O garagista Ty Segall volta a atacar

Ty Segall – Chrome
32′, 9 faixas
(Drag City)
(4,5 / 5)
Ty Segall é daqueles artistas despudorados com seus lançamentos. Esporrento e um destilador descontrolado de influências, tem no rock garageiro seu porto seguro e a partir dele constrói discos que já atiraram para todo lado, do folk acústico sujo ao glam rock. Dessa vez, o californiano, que chega ao seu 23º disco, debulha timbres setentistas para construir melodias doces sobre bases ruidosas de guitarras barulhentas.
“Chrome” é um disco sujo, pesado e direto ao ponto. Em alguns momentos, como em “Glass”, a tinta pesa mais nas cores dos anos 1970, chegando a lembrar, mesmo que de longe, bandas de classic rock com seus solos de guitarra intricados. “Play Cowboys” é construída sobre um riff quebrado que poderia estar em qualquer disco do Queens of the Stone Age (se essa não tivesse se acomodado tanto). “Everything You’ve Been” tem um peso brutal, que contrasta com uma melodia vocal capaz de conquistar de cara e deságua em um refrão quase bubblegum. “Chrome”, que fecha o disco, parece uma música que foi encontrada em algum arquivo obscuro do Motoehead e fez Lemmy descansar em paz ao saber que sua missão foi cumprida.
Tudo isso faz deste disco um resgate maluco que Ty Segall resgata de uma época em que o despojamento do rock tinha muito a ver com seus significados. Sem falsas pretensões, Segall vem conduzindo sua carreira a partir daquilo que o rock’n’roll parece ter deixado pelo caminho, quando quis conquistar grandes plateias e se deixou levar por sua própria pseudopretensão artística. Com Ty Segall, no entanto, o estilo parece estar salvo: cada distorção colocada aqui cheira a suor, com gostinho de lágrimas, e faz vibrar quem ainda acha que entrar em um clube, passar a noite toda pulando na frente do palco e agitando com os amigos vendo tudo acontecer ali de perto, sem telões, fogos ou outros artifícios que tanto atrapalham a experiência de ver uma banda de verdade, isso deveria ainda ser uma das melhores experiências que a música pode oferecer.
Ty Segall e seus companheiros, dessa vez, olharam para o rock com desejo de detoná-lo, sem espaço para gracinhas de redes sociais. Ao mesmo tempo, ao revisitar timbres e gestos do passado, eles não soam nostálgicos e transformam esse repertório em um disco que pertence plenamente ao seu próprio tempo. Enquanto tivermos discos como este, podemos sorrir aliviados, pois não há Coldplay nem Weezer no mundo capazes de abalar o espírito de quem tem um álbum assim para abraçar.
Ouça primeiro: “Glass”, “Play Cowboys”, “Everything You’ve Been”, “Chrome”

Publicitário e apaixonado por música música, apresentou e dirigiu o programa de rádio Distorção, que posteriormente se tornou um canal no YouTube. É diretor do documentário Aridez.
