Não teve abdução mas tem o novo disco do Muse

Muse – The Wow! Signal
45′, 10 faixas
(Warner)
(4 / 5)
A abdução no jogo do Brasil pode não ter acontecido, porém, quem acaba de pousar, vindo do além é o … Muse. O trio inglês lança “The Wow! Signal”, seu décimo álbum de estúdio, e o título já fala da ambição criativa por trás do projeto: trata-se de uma referência direta ao misterioso sinal de rádio captado em 1977 no observatório Big Ear, que até hoje alimenta teorias sobre existência e contato com inteligência extraterrestre. O disco sugere um mergulho temático no sentimento de isolamento cósmico e na busca incessante por um contato que parece improvável, no máximo, inalcançável, algo que se encaixa perfeitamente na sonoridade grandiosa e quase operística que a banda de Matt Bellamy vem burilando meticulosamente ao longo de quase três décadas de carreira, confirmando seu posto como um dos nomes mais teatrais do rock moderno. Há quem goste, há quem deteste, mas é fato que o Muse já não produz nada realmente instigante há cerca de uma década.
O que mais chama a atenção logo nos primeiros minutos é a habilidade com que o trio equilibra seu rock teatral clássico com batidas pop dos anos 80, chegando a abrir espaço para o brilho da disco music e até uma pitada de nu-metal. Nada de novo, portanto, ou melhor, ainda bem. “The Wow! Signal” surge como uma retomada vigorosa do período compreendido entre “Absolution” (2003) e “The 2nd Law” (2012″, quando o grupo foi hegemônico na recriação de tiques e taques de bandas setentistas em sua mutação viajante/sci-fi. É preciso reconhecer que, após essa transição dos anos 2000 — quando o Muse saiu da sombra do Radiohead para criar essa mistura que abraçava sem medo o rock grandioso de bandas como Queen e Rush —, o grupo acabou perdendo o fôlego a partir de “Drones”(2015), entrando em uma fase de repetição que drenou boa parte de sua relevância. “The Wow! Signal” não chega exatamente para reinventar a roda ou devolver a banda ao patamar de inovação do passado, mas funciona como uma tentativa de frear essa queda de rendimento da última década, sintetizando o que eles fazem de melhor com uma coesão que não víamos há tempos.
As sessões foram marcadas por um processo de escrita mais colaborativo: sob a direção de Dan Lancaster, trio Matt Bellamy, Chris Wolstenholme e Dominic Howard, trabalhou com a ideia de limar os excessos recentes, o que, convenhamos, seria bem difícil, uma vez que o Muse ficou famoso e pop, justo pelos excessos. Porém, uma diminuída já seria bom e o resultado parece ter ido nesta direção. Esse rigor na produção é visível em faixas como “Hush”, que nasceu de um improviso de sintetizadores e acabou ganhando a colaboração vocal de Ellie Goulding após um encontro casual da banda em Londres. Mas não se enganem, o álbum é uma viagem, ainda que mais curta que os anteriores. São pouco mais de 45 minutos, que conseguem manter o ouvinte imerso, alternando entre ambientes épicos — como em “The Dark Forest” e “Nightshift Superstar” — e a urgência de faixas como “Space Debris” e “The Sickness In You & I”. A estrutura do trabalho é inteligente e revela uma banda que ainda sabe jogar o jogo e domina a técnica de servir ao clima de suas composições. Essa economia de meios, comparada aos excessos dos últimos discos, acaba sendo o maior trunfo do álbum.
A melhor notícia aqui é que o Muse deixou de tentar ser “maior que a vida” o tempo todo para focar na precisão das canções. “The Dark Forest”, por exemplo, foi composta em um ambiente isolado na zona rural de Devon, utilizando apenas equipamentos analógicos para capturar uma sonoridade mais crua, enquanto “Space Debris” surgiu de uma demo de baixo que Bellamy guardava desde 2018, finalmente retrabalhada para encaixar na nova estética mais contida.
“The Wow! Signal” não é o disco que redefine a carreira do Muse, mas é a medida exata do que eles conseguem fazer hoje: uma música que é, acima de tudo, correta e bem resolvida, capaz de manter uma identidade sonora que, bem utilizada, é legal. Para quem acompanha o trio, este lançamento soa como uma tentativa de retornar a uma forma que muitos esperavam, equilibrando o maximalismo de sempre com arranjos mais diretos. Dá pra ver que o Muse ainda possui a capacidade de transformar suas influências em som. Esqueçam a ousadia de “Showbiz” (1998) ou “Origin Of Symmetry” (2001″, que os definiu no início da carreira, e abracem um Muse ciente de seus próprios limites, num disco apenas “ok” no sentido da originalidade, mas que é o melhor dos últimos dezesseis anos. Convenhamos, é bastante.
Ouça primeiro: “The Dark Forest”, “Space Debris”, “Nightshift Superstar”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
