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Black Pantera lança seu melhor trabalho com “Continental”

 

 

 

 

Black Pantera – Continental
42′, 13 faixas
(Deck)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

 

Que banda é o Black Pantera, senhoras e senhoras. O trio mineiro é uma dessas raras formações que, a cada disco, só faz evoluir, agregar e lapidar sua arte. Chaene, Charles e Pancho estão cada vez mais entrosados, cientes de que ocupam um espaço importantíssimo dentro do rock no país, o de carregar adiante questões-chave sobre futuro, presente, afirmação pessoal, afirmação coletiva e até sobre o papel que o Brasil quer e precisa desempenhar no mundo. Como são pessoas conscientes, sabem que este caminho passa, necessariamente, pelo reconhecimento de inúmeras injustiças do passado e do presente, além de questionamentos sobre valores, posições e posturas da sociedade brasileira. Nem precisamos falar o quanto isso é espinhoso, sobretudo no período histórico que vivemos, no qual pessoas afinadas com valores antigos, antiéticos e desumanos parecem encantar muito mais do que repelir. Nem o ambiente do rock escapa a esse momento, com uma aproximação constante e temerária em direção a uma postura conservadora, bundona e pouco sintonizada com a realidade. Para isso e muito mais, “Continental” chega para colocar os pingos nos “is”, com muita pancadaria sonora, letras que cortam fino e contundência que vem do confronto da burrice com a verdade desconfortável, escondida, ocultada da maioria emburrecida. Mais que música, “Continental” é esclarecimento.

 

O álbum foi gravado no Estúdio Tambor, no Rio, com produção de Rafael Ramos e traz uma belíssima escalação de participações especiais. Abrindo com muita honra e reverência, o geógrafo Milton Santos (1926-2001) surge logo na faixa-título, que abre o álbum. Com fala sobre o papel do país no contexto da América do Sul, Santos, que foi um dos maiores teóricos das Ciências Humanas do Brasil, especialmente da Globalização, assume o posto como uma influência decisiva para tudo o que ouviremos a seguir. A homenagem é belíssima e a voz de Santos emociona, especialmente quando fala sobre a decadência de Europa e estados unidos e o protagonismo iminente dos povos desfavorecidos pela lógica sistêmica neoliberal. Tudo isso está encapsulado no grito “eles não são o mundo”, que coloca o ouvinte já bastante incomodado diante do rosário de injustiças e desigualdades que nos assombram todos os dias. Dando sequência, Duquesa surge no meio de “Serotonina”, que traz a discussão para o plano pessoal, inserindo machismo, violência e a disparidade das atitudes – “não dê holofotes para burros traiçoeiros” ou “não perca tempo com filha da puta” são frases que têm a ver com aquele meme “don’t make stupid people famous”, algo que se aplica aquela gente que falamos no parágrafo acima, que encantam os menos esclarecidos com sua violência anti-povo.

 

Surpreendente é a presença de Sandra de Sá em “Quando Canto”, uma das canções mais sensacionais do álbum. Ícone da música black brasileira nos anos 1980, Sandra recuperou força e coerência nos últimos anos e reintegrou-se ao que todos sempre acharam que ela defendia. Derrick Green, vocalista do Sepultura, aparece na frenética “Obsoleto”, na qual a crítica vai para a rapidez do mundo moderno, com o brado “baixo logo outra versão de si mesmo”, falando sobre a dificuldade de manter-se fiel às convicções em meio ao caos diário. Chico César também está presente por aqui e ele brilha na suingada “Banzo”, que recorda um pouco do flerte afro-latino do álbum anterior, “Perpétuo”, lançado em 2024. “Esses canalhas falam de meritocracia enquanto seus filhos estudam” é um dos versos contundentes, numa letra que avança por “eles não entendem a nossa raiva // eles não conhecem a nossa dor // não viveriam um dia as nossas vidas // só vivem pra manter o status quo” e emociona a quem tem coração. Esta canção talvez seja o mais bem acabado produto dessa mentalidade agregadora do Black Pantera, incorporando ritmos e andamentos mais brandos em favor de uma mensagem mais contundente que qualquer guitarra com afinação baixa ou vocal gutural.

 

Nas faixas em que aparece sem os “feats”, o Black Pantera também mostra porque está na mais alta prateleira do rock nacional de hoje. As guitarras são cortantes, o baixo estala no estômago do freguês e os vocais de Charles e Chaene harmonizam bem no canto gutural e convencional em meio a uma bateria sólida e segura, tudo funciona muito bem. As canções atingem ótimos momentos. O hit “Hórus” é uma pancada na cara do ouvinte, com um andamento em alta velocidade e uma letra que esclarece sobre religiosidade e a responsabilidade histórica por violências cometidas em nome do que não podemos ver. “Velho Jeans Rasgado” e “Sic Mundos” levam os questionamentos da banda para situações cotidianas, enfileirando ideais, validade de convicções e a capacidade de resistir às várias tonalidades de opressão. “Várias vezes o horizonte foi a minha casa” é um dos versos mais belos e tristes do rock nacional recente. E ainda tem espaço para a crítica mais aberta, que se materializa na ótima “WPP”, abreviação de “White People Problems”, expressão usada com muita propriedade para as situações vergonhosas que expõem a fragilidade de gente que não precisou fazer esforço para ascender e nasceu privilegiada. “E daí que tá com fome? Respeita o meu nome” conclui uma sequência de verdades desferida sem dó.

 

“Continental” deveria ser ensinado nas escolas. Não bastasse esse papel definitivo no esclarecimento de quem o ouve, o disco ainda é extremamente bem feito e cheio de ótimas canções. Emocionante. Parabéns aos envolvidos e força na caminhada.

 

Ouça primeiro: tudo. Várias vezes.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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