Qual é a do Queen + Adam Lambert?

 

 

Não sei se vocês sabem, mas Queen + Adam Lambert estão em vias de lançar seu primeiro álbum. Em 2 de outubro chegará às lojas “Live Around The World”, nos formatos de CD, DVD, Blu-Ray e tudo mais, trazendo um apanhado das apresentações do grupo em vários países – como o nome já diz. Vai ser um greatest hits do velho Queen em versões “live”, com os vocais de Freddie Mercury devidamente substituídos pelos de Adam Lambert, ex- participante da oitava temporada do reality show American Idol. E, pasme, já vão onze anos do encontro entre Brian May e Roger Taylor com Lambert. A dupla ex-Queen foi ao programa para executar uma versão de “We Are The Champions” e conheceu o então concorrente do show. May logo sacou que seria possível enquadrar Adam num projeto que reavivasse o repertório do Queen e que, ao mesmo tempo, fosse capaz de excursionar por aí. Dito e feito. Com Taylor na bateria e uma banda que também se formou há onze anos – Spike Edney (teclados), Neil Fairclough (baixo) e Rufus Taylor (filho de Roger, percussão, bateria) – o Queen + Adam Lambert deu partida numa carreira que agora terá seu primeiro álbum lançado. Mas – você dirá – e daí? E eu vou rebater: o que você pensa do Queen com Adam Lambert no vocal? É legítimo? É justo? É válido?

 

Lá por 1984, eu comprei meu primeiro disco do Queen, “The Works”. Eu adoro este álbum, um legítimo representante da última cara que a banda teve em seus dias de formação clássica, com Mercury e o baixista John Deacon. Era um grupo versado no rock de estádio e no pop eletro-eletrônico de estúdio, sem qualquer pudor de usar recursos visuais – clipes, fantasias, efeitos especiais – ou sonoros – sintetizadores, programações de bateria, teclados – para fazer seu som. É romantismo bobo pensar no Queen oitentista como uma banda de hard rock. Pelo menos, não exclusivamente. Aliás, se pensarmos bem, o quarteto nunca foi apenas uma banda de rock pesado. Era glam, era pop, era experimental e espalhafatoso demais – no bom sentido – para ser da mesma estirpe de um Led Zeppelin ou de, sei lá, um Scorpions. O Queen podia – e fazia – mais. Tinha ótimos vocalistas, compositores, instrumentistas. Seria reducionismo bobo ficar apenas no rockão de arena. Logo, os caras se espalhavam em discos como “A Night At The Opera” e “A Day At The Races”, a dupla dinâmica de álbums de 1975/76, que deu à banda um status maior que seus compadres. Mais ainda, álbuns como “News Of The World”, de 1977, contrastavam com “The Game”, de 1980, mostrando que os sujeitos não tinham pudor em colocar baixos chupados de Chic em sua receita de rock (“Another One Bites The Dust”) ou canções que poderiam ser cantadas por Elvis Presley em seus shows (“Crazy Little Thing Called Love”).

 

Por essas e outras, é, repito, bobeira pensar no Queen como uma banda só de rock. Era muito mais. Dito isso, é mais fácil entender porque Brian e Roger pensaram em vocalistas tão díspares como Paul Rodgers e Adam Lambert para complementar sua vontade de tocar o repertório do Queen, Com Paul – com o qual colaboraram no início dos anos 2000, chegando a dar um bom show por aqui e lançar um bom álbum de estúdio, “Cosmos Rocks” – o Queen tinha sua legitimidade rocker. Com Lambert e sua interpretação, tem a sua viabilidade pop, ainda que o repertório não seja ousado a ponto de trazer canções obscuras, como algo do malfadado disco “Hot Space”, de 1982, ou de algum trabalho póstumo, como “Made In Heaven”. Sabemos que, ao mesmo tempo que Roger e Brian optaram por um vocalista com alcance suficiente para encarar o repertório que Freddie costumava cantar, também abraçaram um cara bem mais jovem, que encanta um novíssimo público e aí está o chamado pulo do gato.

 

Por mais que o Queen tenha se mantido vivo ao longo dos tempos pós-Freddie (morto em 1991), já se vão 29 anos. Os lançamentos póstumos, edições remasters, DVDs e CDs ao vivo obscuros não seriam capazes de cativar novos fãs. A presença de Lambert, sim, é capaz disso. Não que as pessoas queiram ver o ex-American Idol em vez de Mercury, pelo contrário, não conheço nenhum fã de Queen que seja totalmente receptivo à ideia. O que a dupla remanescente quer é que o sujeito que nunca levou o Queen tão a sério seja compelido a ir ao show, justo porque não tem um conhecimento aprofundado de hits, álbuns e memórias passadas com o grupo. Este tipo de ouvinte ocasional, aleatório, além de novos/novíssimos fãs, que nasceram no período pós-Freddie e só estão interessados em ver a banda ao vivo, são os que tornaram o Queen capaz de percorrer o mundo desde 2012 em várias turnês, tocando um repertório clássico, que leva sempre mais de 20 músicas, que abrangem a totalidade da carreira da banda. Tem de “In The Lap Of Gods” a “Kid Of Magic”. de “Under Pressure” a “The Show Must Go On”. Tá tudo lá, menos … Freddie Mercury e John Deacon.

 

Falando como admirador da banda, jamais veria um show do atual Queen se não fosse por trabalho. Falando como jornalista/historiador, não dá pra não admirar o movimento que Brian e Roger fizeram. Nestes onze anos faturaram bastante, uma vez que, além de músicos fundadores, são autores da maioria das canções. Além disso, reavivam constantemente o repertório do Queen, levando mais e mais gente a conhecê-lo. Encontraram um cantor capaz de honrar certa tradição espalhafatosa de Mercury no palco – ainda que exagere ou erre muitas das vezes – mas conseguiram revestir de autenticidade o resultado. Se levarmos em conta o nível de exigibilidade deste atual mundo do espetáculo, que é tão camarada às vezes, este Queen com Lambert está no ponto para fazer o sucesso que faz.

 

Digressões sobre autenticidade seriam muito bem vindas, mas não é o caso fazê-las tão a sério. O Queen com Adam Lambert é uma realidade. É como você visitar a Disneylândia ou o Beto Carrero World. Tem tudo o que você espera, o espetáculo é tecnicamente perfeito e tem certa verdade naquilo tudo. Ninguém está enganando ninguém, apenas estão te oferecendo um prato de miojo sabor galinha caipira em vez de um talharim ao molho Alfredo. Se você nunca ouviu falar do tal molho e está com fome, pressa ou algo assim, o miojo vai fazer efeito. O mundo comporta gente que só se alimenta deste tipo de comida, certo? Sendo assim, continuam a fabricá-la e sua existência é legítima, ainda que faça mal para a saúde a médio/longo prazo. Gosto de pensar que Roger e Brian estavam no ramo de trattorias até alguns anos atrás. Depois, visando lucrar mais, decidiram abrir uma fábrica de macarrão instantâneo e estamparam as fotos e os nomes do passado na embalagem, com grande sucesso de vendas. Como condenar? O mundo neoliberal permite – e endeusa – tais atitudes e cabe a nós a tarefa de decodificá-las.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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