Disco ao vivo e documentário celebram a majestade do Pulp

Pulp – Live!
88′, 18 faixas
(Rough Trade)
(5 / 5)
É bom que alguém diga: nem só de Oasis viveu o britpop. Em meio à overdose de documentários e burburinhos diversos em torno da volta dos irmãos Gallagher aos palcos, é preciso estar de olhos e ouvidos atentos ao que realmente importa quando o assunto é o rock alternativo inglês dos anos 1990, mais conhecido popularmente como “britpop”. O Pulp, banda que talvez tenha encarnado com mais precisão o espírito daquele tempo, está a menos de um mês do lançamento de seu filme “What Do You Do For An Encore?”, que irá para os cinemas do Reino Unido, Canadá, estados unidos e México e, a partir de 25 de setembro, dará as caras na Mubi. A direção é de Garth Jennings, o mesmo de “Guia do Mochileiro das Galáxias” e “Sing”, e vai mostrar, seu show de 13 de junho do ano passado na O2 Arena, além de imagens inéditas da banda em sua extensa carreira. Como trilha sonora, o Pulp está lançando este sensacional “Live!”, composto por dezoito faixas e quase noventa minutos de duração, com tudo a que os fãs têm direito – versões maravilhosas de clássicos indiscutíveis da banda, show de carisma de Jarvis Cocker, o verdadeiro mestre de cerimônias comportamental do rock inglês noventista, finalmente colocado num lugar de máximo destaque.
A primeira parte desse ressurgimento veio com o lançamento do ótimo “More”, o primeiro disco de inéditas do Pulp desde 2001. Também este foi o álbum que marcou a nova formação da banda, sem o baixista Steve Mackey, falecido em 2023, durante o processo de composição e gravação das onze ótimas canções do disco, no qual foi substituído por Andrew McKinney, do James Taylor Quartet. Deixamos de resenhar “More” quando ele saiu mas vamos situá-lo corretamente neste processo. Além da retomada da carreira, ele subiu rapidamente nas paradas britânicas e se tornou um novo favorito dentro do catálogo do Pulp, igualando o feito de colossos como “Different Class” (1995) e “This Is Hardcore” (1998). Não por acaso, “More” fornece um terço do repertório de “Live!”, que é o registro duplo deste show e que serve como fio condutor do documentário rodado por Garth Jennings, que mistura este retorno com a história da banda. Nada mais justo. Sendo assim, lá estão o proto-disco-funk bowieriano de “Spike Island”, a canastrice deliberada de “Slow Jam”, versão superior de “Farmers Market” (melhor que no álbum de estúdio), a clasheriana “Grown Ups”, a extravagância disco-glam de “Got to Have Love” e a orquestral “A Sunset”, fechando o show, assim como fechou “More”.
O restante do repertório se divide entre os quatro excelentes trabalhos do Pulp entre 1994 e 2001, sete anos de criatividade exuberante. A lamentar apenas a ausência de mais faixas do excelente “We Love Life”, produzido por Scott Walker, de 2001, que só responde com a presença da emocionante “Sunrise”. Se a esplendorosa “The Trees” estivesse neste setlist, o show seria exponencialmente superior, mas tudo bem. Não há muito o que reclamar de uma apresentação que traz, além dessas canções já mencionadas, outras porradas do porte de “Help the Aged”, o libelo pró-velhice irônico que puxou o impressionante “This Is Hardcore”, talvez o meu álbum preferido da carreira do Pulp, lançado em 1998. Além dela, a retumbante faixa-título está obviamente presente, com cada milímetro de seu arranjo dramático, calcado em notas gordas de piano e cordas sintetizadas (ao vivo executadas por um naipe de cordas real) e avançando pelos caminhos subterrâneos da alma. Assim como “The Trees” seria bem-vinda, a ótima “Party Hard”, algo entre uma demo do Chemical Brothers e o David Bowie daquele 1998, estivesse incluída, mas, novamente, tudo bem.
É com o conjunto de faixas pertencentes a “Different Class” (1995) e “His N Hers” (1994), além de um surpreendente single avulso. Do primeiro temos a kinkeriana “Mis-Shapes”, o hino nacional “Common People”, a ótima “Disco 2000”, que na versão ao vivo ganha um riff de guitarra que me lembrou algo que os Rolling Stones fariam se fossem substituídos por dândis do multiverso da loucura. Ainda temos a ótima, melancólica – e esquecida – “Something Changed”, que ganha um pouco mais de alegria nessa versão ao vivo e “Sorted for E’s & Wizz”, outro colosso daquele meio de década, no ponto exato entre a canastrice, o britpop e um David Bowie que mimetizou, sei lá, Barry Manilow. De “His N Hers” dizem presente o hino mundial “Babies” (o mais pop que o Pulp chegou da perfeição atemporal), com sua letra que mais parece uma crônica de Nelson Rodrigues e a avassaladora “Do You Remember The First Time?”, com a voz de Jarvis Cocker atingindo o ponto exato da arrepiante gravação original. E ainda temos o resgate de “O.U”, faixa que está presente numa coletânea de singles pré-sucesso, lançada como “Intro: The Gift Recordings”. O original tem todo o esboço da eletrônica de baixo impacto que a banda usaria, por exemplo, nas gravações e arranjos de clássicos vindouros como “Common People”.
“Live!” é o disco-tributo perfeito, com o público participando ativamente das versões executadas pr uma banda com desejo pelo palco. Dá pra sentir a satisfação dos músicos, a garra de Cocker ao defender suas criações e a certeza de que ele é, sem dúvida, a grande figura surgida no rock britânico naqueles anos 1990 e que continua por aí. O Pulp é sensacional. Nem precisa de outros discos vindouros, mas não seria nada mal. Por ora, este álbum duplo é a própria perfeição.
Ouça primeiro: tudo. Várias vezes.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
