David Sedaris em Ouro Preto e minha vizinha que matava cachorros
Esse livro, “Eu Falar Bonito Um Dia”, do David Sedaris (Companhia das Letras, 2000), tem me acompanhado nas últimas semanas como uma espécie de livro-pausa. Entre um livro e outro, num momento em que tenho disponíveis não mais que alguns minutos, na necessidade de um respiro, os textos breves e invariavelmente divertidos do autor têm vindo a calhar.
Daí que, ao arrumar a mala para Ouro Preto, numa viagem de cinco dias ao lado da minha mãe, quando eu sabia que dificilmente teria algum intervalo de silêncio, algum tempo em que o “tá bom, lê um pouco aí” de fato me garantiria o ambiente necessário para a atividade em questão, pus o Sedaris na bagagem.
Como a minha mãe fala, bicho! Eu sei que, nos meus dias mais ansiosos, tem sempre muita coisa passando pela minha cabeça e, eventualmente, quando falo ou escrevo sobre elas, saio emendando um assunto no outro antes de ser capaz de chegar a algum ponto lógico que amarre todas as pontas que fui deixando pelo caminho, e talvez eu tenha herdado essa aceleração mental da minha mãe. A diferença é que todos os dias dela parecem com os meus dias mais ansiosos, e que nenhum pensamento é capaz de ser contido na cabeça, fluindo de imediato boca a fora, num constante “ah, olha que legal essa flor aqui! Eu estava falando com a sua irmã sobre colocar mais plantas lá na chácara & uma irmã da igreja falou que talvez eu fizesse desse jeito & não daquele porque quando o Valter operou & precisou tirar o cisto & agora está com o pé pra cima & a irmã dele quando foi na chácara quis pegar todas as bananas, mas eu falei pra deixar a maioria dos cachos & depois ela quis saber de quem era o terreno & a sua irmã falou que também era meu & se colocar mais essa planta lá acho que perto da bananeira que está perto do lago lá onde a gente arrancou o jambeiro não sei se você soube & o filho da fulana que foi arrancar uma árvore & caiu do telhado agora está internado &…”
Nunca pensei que conseguiria.
Mas, beleza, eventualmente eu descia um pouco antes para o café, ou ela ia ao banheiro, ou apagava na cama depois de horas de caminhadas pelo sobe e desce ladeira da cidade. E assim eu consegui avançar um pouco na leitura.
Passei recentemente por uma crítica segundo a qual apenas quem escreve muito bem ou quem teve uma vida muito incrível deveria se atrever a fazer autoficção. O argumento era que quem de fato escreve bem dificilmente perderia seu tempo com isso; já vidas realmente extraordinárias seriam mais raras que topázio imperial. Sobraria, então, para gente de talento mediano, um tanto pretensiosa ou apenas engraçadinha, a tarefa de escrever sobre si.
Sedaris brilha justamente por contrariar essa ideia, usando seu talento para falar de si, narrando fatos que dificilmente poderiam ser chamados de extraordinários e extraindo algo precioso das banalidades das próprias lembranças.
Um dos meus ensaios favoritos até o momento — provavelmente vou terminar o livro na viagem de volta para o Rio, mas, para isso, preciso torcer para que a minha mãe durma — é “A Mocidade na Ásia”, no qual David vai lembrando aos poucos de cada cachorro e gato que sua família teve enquanto ele e seus irmãos cresciam, desde os primeiros cachorrinhos até a velha gata doente levada ao veterinário para eutanásia, encerrando com a nova cadela de seu pai recém-viúvo.
Ao terminar esse texto, quero escrever a respeito dos animais de estimação que acompanharam minha irmã e a mim enquanto crescíamos. A vontade, porém, vem imediatamente acompanhada da certeza de que seria doloroso demais lembrar de um por um, principalmente por conta daqueles que foram assassinados. Como nunca pudemos provar a autoria, não vou citar aqui a vizinha com nome de flor, hoje já morta, mas não vou dizer qual porque vai que algum parente cai nesse texto por acaso. Eu chamaria de Margarida, mas tivemos uma vizinha que de fato se chamava Margarida, então, para todos os efeitos, vamos chamar a assassina de cachorro com nome de flor de Dona Violeta.
