E o disco existencial da Charli XCX?

Charli XCX – Music, Fashion, Film
30′, 11 faixas
(Atlantic)
(2,5 / 5)
A julgar por “Rock Music”, primeiro single de “Music, Fashion, Form”, o sétimo álbum da carreira de Charli XCX, alardeou-se por aí que a artista britânica estaria lançando um disco totalmente voltado para o estilo. Uma audição atenta da canção deixou claras duas coisas: não se tratava exatamente de uma “canção rock” e, paradoxalmente, era exatamente o que poderia ser chamado de “canção rock” em 2026, pelo menos para um grande público. Explico a confusão. Vivemos num mundo de conceitos cada vez menos duradouros. Para gente da minha idade, rock é algo bem específico e olha que eu sou um dos mais flexíveis do mercado neste sentido, entendo ele como sendo algo possível para gente como Led Zeppelin, Radiohead e White Denim. Para gente da idade de Charlotte Aitchinson (33 anos), e mais nova, “rock” pode ser exatamente o que a canção traz. Menos de dois minutos de duração, um riff qualquer, filtrado digitalmente, servindo de escada para uma letra que fala sobre amigos saindo na noite, tirando fotos, ficando juntos, tirando mais fotos fotos, novamente tirando outras fotos e o vazio inevitável que isso traz. Ou sua simplicidade banalizada. Ou seja, debaixo de uma previsibilidade intencional, haveria uma mensagem importante a ser dada. E Charli XCX já provou ser boa em dar mensagens. Sendo assim, o que sobraria como sarrafo para “Music, Fashion, Film”? Se Charli está ironizando a vida com essa simples alusão mencionada aí em cima, ela pode ter acertado em cheio. Porém, se tudo isso for a sério, um objetivo, uma meta, daí temos problemas.
O maior desses problemas é o fato de “Music, Fashion, Film” não deixar claro de que lado está. Seria ele o álbum existencial da Charli XCX, na ressaca do “verão Brat”, no qual seu trabalho anterior serviu para chamar atenção para uma cena indie dance, bem como de memes de todos os tipos? Ou seria um trabalho que enaltece um estilo de vida totalmente vazio, sem graça e banal? Arrisco dizer que a própria Charli não faz esse questionamento, ela só está interessada em – como dissemos acima – transmitir uma mensagem para seu público. Há opiniões díspares no jornalismo musical internacional, oscilando entre esses dois polos – a obra existencial e o disco “cringe”. Em termos musicais, especialmente para não-iniciados nas idiossincrasias da artista, “Music, Fashion, Film” é um disco de pop moderno, interessantezinho e bem produzido. O “teor rock” que ele contém é tão forte quanto uma colhar de chá de Tang diluída numa piscina olímpica, mas isso não importa para ninguém que tenha cerca de trinta anos ou menos. O que vale aqui é a referência, a apropriação, o uso de um estilo apenas como passagem, citação ou algo para servir como segunda pele.
E olha que há boas canções pelo disco adentro e nem todas precisariam desse banho de loja rock para ter vigor. A parceria da cantora com AG Cook e Finn Keane, os mesmos responsáveis por “Brat”, mostra que eles são capazes de produzir combustível para assunto, redes sociais e paradas de sucesso, sem definir quais dessas instâncias é a mais importante. Algumas são muito bacanas, especialmente “SS 26”, que não chega a três minutos e basicamente se sustenta numa linha de baixo, percorrida às vezes por uma guitarra que parece tocada por alguém jogando Guitar Hero (ainda existe?). “Camera” é outra belezinha curta, cerca de dois minutos e meio, basicamente é um riff de teclado/guitarra processo em looping, sobre o qual Charli vai colocando seus versos, num movimento que é bem emblemático do pop atual, calcado pela repetição extrema, pouquíssima variação melódica. É bacaninha mas cansa bastante. “Yeah” vai por esse caminho “rock”, com vocais meio largados a princípio, intencionalmente mal mixados, sobre uma base de rock indigente. Ao longo dos pouco mais de dois minutos, os timbres vêm mais perto do ouvinte, depois voltam, daí vêm novamente. E fica nisso.
Há uma canção com o nome de … “Wink Wink”, que parece uma demotape de alguém num celular vagabundo, mas que vai crescendo sobre uma melodia grudenta e da qual não é possível se desvencilhar após algumas audições. “Persona” é outra canção “rock”, com guitarras processadas emoldurando a melodia monótona, percorrida pelos vocais de Charli, igualmente entediados. E tem a new wave de plástico de “Magic Metal Montana”, que é bem mais interessante que o resto, com teclados e guitarradas que vão crescendo e fazendo um caminho bacana. Tudo parece feito com apenas um aplicativo no celular, mas é bem feito e bacana. A grande exceção para o ról de canções de “Music, Fashion, Film” está na última faixa, a impressionante “No One Lasts Forever”, com participação de David Lynch via sampler. O mitológico diretor surge falando sobre mortalidade e arte, com ênfase para a parte que serve de título para a canção, que é repetida em looping ao longo da melodia. O efeito é caótico e bacana, certamente constituindo a melhor faixa do álbum.
Olhando para a capa de “Music, Fashion, Film”, com as presenças de John Cale, Martin Scorsese e Marc Jacobs, somos induzidos a pensar que, ou Charli se inclui no mesmo nível destes ícones ou que sua música está neste mesmo patamar. Bem, não está, pelo menos dessa vez. Talento e boas ideias não faltam para ela, este disco parece ser uma queda momentânea.
Ouça primeiro: “No One Lasts Forever”, “Magic Metal Montana”, “SS 26”.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
