“Movin’- de Nancy Sinatra – é obra-prima do pop

Antes de “Movin'” ser lançado em 1968, Nancy Sinatra já tinha percorrido um caminho singular na música. Depois de um início difícil, ela encontrou seu lugar no mundo ao se unir a Lee Hazlewood, o produtor que percebeu logo que a filha dos Velhos Olhos Azuis não era uma diva convencional. Nancy tinha uma voz contida, quase falada, e um charme rebelde muito particular. Com o sucesso estrondoso de “These Boots Are Made for Walkin'” em 1966, ela se tornou um ícone da cultura pop, equilibrando o brilho das botas altas e da minissaia com uma atitude que não devia nada ao rock da época. Logo cendo ela já não era apenas a “filha do Frank”, mas uma força autêntica que conseguiu transformar o pop de estúdio em algo mais ousado e, por vezes, até um pouco sombrio. Claro, Lee Hazlewood teve seu quinhão neste latifúndio.
“Movin'”, lançado logo na sequência desse auge, é uma das peças mais interessantes dessa trajetória, funcionando como o registro musical de um especial de TV produzido para a época. O disco marca um momento em que a artista, já consolidada, tentava entender para onde o pop estava indo naquela virada de década. O álbum é a prova da química incrível entre Nancy e Hazlewood. Juntos, eles criaram um som que podemos chamar de “pop noir” — algo elegante, com um toque de tristeza e uma atitude rebelde que, na voz da Nancy, soava como um segredo contado baixinho. Lee foi muito mais que um produtor para Nancy, dá pra dizer que ele ajudou a moldar seu estilo como artista. Achar sua melhor interpretação estava em fazer o possível com jeito seco, charmoso e autoconfiante dela interpretar as letras.
“Movin'” tem, de fato, um clima de trilha sonora, com uma produção bem detalhada: cordas bonitas, um baixo marcante e uma bateria que dá um balanço moderno para aquele final de anos 1960. O disco fica no meio do caminho entre o pop clássico de Las Vegas e a novidade do rock que estava explodindo nos EUA, especialmente a psicodelia, que já estava encharcando o trabalho de vários artistas, de Byrds e Dylan, passando pelos Beatles e pelos Beach Boys. Quando ouvimos faixas como “Some Velvet Morning”, percebemos que estamos diante de uma obra-prima. A mistura entre o jeito quase desinteressado/entediado de Nancy e a voz grave e dramática de Lee cria uma tensão única, difícil de achar em outras músicas da época. É uma composição diferente, que muda de ritmo e cria um clima de mistério por conta da letra quase indecifrável, mostrando que eles queriam fazer arte, não apenas sucessos passageiros. A canção é tão importante que já recebeu versões diversas ao longo do tempo, indo de Slowdive e Primal Scream a Glen Danzig, chegando a Alison Goldfrapp e John Grant.
Outro ponto alto do disco é como ele conecta gerações através das participações especiais. Em “Younger Than Springtime”, temos o próprio Frank Sinatra assumindo os vocais em uma interpretação solo, o que traz uma carga de peso e tradição para o álbum. Essa escolha reforça que, mesmo sob a influência do estilo “estranho” de produção do Lee, Nancy não rompia com a linhagem do teatro musical americano, mas a integrava em seu próprio universo. O fato de o álbum abrir espaço para o pai brilhar em uma canção clássica, enquanto Dean Martin também aparece no projeto, num dueto sensacional em “Things”, mostrando que “Movin'” funcionou como uma ponte entre eras: de um lado estava, de fato, a modernidade pop e, do outro, a base sólida e clássica, provando que o novo não precisava anular o legado dos gigantes do entretenimento.
Tudo isso ganha um novo fôlego agora, com a remasterização recente do álbum, que trouxe uma qualidade de som muito melhor. O processo de limpeza sonora deu destaque a detalhes dos instrumentos que antes ficavam escondidos, algo que a edição em CD de 1996, com suas faixas bônus, já tinha começado a resgatar. Ouvir “Movin'” hoje, com esse som limpo, permite ver que o disco evitou envelhecer mal por não tentar ser tradicional ou mesmo rock demais, preferindo manter a elegância enquanto aceitava as influências modernas. Fazer justiça a Nancy Sinatra é reconhecer que “Movin'” é um trabalho de estilo que poucas artistas daquela época conseguiriam fazer. Ela não precisava provar que era a melhor cantora técnica, seu grande acerto estava em escolher as músicas certas e criar o clima ideal para torná-las inesquecíveis. Se a gente olhar para trás, percebe que a Nancy ajudou a definir o pop com uma mistura de frieza e charme que soa muito, mas muito moderno. Diria, atemporal.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
