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Os 40 anos de “Cabeça Dinossauro”

 

 

“Cabeça Dinossauro” foi meu presente de Natal de 1986. Eu tinha 12 anos, e foi um pedido que fiz para minha mãe. Já era normal, naquela época, que eu pedisse discos de presente nas datas comemorativas. E 1986 era o ano perfeito para comprar LPs. Afinal, foi o verdadeiro estouro criativo e comercial do Rock Brasileiro, vide os lançamentos de “Selvagem?”, dos Paralamas do Sucesso; “Dois”, da Legião Urbana”; e “Vivendo e Não Aprendendo”, do Ira!. Ok, tinha também o RPM, mas este nunca consegui levar a sério. E, por mais inacreditável que possa parecer hoje, todas essas bandas tocavam nas rádios! E muito!

 

 

“Cabeça Dinossauro” foi o primeiro disco a desviar meus olhos do heavy metal, e conheço muitos casos semelhantes. Meus amigos metaleiros também compraram e se hipnotizaram com esse petardo lançado pelos Titãs. Tudo era diferente no disco, a começar pela capa, idealizada por Sérgio Britto. Fã de pintura, Britto conseguiu selecionar e liberar a pintura “Expressão de um homem urrando”, de Leonardo da Vinci, uma imagem pra lá de forte, para a capa do álbum. Na contracapa, o mesmo Britto optou por “Cabeça Grotesca”, também de da Vinci. Eram as fotografias perfeitas para embalar o recheio contido no álbum. Representavam, sobretudo, raiva. E os Titãs estavam com muita na época.

 

Gravado entre março e abril de 1986 e lançado em maio daquele ano, “Cabeça Dinossauro” foi produzido por Liminha, no seu hoje clássico estúdio “Nas Nuvens”, no Rio de Janeiro. E, ao contrário do que julga o senso comum, o encontro entre os Titãs e Liminha foi bem longe de ser amor à primeira vista. Após gravar o ensolarado “Nós Vamos Invadir sua Praia”, do Ultraje à Rigor”, Liminha estranhou o comportamento daqueles oito soturnos artistas. Foi a convivência que acabou mudando a relação entre produtor e produzidos.

 

A faixa-título abre o disco de maneira tribal e hipnótica. Repetição de frases, órgão perturbador e batidas selvagens não deixam dúvidas do que estaria por vir: uma obra sem um pingo de concessão a quem quer que fosse: rádio, tv, mercado, família, igreja, polícia. Na sequência vinha “AA UU”, parceria de Britto com Marcelo Fromer que, por mais anticomercial que parecesse, entrou na trilha sonora da novela das sete global “Hipertensão”. Um feito e tanto. Mas a grande polêmica vinha na terceira faixa, “Igreja”, de Nando Reis, cantada pelo próprio. Foi a forma que o baixista encontrou para protestar contra a censura, no Brasil, da exibição do filme “Je vous salue, Marie”, do cineasta francês Jean-Luc Godard. Eis parte da letra: “eu não gosto de padre / eu não gosto de madre / eu não gosto de frei / Eu não gosto de bispo / eu não gosto de Cristo / eu não digo amém”.

 

Eu estudava em um colégio de freiras, e entendia muito pouco daquele universo. Meu pai é ateu, e minha mãe está bem longe de ser católica praticante. Como fui parar em tal escola? Era a mais perto da minha casa, e um primo e uma prima minha já estudavam lá. Amei “Igreja” de imediato, pois finalmente alguém tinha coragem suficiente para explodir todos aqueles dogmas.

 

E logo depois vinha “Polícia”, libelo contra outra instituição que nenhum roqueiro que se preza possuía boas recordações. Canção escrita por Tony Bellotto na prisão, depois de ser flagrado com heroína num táxi após uma batida policial. A substância foi descolada por seu colega de banda Arnaldo Antunes, que naquele momento também era parceiro de cela. Tony, após quase um mês de cadeia, foi liberado depois de pagamento de fiança. Já Arnaldo encarou mais um mês de cárcere, e foi condenado a três anos de prisão, mas respondeu o processo em liberdade por possuir bons antecedentes. “Polícia” viralizou. Virou hit sem tocar nas rádios. E era um clássico que o público cantava em homenagem aos policiais assim que os via nas entradas dos shows de rock.

 

“Estado Violência” é uma contundente faixa escrita pelo baterista Charles Gavin, e logo em seguida vem o primeiro hardcore que ouvi na vida: “A Face do Destruidor”, berrada por Paulo Miklos. Em sequência temos “Porrada”, parceria de Britto e Arnaldo. É incrível como a ordem das músicas do disco é perfeita. “Tô Cansado” e “Dívidas” são cantadas por um Branco Mello que parece já estar de saco cheio de tudo na vida. “Bichos Escrotos”, uma brincadeira juvenil, teve sua radiodifusão e execução pública proibidas pela censura. “Família” é uma crítica leve a essa instituição que, graças aos céus, vem ganhando novas configurações. “Homem Primata”, mesmo sendo pop, soa pesado. E “O Que” é a experimental do álbum, com um leve surrupio do “Gang of Four”.

 

“Cabeça Dinossauro” moldou corações e mentes. Colocou ainda mais desordem num momento em que o Brasil parecia ir para lugar nenhum. Deu nome aos bois às instituições falidas levando diversão para um público que sempre necessitou de muito mais do que “apenas” comida para sobreviver. E tudo isso está muito longe de ser pouca coisa…

 

 

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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