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“Acrobats”, de Sondre Lerche, tem a sonoridade mais bonita do ano

 

 

 

 

Sondre Lerche – Acrobats
46′, 8 faixas
(PLZ)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

Deve ser muito bacana quando um artista encontra o seu próprio som. É a maneira indelével e inconfundível de ser reconhecido e identificado imediatamente em meio a um universo cada vez mais turbulento. E, falando como crítico e ouvinte de música há muitas décadas, é extremamente sensacional quando alguém encontra uma sonoridade tão bela e imponente. Este é o caso de Sondre Lerche, cantor e compositor noruguês genial, que vive em Los Angeles há tempos e que estreou em disco aos 16 anos, em 2001, com “Faces Down”. De lá pra cá, Sondre vagou por vários momentos sonoros, misturando folk, sophistipop, pop perfeito, Prefab Sprout, influências eletrônicas, detalhes da canção americana mais clássica, o tal Great American Songbook, rock alternativo e, finalmente, chegando no momento que vive desde 2022, quando lançou “Avatars Of Love”, seu trabalho anterior. Ali Sondre concebeu timbres que misturavam em total equilíbrio a eletrônica mais sutil possível com abordagens convencionais de pop, num movimento que acenava para uma mistura do Everything But The Girl do início dos anos 1980 com o Pet Shop Boys gradiloquente de “Being Boring”, mas essa descrição ainda não é totalmente eficiente pra dizer exatamente o que ele fez ali. Agora, com “Acrobats”, seu disco de número onze, ele apura ainda mais essa fórmula, chegando a timbres absolutamente belos e intrigantes, nos quais não sabemos onde a eletrônica começa e o acústico termina, e vice versa.

 

O grande barato da música de Sondre é essa proximidade com manifestações classudas e complexas de pop. São estilos e derivações, sobretudo dos anos 1980, em que grupos como Prefab Sprout, Scritti Politti e o mencionado Everything But The Girl pegaram os parâmetros de pop song e levaram para outros patamares, sejam eles instrumentais, líricos, de produção ou, às vezes, de todas essas instâncias juntas. Lerche já foi comparado a ninguém menos que Paddy McAloon, o cérebro misterioso por trás do Prefab Sprout, a meu ver, o maior elogio possível para um cantor e compositor. Além disso, adicionando toques pessoais e concepções próprias, o noruguês aproximou-se de outro mestre do estilo, Sean O’Hagan, que liderou uma das bandas mais criativas dos anos 1990, o High Llamas. Sean participou dos arranjos de cordas do trabalho anterior de Lerche, “Avatars Of Love” e agora volta em “Acrobats”, acrescentando essa camada finíssima de talento, refinamento e beleza em arranjos que estão léguas à frente e acima de tudo o que é feito hoje. Não se trata de preferir o mais complexo em detrimento do mais simples, mas de entender o tanto de beleza contido nessas aspirações sonoras e celebrá-las quando se concretizam. “Acrobats” é isso, a concretização desse modelo sonoro que, além de “diferente” do que é feito hoje, soa “antigo”. As aspas são muito necessárias aqui.

 

Esta sonoridade tem outra característica marcante – não tem pressa. As canções estão muito longe de qualquer ditame radiofônico sobre tempo, estrutura e padrão. Sendo assim, metade de “Acrobats” é composta por canções que estão acima dos cinco minutos de duração. Duas delas ultrapassam os oito minutos. As estruturas melódicas e concepções de arranjo pedem por mais duração, uma vez que necessitam de espaço para as cordas, os instrumentos de sopro e tudo mais. A canção mais longa, “Follow The River”, é um ótimo exemplo de como essa estética funciona às mil maravilhas. Aqui Sondre vai escalando uma montanha de possibilidades, passando por light funk de início, com uma melodia perfeita para contar uma história de amor inevitável. Ao longo dos mais de nove minutos, tem espaço para soar como Bryan Ferry, Prefab Sprout, incorporar beats eletrônicos vintage e corais celestiais e manter o storytelling intacto, em meio a uma montanha russa de instrumentais que vêm e vão. É canção para ouvir com fones de ouvido, prestando atenção total ao que está contido no espectro sonoro, tentando imaginar o que passava pela mente do produtor, não por acaso, o próprio Lerche, auxiliado por parceiros aqui e ali.

 

A estrutura de pop clássico, no sentido Cole Porter do termo, está presente na obra de Lerche desde sempre. Já na faixa de abertura, a lindíssima “How Much Of This Was Planned” é possível perceber essa influência. Dá pra imaginar a canção interpretada por gente como Frank Sinatra. “Little Kids”, outra lindeza superior, é puro pop surpreendente, perfeita em melodia, letra e concepção de arranjo, naquele tipo de abordagem que não dá pra saber o que é acústico e eletrônico, com destaque absoluto para as cordas arranjadas por Sean O’Hagen, que pairam no ar. “Drive Me Away From You” lembra um pouco do pop pungente do fim dos anos 1960, algo como um Glen Campbell renascido e revivido em algum lugar. A faixa-título fala sobre essa metáfora poderosa do acrobata diante das improvisações do mundo cotidiano, tudo isso com um arranjo que evoca a simplicidade de uma guitarra acústica, que vai ampliando o espectro. Dá pra imaginá-la sendo interpretada num musical da Broadway. A mesma abordagem do pop clássico americano está em “In The Time Before I Knew Her Well”, com cordas rodopiando, vocais femininos que vêm de todos os cantos, enquanto dá pra imaginar um ambiente em que todos valsam. Mas nem tudo é o que parece, uma vez que a tintura clássica esconde pingos de jazz e vaudeville, tudo muito bem feito e pensado. E “Life-Changing Love” tem beleza e pungência em doses iguais, com mais uma melodia bela, que vai se enquadrando num arranjo que deixaria Paddy e Martin McAloon orgulhosos.

 

“Acrobats” é isso – uma beleza sofisticada, complexa, extremamente delicada, feita para tirar o ouvinte desses tempos brutais que parecem estar durando demais. A boa notícia é que Lerche consegue nos fazer acreditar em tudo que canta, compõe, toca e arranja. O mundo que ele propõe é doce e cativante. Ouça e comprove.

 

Ouça primeiro: o disco todo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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