O legado de Tinhorão
José Ramos (1928-2021) foi um dos maiores pesquisadores da música brasileira da História deste país. E, sem sombra de dúvidas, o mais original deles. Afinal, José Ramos era, acima de tudo, um marxista. E usava o “Materialismo Histórico” como elemento balizador de suas pesquisas e críticas. Aos 20 anos, quando estudava Direito, foi convidado para trabalhar na revista “A Semana”. Pouco depois, Armando Nogueira o chamou para trabalhar no jornal “Diário Carioca”, onde ganhou o apelido de “Tinhorão”, uma planta de alto teor tóxico. Tal homenagem deu-se por conta de seu estilo ácido e mordaz. Logo em seguida recebeu o convite de Jânio de Freitas para escrever no suplemento dominical do “Jornal do Brasil”. Sua primeira missão: uma série de matérias que contasse a História do Samba. Nascia assim o pesquisador Tinhorão, um notório defensor de gente como Cartola, Donga, Pixinguinha, Nelson Cavaquinho.
Mas Tinhorão ficou nacionalmente conhecido como o inimigo número um da Bossa Nova. Foi a única voz que teve a coragem de criticar abertamente o gênero consagrado pelo piano de Tom Jobim e pela batida de violão de João Gilberto. Aliás, o ritmo feito a partir das cordas de violão de João Gilberto, segundo Tinhorão, era a única novidade da Bossa Nova. Para o -pesquisador, a Bossa nada mais era do que jazz requentado, música americana feita no Brasil. Em seu primeiro livro, “Música Popular – Um Tema em Debate”, lançado em 1966, Tinhorão já abre provocando: “Filha de aventuras secretas de apartamento com a música norte-americana – que é, inegavelmente, sua mãe – a Bossa Nova, no que se refere à paternidade, vive até hoje (1966) o mesmo drama de tantas crianças de Copacabana, o bairro em que nasceu: não sabe quem é o pai”.
É preciso aqui contextualizar a irritação de Tinhorão. O pesquisador, que àquela altura também era historiador da música brasileira, pouco estava se lixando para os aspectos estéticos do gênero. O que o incomodava era a falsificação ideológica. Ou seja, o fato de a Bossa Nova não passar, a seu ver, de pura imitação da música americana. Assim também era com o rock.
Ficou famosa uma capa que fez para o Jornal do Brasil sobre o recém-lançado grupo de rock pernambucano Ave Sangria. Em matéria de página inteira, sapecou a seguinte manchete: “Ave Sangria: ‘Ave Maria’”. Não entrava na cabeça de Tinhorão uma banda de Pernambuco imitar bandas de São Paulo que, por sua vez, copiavam bandas americanas. Mas Tinhorão foi muito mais do que um crítico ranzinza e nacionalista. Estudou a presença da música brasileira na literatura clássica nacional. Publicou mais de 30 livros. Explicou as raízes de vários ritmos brasileiros. Descobriu até que o Lundu é brasileiro, pois foi inventado pelo carioca Domingos Caldas Barbosa em suas andanças por Portugal no século XVIII.
Antes de enveredar pelo caminho acadêmico, Tinhorão trabalhou nos principais veículos de imprensa, chegando a ser subeditor da “Veja”. O problema é que só dava espaço para músicos de pouca visibilidade mercadológica, como o genial mineiro Zé Coco do Riachão, que além de compor, cantar e tocar viola, fabricava seus próprios instrumentos. Segundo Tinhorão, tratava-se de um “Da Vinci caboclo”.
Durante toda a vida, Tinhorão teve uma coleção monstruosa de discos. Passou as últimas décadas de sua vida digitalizando seu enorme acervo para o Instituto Moreira Salles.
Tinhorão foi tema da minha Monografia de Conclusão de Curso de Jornalismo. Eu queria abordar, através do modelo crítico de Tinhorão, a obra de dois artistas que modernizavam, cada um à sua maneira, um ritmo específico. Escolhi um de cunho mercadológico: Falamansa; e um de feitio mais histórico/tradicional: Silvério Pessoa.
Consegui o contato de Tinhorão com o jornalista Pedro Alexandre Sanches. Liguei para seu escritório no Instituto Moreira Sallles e me identifiquei como marxista. Disse que estava fazendo uma monografia sobre ele, o que pareceu tê-lo deixado feliz. Perguntei se ele conhecia Falamansa e Silvério Pessoa. Ele disse que não sabia quem eram. Quando comecei a explicar que eram artistas que tentavam modernizar o forró, cada qual à sua maneira, ele me interrompeu: “Olha só, meu rapaz: essa história de modernizar ritmo é típico do cara que sabe que vai tomar no cu e passa vaselina antes de sair de casa”. Caí na gargalhada. Carrego comigo dois arrependimentos: não ter colocado essa frase na minha monografia. E, o maior deles: não ter enviado meu trabalho para o Tinhorão. Fiquei com vergonha. Pensei que ele acharia muito ruim.
Enfim, tenho uma dívida de gratidão eterna por Tinhorão e sua obra. E sim, eu gosto de Bossa Nova. Mas aprecio ainda mais as suas análises sobre o gênero.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
