Não perca “The Plot Against America”

 

 

Se eu puder indicar uma única série para você ver e se apaixonar, certamente cravarei “The Plot Against America”. É curta – seis episódios – e tem uma ótima referência literária, sendo adaptada do livro homônimo, escrito por Phillip Roth. A história é inquietante e se vale de uma ficção política terrivelmente possível: e se os Estados Unidos tivessem flertado com o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial? O que teria acontecido lá? A premissa é tangente à da igualmente sensacional “O Homem do Castelo Alto”, que extrapola a proposta e mostra um mundo tomado pelo nazifascismo nos anos 1960, após da derrota dos Aliados contra o Eixo. Em “Plot…”, a trama se insere na realidade americana da virada dos anos 1930/40 e questiona o que teria acontecido se Franklin Delano Roosevelt fosse derrotado nas eleições de 1940 por Charles Lindbergh, aviador-herói que cruzara o Atlântico em 1927, pilotando o monoplano Spirit Of Saint Louis.

 

Na história real, Roosevelt venceu Wendell Willkie, candidato republicano, em 1940, mantendo os Estados Unidos alinhados com a Inglaterra e os demais países da Europa que enfrentavam as tropas alemãs a duríssimas penas. Em dezembro de 1941, com a França sob domínio nazista e os britânicos em frangalhos, os americanos entrariam na guerra após sofrerem pesadas perdas com o bombardeio a Pearl Harbor, empreendido pela marinha imperial japonesa. O final sabemos todos. Na trama da série, Roosevelt enfrenta Lindbergh nas eleições de 1940. A associação é válida, porque o ex-aviador era um homem com simpatia pelo nazismo. Desde o inicio dos anos 1930, ele passou a morar na Europa e defendeu, mesmo diante dos fatos, a neutralidade americana. Esteve em companhia de Hitler durante as Olimpíadas de 1936 e fazia constantes elogios à tecnologia aeronáutica alemã. Na série, Lindbergh assume o governo em 1940 e inicia uma lenta e decisiva caminhada dos Estados Unidos rumo ao fascismo.

 

A trama é centrada numa família judia de Newark, Nova Jersey, formada por um casal, Herman e Bess (vividos por Morgan Spector e Zoe Kazan, respectivamente) e seus dois filhos, Sandy e Phillip (Caleb Malis e Azhy Roberton). Além deles, há Alvin, o sobrinho de Bess, vivido por Anthony Boyle e a irmã de Bess, Evelyn (Winona Ryder), que irá tornar-se noiva do rabino Lionel Bengelsdorf (John Turturro). Este pequeno núcleo é ampliado pelos amigos da vizinhança, que, como um todo, vêem o crescimento das dificuldades a partir da eleição de Lindbergh. Herman, democrata por natureza e ciente do perigo que se avizinha, começa a se engajar em manifestações e a família vê sua vida derreter lentamente diante das inúmeras situações em que o preconceito antissemita vai assumindo proporções cada vez maiores. O rabino e Evelyn se tornam simpatizantes do novo presidente e passam a integrar programas de reassentamento de famílias judias para regiões em que o preconceito racial é ainda maior, sob a alegação de que “todos são americanos” e devem viver a “experiência da América”.

 

A série tem o mérito máximo de preparar lentamente os cenários para a eclosão das situações mais explosivas, dando ao espectador a possibilidade de conhecer bem os personagens, se familiarizar com eles e, quando a coisa sai dos trilhos, viver com detalhes suas impressões sobre o mundo que passa a mudar rapidamente e sair do controle. “The Plot Against America” não hesita em mostrar o quanto o racismo e o preconceito está arraigado na sociedade americana e como isso, com o devido estímulo e conivência, pode tornar-se uma triste característica identitária. Qualquer semelhança com a nossa atual realidade, não é mera coincidência. E com a deles também. Figuras históricas como o empresário Henry Ford são mostradas como antissemitas contumazes, sem falar no inacreditável baile que a administração Lindbergh oferece ao ministro do exterior nazista, Joachin Von Ribbentropp, em plena Casa Branca, com a bandeira da suástica ao lado da bandeira americana, com judeus presentes à cerimônia. “The Plot Against America” é criação de David Simon e Ed Burns, tendo o primeiro sido responsável pela prestigiada série “The Wire”.

 

A série é sensacional, sutil e impossível de largar até sua conclusão. A atualidade dos fatos a torna uma recomendação mais do que necessária para ser vista e compreendida.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Não perca “The Plot Against America”

  • 5 de junho de 2020 em 22:18
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    Vi que havia feito um texto sobre a série, acabei agora e vim conferir.
    É impressionante que tudo do David Simon é muito acima da média (The Wire, The Deuce, Treme, Show me a hero e agora The plot against America – todas excelentes). O desenvolvimento dos personagens, a criação de tensão, ritmo… Todas elas me trouxeram deslumbramento e incômodo. Não dá pra pedir mais de programas “televisivos”.

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    • 6 de junho de 2020 em 01:01
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      O grande barato da série, a meu ver, foi a construção meticulosa dos climas e personagens. Daí, quando a gente menos espera, a sensação constante de que algo muito sério está para acontecer é confirmada e a gente é arrastado junto. Talvez a melhor série de 2020.

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