Violins é incapaz de errar a mão

Violins – Aguacêro
34′, 8 faixas
(Monstro)
(4,5 / 5)
“Um novo fracasso é uma oportunidade // É o que te garantem os velhos motores do capitalismo // E nós empreendedores”. Esse é o Violins abrindo seu décimo disco, “Aguacêro”, com mais uma belíssima canção. “Drones”, além de iniciar esse novo percurso sonoro, meio que funciona como uma síntese da própria poesia da banda – uma visão existencial e humana da nossa condição de pessoas vivendo num país como o Brasil, mas com capacidade de compreender contextos que vão além do nosso próprio nariz, nos percebendo como parte de algo maior, seja a sociedade, seja o planeta, seja ainda mais além. E quem se posiciona para fazer essa tradução em nome da banda, para nós, ouvintes, é Beto Cupertino, que, como você pode conferir em entrevista que publicaremos em breve sobre o disco e o grupo, é um pensador em constante low profile. O Violins completa seu jubileu de prata e segue quase inalterado em relação ao início de sua trajetória – uma banda que se dispõe a proporcionar transe sonoro com seu bem azeitado modelo de rock emocional da virada do milênio, tendo Built To Spill e os primeiros discos do Death Cab For Cutie como ponto de partida e, de quebra, fazer as pessoas pensarem, refletirem e tentar compreender melhor o que acontece. Beto faz isso sem pretensão didática de qualquer espécie, ele funciona como um literato, um acadêmico. E nada por aqui soa difícil, incompreensível, pelo contrário.
Essa menção às inspirações gringas do grupo entrega apenas uma parte do espectro sonoro do Violins. Há muito de rock nacional atual, especialmente de bandas como Maglore, num movimento que busca enxergar um caminho harmonioso, próprio e interessante, equilibrando elementos nativos na receita de uma forma natural. Um bom exemplo disso está na segunda faixa de “Aguacêro”, a impressionante e belíssima “Chuva de Vento”, que tem quase seis minutos de duração e vai misturando explosões controladas de guitarra com uma letra belíssima “Tento, mas não sou bem-vindo // Na chuva de vento que é você caindo” e mais adiante, “O inferno é lindo // Inferno é gente sendo”. Não dá pra ouvir essa canção sem parar por alguns instantes e pensar no que ouviu. Essa é a grande mágica do Violins, essa capacidade de tirar a pessoa da rotina, do cotidiano. Além de Beto, a banda traz os grandes Pedro Saddi (teclados e piano), Fred Valle (bateria) e Thiago Ricco (baixo e voz), com a participação importantíssima de Gustavo Vazquez, que, além de produzir o disco junto com a banda, no estúdio Rocklab, assume funções de baixista quando é necessário.
Esses sujeitos fornecem a barragem sonora adequada para as letras que Beto vai colocando para o ouvinte ao longo dos 34 minutos de “Aguacêro”. Aliás, a metáfora do título, como algo que tem muita força e nos priva de controlar nossas próprias ações ao longo de pequenas e enormes situações da vida, está por vários cantos do álbum. Em “Ponta e Meio”, terceira canção do álbum, a letra termina com o termo “enxurrada”, como se fosse algo absolutamente impossível de conter, no caso, a existência das pessoas sob as injustiças que não são resolvidas. Na faixa seguinte, “Inundados”, usando de imagens surrealistas, em que o Cerrado se alaga, na pele do narrador crescem escamas de nadador e, por fim, o aguaceiro que deságua sobre nós faz de todos meros seres sem poderes. É uma visão bem peculiar de distopia cotidiana, de miséria e vulnerabilidade extrema, disfarçadas de mera casualidade, apontando para buracos quase sem fim no asfalto da alma humana vigente. E tudo isso vem com uma levada com ótima linha de baixo, bateria nervosinha e um arranjo que ainda privilegia a dança.
“Ápices”, logo em seguida, já vai por um caminho mais plácido, mas nem tanto. A letra corta como faca e sentencia um dos versos mais fortes do ano: “memória é azar”. E Beto vai letra adentro, “O ápice da sua vida passou // Você só está rolando o tempo // Você só está rolando morro acima como Sísifo // Nada disso fez você crescer”. Pense – quem na música brasileira, pleno 2026, é capaz de fazer uma letra com a imagem do mito de Sísifo no mesmo lugar do absurdo e do impossível, como fez um tal de Albert Camus há mais de oitenta anos? Em “A Pressa é Insone”, novamente a levada traz uma linha de baixo vigorosa, com guitarras que vão acompanhando para explodirem no refrão logo adiante: “Não é difícil ver // Que é preciso ter um compromisso de esquecer // O tempo que já foi”. “Sóbrio Convívio” engana um pouco o ouvinte, que pensa estar num momento mais plácido do álbum, novamente com a sensação de soar como algo de um Lô Borges entrando nos quarenta anos, mas as guitarras pesam próximas ao fim. E o fim de tudo, com “Mais ou Menos”, uma canção de amor, que encerra com mais versos fortes e belos: “Vem, me joga em outra vida // Longa e linda // Vem me mostra o tempo // Vem me mostra o seu som // No lado bom do meu coração”. Se o arranjo aqui começa como voz e piano, guitarras, baixo e bateria entram do meio pro fim e conduzem a canção, como um cortejo, que termina como um sopro.
“Aguacêro” é um disco que reafirma a maestria e a força do Violins, uma das raras bandas brasileiras que não abre mão de instigar o ouvinte a pensar. Sua música não é só para ser “desfrutada”, ela é planejada mais como um momento de comunhão entre artista e ouvinte, por mais utópico e ingênuo que possa parecer. E mais belo também.
Ouça primeiro: “Chuva de Vento”, “Drones”, “Inundados”, “Ápices”.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
