White Reaper – You Deserve Love

 

Gênero: Rock alternativo
Duração: 29 minutos
Faixas: 10
Produção: Jay Joyce
Gravadora: Warner

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Quando a gente menos espera, o rock vai e dá uma respirada sem aparelhos, no leito da UTI em que está internado há um bom tempo. Nem precisa ser por conta de alguma novíssima fusão de ritmos, ideias ou conceitos, basta uma boa canção, um bom disco fazendo o feijão com arroz bem temperado. É exatamente isso que entrega o quinteto White Reaper em seu terceiro trabalho, “You Deserve Love”, meia horinha de boas/ótimas canções, bem produzidas e cantadas por um vocalista – Tony Esposito – que acredita no que faz. Aliás, não só ele, mas o resto da banda tem aquela mágica ilusão de que o rock vai salvar o ouvinte de todo o mal. Amém.

 

O White Reaper começou como uma banda de punk garageiro, mas mudou sua abordagem musical e se saiu muito bem. As canções que permeiam este “You Deserve Love” são feitas sob medida para o consumo imediato, com sorriso no rosto e aquela impressão de familiaridade, de inconsciente coletivo, de novidade com cheiro de casa. E a ideia por aqui é bem simples: uma incursão bem orientada pelo powerpop chicletudo setentista, com um aceno de amor velado pelo rockão oitentista do início da década, de gente como Survivor, Foreigner e até The Cars. O resultado é uma maçaroca sonora à prova de tristeza, cheia de belezuras ocultas no caminho.

 

A diferença maior – além da boa orientação em termos de influências – é que os caras do White Reaper são bons compositores. Não há uma única faixa ao longo do álbum que não tenha um refrão ganchudo, um fraseado de guitarra que cause sorrisão no rosto do ouvinte ou que não remeta os mais velhuscos a uma tarde no fliperama, depois da escola. Em alguns momentos, a produção de Jay Joyce reserva surpresas. A primeira canção, “Headwind”, parece saída da trilha sonora de “The Wonders”, tamanho o débito que tem com os anos 1960 da Invasão Britânica. Quando você pensa que decodificou o modus operandi dos caras, vem uma belezura como “Real Long Time”, com guitarras que recriam a marca sonora registrada do Thin Lizzy, um grupo do passado que merece mais atenção dos mais novos.

 

As dez faixas do álbum são curtinhas e sem firulas. Em alguns momentos surgem canções com potencial para figurar em listas de melhores de 2019 mais descoladas, caso explícito de “Saturday”, com tecladinhos e guitarrinhas fazendo par e rodopiando no pátio do drive-in, do funk branquelo e ensolarado de “Eggplant”, ou do irrestistível single “Might Be Right”, que tem batida linear-porém-dançante, que parece uma variação mais rápida de “Pumped Up Kicks”, de Foster And The People, mas deriva num caminho rock’n’roll/pop de fazer inveja ao Weezer e ao The Cars, do saudoso Ric Ocasek.

 

“You Deserve Love” é um equivalente sonoro de uma temporada boa de “Stranger Things” ou algo que faça uma homenagem gentil e bem intencionada aos anos 1980. Neste caso, é um baita de um disco que deve passar batido por aqui. Ouça e se apaixone.

 

Ouça primeiro: “Might Be Right”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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