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Teenage Fanclub; a banda que se recusa a envelhecer

 

 

O Teenage Fanclub mudou minha vida. E não estou exagerando. Até meus 18 anos, quando conheci a banda, eu só ouvia metal, punk e hardcore, abrindo algumas exceções para nomes como Titãs, Legião Urbana (que virou um gênero musical), Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso. Não à toa, considerava o Devotos do Ódio a melhor banda da até então pré-cena Mangue. Não bastasse, achava os Beatles ultrapassados, caretas e cafonas. E não fazia ideia de quem eram Neil Young, The Byrds e Big Star, maiores influências do Teenage Fanclub. Santa ignorância, Batman!

 

Tudo isso mudou a partir do momento em que li, na Bizz, uma crítica do “Bandwagonesque” escrita pelo Jean Yves de Neufville. No texto, ele dizia que o TFC era “uma banda formada por quatro escoceses meio ripongas que mal sabiam tocar(…)”. E continuava: “Fazia tempo que o rock não comunicava tanto prazer. Há anos não se ouvia melodias tão legais flutuando preguiçosamente sobre um rock tão áspero – lava incandescente de guitarras, baixo e bateria – jorrando em direções incontroláveis”. Foi o suficiente para correr atrás do vinil e me apaixonar perdidamente por todas as músicas do disco na primeira audição. Em especial “The Concept”, faixa de abertura que virou a minha preferida de todos os tempos. O caso ficou tão sério que tenho tatuadas as capas do “Bandwagonesque” e do “Grand Prix”, álbum que o grupo lançou em 1995.

 

A fórmula do Teenage Fanclub, simples e matadora, é ter três compositores geniais em sua formação, Norman Blake (guitarras/vocais); Gerard Love (baixo/vocais) e Raymond MacGinley (guitarras/vocais). A harmonia vocal deles é tão perfeita – inclusive ao vivo – que levei alguns meses para descobrir quem cantava o quê em suas canções.

 

Apesar de o disco ter conquistado o primeiro lugar nos melhores do ano de 1991 pela Revista Spin, superando o divisor-de-águas “Nevermind”, do Nirvana, o sucesso do Teenage Fanclub sempre esteve aquém de seu potencial pop. Dessas coisas que não dá para explicar na vida.

 

Uma coincidência fantástica, que levei anos para descobrir: “Bandwagonesque” foi lançado em 19 de novembro de 1991, dia do meu aniversário de 17 anos.

 

Óbvio que fiz questão de comprar todos os álbuns. E o que sempre me chamou a atenção durante todos esses anos, tendo como referência os discos posteriores da banda, era sua capacidade de permanecer jovem, relevante e agridoce, sempre tendo como mote a eterna mistura de peso e doçura. Foi assim em Thirteen (1993), Grand Prix (1995, o mais bem produzido da carreira deles), “Songs From Northen Brithain” (1997), e “Howdy!” (2000), que, juntos compõem o que considero “a fase áurea da banda”.

 

O que me surpreende até hoje foi o privilégio de tê-los entrevistado, jogado conversa fora, e visto o primeiro show deles no Brasil, feito no Recife, na programação do Festival “No ar: Coquetel Molotov”, no dia primeiro de maio de 2004. E eles são exatamente como imaginei que fossem: simples, simpáticos, atenciosos. O Gerard é tão tímido que não pronunciou uma palavra em toda a coletiva de imprensa, na véspera do show, e que durou pouco mais de uma hora. Mas foi extremamente cordial quando conversamos em particular. Infelizmente Love deixou a banda em novembro de 2018. Estava sobrecarregado pelas longas turnês internacionais…

 

O mais incrível é que o Tennage Fanclub continuou com sua fórmula “peso/doçura” em seus discos mais recentes, casos de “Man Made (2005), “Shadows” (2010), “Here” (2016, o ultimo com Gerard na formação), “Endless Arcade” (2021) e “Nothing Lasts Forever” (2023).

 

Com o amadurecimento de seus componentes, é normal que a banda tenha aberto um pouco a mão do peso e investido em composições menos “ingênuas”. Mas nunca deixaram de fazer um som que sempre exalou frescor, mesmo com os seus integrantes já estarem na casa dos 60 anos.

 

O Teenage Fanclub abriu a cabeça de um jovem de 18 anos. A partir deles, fui em busca de outras sonoridades, ampliei meu raio cultural e comecei a ouvir estilos que outrora rejeitava por puro preconceito. E, o mais legal de tudo, tive a oportunidade de dizer isso pessoalmente aos caras. Quantos têm essa possibilidade na vida? No quesito “sonhos realizados”, posso dizer que sou um privilegiado.

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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