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Um Eddie iluminado brilha em “Noturna”

 

 

 

 

Eddie – Noturna
46′, 11 faixas
(Banda Eddie)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Das bandas da Geração Mangue, o Eddie é a que tem a trajetória mais interessante. E justo pela sua capacidade de se metamorfosear. Surgido em 1989 em Olinda, o grupo comandado por Fábio Trummer teve diversas formações antes mesmo de sua estreia em disco. A primeira grande aparição foi em novembro de 1994, quando abriram o show de lançamento de “Samba Esquema Noise”, primeiro disco do Mundo Livre S/A, no Teatro do Parque. A banda ficou conhecida localmente após inúmeras apresentações, e teve até Karina Buhr em sua formação. Mas foi como um power trio roqueiro que gravou seu álbum de esteia, “Sonic Mambo”, em 1998. Dois anos antes, em 1996, “Quando a Maré Encher” foi registrada na coletânea “Brasil Compacto”, do selo “Rock It”, do legionário Dado Villa-Lobos. Foi essa música que mudou a história do Eddie.

 

Em 2000, “Quando a Maré Encher” foi gravada pela Nação Zumbi no álbum “Rádio S.AmB.A”. Um ano depois, Cássia Eller fez uma versão matadora em seu Acústico. Melhor ainda: Cássia a incluiu no repertório de seu histórico show no Rock in Rio de 2001. Com o dinheiro arrecadado com os direitos autorais, Fábio Trummer investiu toda a grana na produção e gravação da obra-prima “Original Olinda Style”, disco de 2002 que praticamente inaugurou um novo gênero musical no Brasil, ao misturar reggae, rock, samba e demais ritmos brasileiros, o que a banda definia como um som que abrangia “cinema, paia e futebol”. Além da incorporação do percussionista Erasto Vasconcelos em sua formação. Foi um estouro de dimensões nacionais. Cheguei a cobrir um show deles em São Paulo, no extinto “Studio SP”, casa da galera underground então localizada na Rua Augusta.

 

E eis que, agora em agosto, o Eddie lança seu décimo-primeiro trabalho, o sensacional “Noturna”. Produzido por Fábio Trummer em parceria com Buguinha DUB, o álbum traz uma maturidade musical e textual impressionante. O disco segue a tradição “Original Olinda Style”, mas dá vários passos adiante. A abertura, com a faixa-título “Noturna”, é climática, com teclados chapados e voz com efeitos. “Tudo Pode Ser” chega com metais, em letra que parece conduzir o restante do álbum ao dizer que “Pode ser samba / pode ser Bossa / pode ser massa”. E eis que “A Tua Verdade” não deixa enganar: é pura Bossa Nova, deliciosa de ouvir, com letra que atesta que “A tua verdade não cabe no outro”. E vem um Eddie extremamente político em “Vou Chamar meu Povo”, que parece um ataque direto à família Bolsonaro. “Saudade da Folia” é um quase frevo, bem carnavalesca, que aos poucos vai ganhando o peso de uma guitarra incontrolável e um final apoteótico.

 

“Terra Sem Lei” é a grande candidata a hit do disco, com levada pop e profunda ao mesmo tempo. Outro grande acerto é “Poema Mudo”, que aborda a relação entre criador/criatura, compositor/composição, com um piano lindo servindo de acompanhamento para toda a estrutura da música. É a grande canção de “Noturna”, seu momento mais forte. Já “Outra Solidão” é lenta e densa. E vamos chegando ao final do álbum com três músicas assustadoras de tão certeiras. “Titi e Tom Tom” é uma instrumental desconcertante, que liga o mundo árabe ao Caribe. “Poema da Paz” emociona ao resgatar dos arquivos a voz do falecido Erasto Vasconcelos, um percussionista de mão cheia que cativava o público com suas idiossincrasias e um jeitão todo seu de ser. E “The End” é simplesmente Neil Young fase “Heart of Gold” dançando reggae.

 

“Noturna” é um disco com a cara do Eddie: universal em suas regionalidades. Carnavalesco e atemporal. Tirando do lugar-comum ritmos que pareciam datados. E sabendo dosá-los como ninguém mais.

 

Ouça primeiro: “Outra Solidão”, “Titi e Tom Tom”, “The End”, “Vou Chamar meu Poovo”, “Saudade da Folia”

 

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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