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Mike D no futuro do passado recente

 

 

 

 

Mike D – Thank You
39′, 13 faixas
(UMG)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Este disco é um lançamento importantíssimo. Primeiramente por trazer de volta Mike D, um dos três Beastie Boys, o primeiro a produzir algo próprio desde 2012, quando Adam “MCA” Yauch morreu precocemente por conta de um maldito câncer. Em segundo lugar, Mike reaparece com a ajuda de seus dois filhos, Skyler e Davis, a bordo de uma nova banda, o 5D, ostentando uma sonoridade caleidoscópica, fracionada e maravilhosa. Talvez não agrade a todo mundo, visto que ela é deliciosamente datada, tudo aqui parece feito no início dos anos 2000. Lembra Avalanches, lembra Beck, lembra Chemical Brothers, lembra LCD Soundsystem e até parece com o Gorillaz inicial, a saber, todos artistas e bandas muito influenciados pelos Beastie Boys. Este detalhe pode bater de frente com a monótona obsessão do “novo pelo novo” da indústria musical em sua faceta mais, digamos, crítica, porém, a excelência das canções, dos samples, da produção e de todo o conceito do álbum fazem a máxima de Nelson Rodrigues parecer sem sentido. O dramaturgo disse, lá em 1968, que “nada é mais velho que o passado recente” e, no caso deste disco de Mike D, estes 20 e poucos anos transcorridos, que parecem inexistentes na feitura de “Thank You”, não fazem a menor falta. Vejamos.

 

Esse disco é, como dissemos, um produto da interação de Mike com os filhos. Pensou, concebeu e gravou tudo em casa, num estúdio próprio, dando espaço para as ideias que tinha e que canalizava para álbuns de outras bandas, como, por exemplo, The Hives, que produziu. Ele soa como uma visão otimista, talvez a última que tivemos, sobre o futuro. Cheio de canções deliciosamente tortas, muito a caráter do que os Beastie Boys faziam, misturando rock branquela e urbano com batidas de hip hop captadas na metrópole, ouvidas no rádio, vistas em desafios de rima, em várias situações adjacentes, que levaram Mike e seus amigos a produzir obras primas como “Paul’s Boutique” e “Ill Comunication”, que pavimentaram o caminho para que várias pessoas enxergassem as possibilidades de fusão dessas batidas de hip hop com o que se tornaria o indie rock a partir dos anos 1990. Quando falamos que os BB’s foram pioneiros, não estamos exagerando, foram eles que viabilizaram tudo isso, além de institucionalizar o uso do sampling como uma ferramenta poderosa e fascinante na produção musical. A meu ver, esse é o aspecto mais sensacional de seu legado, mas tudo bem. O fato é que “Thank You”, de alguma forma, encapsula toda essa sensação de novidade de vinte, trinta anos atrás, provando que ainda é … novo.

 

Mesmo assim, nada do que está presente em “Thank You” seria considerado cool por quem faz hip hop ou música dançante hoje. Não tem “electrofunk” ou “indie disco” em nenhuma das doze faixas presentes, ou seja, elas não são “feitas pra dançar” de acordo com os padrões vigentes. Porém, desafio qualquer criatura viva a ouvir esses quase 40 minutos sem mexer uma parte do corpo. Tudo aqui é maravilhosamente pensado com esta intenção, usando signos e códigos que acabaram de perder a vigência ou validade. Por exemplo, o drum’n’bass em câmera lenta que abre a primeira faixa, “Switch Up”, parece fora de rotação, chega a lembrar um pouco “Firestarter”, do Prodigy, introduz uma levada turbinada por uma linha de baixo virtuosa. Dá pra pensar em tudo sendo feito no estúdio, com poucos samples inseridos. A faixa lembra algo que Beck poderia fazer em “Odelay”, mas o que seria avant-garde nele, hoje soa deliciosamente velhusco. “What We Got” é puro Beastie Boys revisitado, aquela batida cíclica meio hardcore desacelerada batendo de frente com beats de hip hop hipersonorizados, tudo jogado numa centrífuga e refeito num milkshake de uma fast food que não existe mais. Porém, que ainda é delicioso.

 

“True Colors” é outra maravilha presente aqui. Começa como mais uma canção que poderia ser de Beck em seus momentos mais brilhantes, esta aqui talvez coubesse melhor em “Midnite Vultures”, mas, em algum momento no meio da faixa, tudo desacelera e vai para o terreno dos australianos geniais do Avalanches, com samples misteriosos e andamentos melódicos que dão as caras sobre a camada de beats rítmicos. “Make It Stop” é outra criação feita para o movimento corporal intenso, um pequeno milagre de funk’n’hop torto, genial, adoravelmente nerd. “Crypto” é puro Beastie Boys fase “Intergalactic”, cheia de filtros e idas e vindas sonoras no subterrâneo, feita para dançar com fones de ouvido, prestando atenção em tudo. Tem a maravilhosa “Back To Start”, outra faixa que parece de outro álbum e outra banda, no caso dos já mencionados Avalanches, em sua obra prima, “Since I Left You”. O sampling de batidas e da própria estrutura da canção vai revelando uma adorável luminosidade tropical, na qual a praia, a luz do sol e todos os elementos que surgem essas imagens vão surgindo na canção, tornando-a uma pequena pérola à beira-mar. Também me lembrou uma daquelas faixas praianas do Sugar Ray, tipo “Someday” ou “Every Morning”, lembra delas? O fim, com a faixa-título, com guitarras dedilhadas a princípio e batidas em ricochete em seguida, é o aceno dessa musicalidade que Mike D ostenta hoje: genial, datadinha, adorável.

 

“Thank You” é um convite a reflexões, novas velhas formas de enxergar a música, a eletrônica e as possilidades entre os estilos – ainda vigentes – de indie rock e hip hop. Será que não deixamos nada ainda válido e sensacional para trás? Enfim, este álbum é uma pequena tarde em 2001 e isso soou sensacional, pelo menos para mim.

 

Ouça primeiro: “Thank You”, “Back To Start”, “Crypto”, “Make It Stop”, “True Colors”, “Switch Up”, “What We Got”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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