHEAD, a Latam vai dar necessaire (deve ser vazia), IFood vai dar button e minicâmera, a Axia vai dar ringlight e corta-vento, Trident vai dar SHOULDER BAG e leque, a Coca-Cola vai dar um chaveiro com mini-CD que vai ter uma playlist EXCLUSIVA feita por um veículo especializado em música, o Google Gemini vai dar mini-CD, a cerveja Lagunitas vai ter karaokê inspirado na Califórnia, onde vão dar palhetas personalizadas e chopp, a Superbet vai dar SHOULDER BAG, a Prudential vai dar carteiras, a Prevent Senior vai dar porta-copos e ventilador portátil, a DHL vai dar mini-câmeras, a Vale vai dar necessaire, a Volkswagen vai dar abraça-copos (!!) de pelúcia e Café Três Corações vai dar copos de refil de café, nos quais você pode cuspir seu estômago fora de tanto tomar café, além de um TAMAGOTCHI PERSONALIZADO.
E tem mais: dá pra CASAR na Cidade do Rock, ir ao cinema ao ar livre, tirar foto ao lado do … Passat branco do Roberto Medina (o fundador do festival) e comprar produtos artesanais na Feira Hype. Isso sem falar nos clássicos espaços da Heineken, com DJs e ativações que geram playlists para os participantes, a já clássica Tirolesa, mais importante que qualquer show da história recente do evento e um sem-número de outros motivos REAIS para a pessoa dar as caras no evento. Se os públicos dos shows não estão lá essas coisas, os estandes dão voltas e mais voltas, o que garante, felizmente, mais uma edição daqui dois anos. Se a gente olhar para a inventividade e a diversidade de brindes e ativações que são disponibilizadas no Rock In Rio – elas aumentam exponencialmente de edição para edição – e compará-las com a penúria do line up de bandas e artistas, concluiremos que, salvo raríssima exceção, o Rock In Rio é isso aí. Agora, como todo produto, se não comprarmos, criticarmos, discutirmos, ele muda ou até sai das prateleiras do mercado porque, entra século, sai século, é oferta e procura. Só.
Em tempo: preferimos não fazer parte disso DE JEITO NENHUM.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