Dona Violeta, ou o filho dela, envenenou o Nick, que é o cachorro das minhas primeiras lembranças, enquanto eu tomava noção da existência. A gente também desconfiava que ela, ou alguém a mando dela, tivesse entrado no nosso quintal e roubado o Fofinho, um filhote bobo do qual eu só guardei o nome, e que sumiu enquanto meus pais trabalhavam e eu e minha irmã estudávamos — eu ainda no Jardim de Infância, indignado com a professora que me dava lápis e papel e me mandava escrever enquanto todo mundo fora dizia que eu estava indo aprender a fazer isso, mas a professora, provavelmente uma adolescente impaciente, insistia: “é só segurar o lápis e passar pela folha!”.
Sultão e Pantera tiveram vida longa — provavelmente porque ficavam presos a maior parte do tempo na casinha deles que meu pai fez do outro lado do quintal —, mas o Snoopy, que sofria de convulsões, apesar de grande e forte, não teve a mesma sorte.
Meu favorito foi o Chicão, o cão boêmio que colonizou o bairro inteiro, sobreviveu a todo tipo de violência, entre tentativas frustradas de envenenamento e atropelamentos, e morreu velho, vítima de uma doença venérea, comedor inveterado que era. Foi o cão que me viu criança, adolescente, jovem adulto, e que, ainda hoje, agora, enquanto escrevo, me traz sorrisos e lágrimas ao rosto.
Nunca fui um cara dos gatos e precisaria de um esforço maior para lembrar de cada nome e destino dos bichanos que tivemos, por isso os ignoro aqui.
Dos cães, ainda o Pretinho e a Tica, ambos adotados pelo Chicão, que os levou para dentro do quintal, ofereceu água, comida e teto, e só bastou aos meus pais aceitá-los.
O Pretinho foi doado para um amigo dono de um sítio. A Tica foi envenenada no dia do aniversário da minha mãe, achada morta na frente do quintal de Dona Violeta. Nesse dia eu xinguei tanto que descobri que era possível vomitar de ódio.
E a lista acabaria por aqui, logo depois da chegada do Bóris, um maltês branco que achava que era dono da minha mãe, mas também teve o Toquinho, que, apesar de chegar depois de eu ter saído da casa dos meus pais, por alguma razão, achava que era meu e era o ser vivo mais carinhoso e feliz com a minha presença por lá toda vez que os visitava.
“Você esqueceu da Duquesa, que foi lá pra casa do Viana quando a casa entrou em obras e a gente foi morar do outro lado da linha”, diz minha mãe. E eu não tinha exatamente esquecido, só que ela veio entre o Nick e o Sultão, eu era novo demais e na minha memória o nome dela era Pitucha, só que agora não sei se a gente de fato teve ou não alguma cachorra com esse nome, ou quando teria sido isso. É minha mãe também quem me lembra do Fofinho e do Pretinho indo para o sítio.
Ainda tenho metade de um livro do David Sedaris para ler, com um pouco de sorte e contando com o sono da minha mãe, ainda hoje, no ônibus. E outros dois esperando numa pilha em casa. Não sei quais outras lembranças vou ter ao encará-los, e sobre quais também vou sentir vontade de escrever.
No momento, me resta comer um último pão de queijo e beber uma última xícara de café, enquanto peço por uma boa viagem, sorrindo por lembrar de Chicão e Toquinho.
Levanto para fazer o check-out e miro o Morro da Forca, na rua de trás da pousada, local para onde eu destinaria todos os envenenadores de animais. Que cachorros mordam a alma de Dona Violeta por toda a eternidade!

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
