Suricato – Na Mão As Flores

Gênero: Pop, folk
Faixas: 13
Duração: 40 min
Produção: Rodrigo Suricato e Marcos Vasconcellos
Gravadora: Universal

2 out of 5 stars (2 / 5)

 

Ao fim das treze faixas do primeiro disco solo de Rodrigo Suricato, fica uma certeza: precisa-se de uma boa canção por aqui. Esta impressão é reforçada pelo contraste abissal entre as criações de Suricato e “Como Nossos Pais”, de Belchior, que ele interpreta numa versão meio equivocada e sem noção. O sujeito é competente, canta, produz, toca todos os instrumentos, e compõe praticamente tudo que está por aqui. E este é um outro problema: a falta de interação entre ele e um parceiro, uma contraparte, algo que tempere sua música.

 

Rodrigo é, há dois anos, o vocalista e guitarrista do Barão Vermelho. Ele é bom músico, cantor decente, deu à veterana banda carioca uma cara, digamos, mais afeita aos tempos presentes, menos calcada naquela onda blues-rock notívaga que já a caracterizou. Houve quem dissesse que tal inserção – o músico substituiu Frejat nas guitarras e vocais – fosse justa, mas Rodrigo não tem tanta pegada rock, algo que este disco evidencia. Aliás, seu trabalho com o Suricato, banda na qual era o cérebro, já apontava que sua praia é o folk e a mistura deste com outros gêneros, talvez o blues, talvez a MPB. Nada errado nisso, pelo contrário. Mas falta algo.

 

Este “Na Mãos As Flores” carece de algum momento de brilho, que referende a escolha e própria existência de Rodrigo como detentor de uma carreira solo, que tenha algo a dizer. O que se ouve por aqui é uma mistura de Jorge Vercilo com Paulinho Moska, para o bem e, sobretudo, para o mal. Os arranjos são acústicos, mas lançam mão de recursos eletrônicos facilitadores, como a bateria sintética de “A Canção Que Todo Mundo Anda Fazendo”, que tem andamento que tangencia o reggae mas a impressão é que estamos comendo um bom pacote de cream crackers. Sem nada por cima.

 

“Ainda não sei o que fazer, pra você reparar, eu gosto tanto de te ver, o tempo passa devagar” é o verso que abre “Astronauta” e evidencia uma postura meio passiva diante da vida, das coisas, meio incolor, inodora e insípida. Essa impressão vai para as próprias composições, que surgem sem sangue, meio trilha sonora de alguma coisa que você deixa de ver logo nos primeiros dez segundos. É pena, porque o cara tem boa vontade e talento suficiente para fazer algo melhor. Com mais pegada. A cover de “Como Nossos Pais”, que exige raiva, desespero e incredulidade diante do que a letra fala, surge como um exercício de estilo blues diluído e pretensioso. Belchior riria. Dentre as canções sem sal, “Hoje” se destaca com uma melodia bem feita e um refrão bem intencionado, lembrando algo que Leoni poderia compor.

 

Torço para que um próximo disco seja mais bem definido em termos de conceito e repertório, que traga colaborações e mais ousadia. Ou que, o fal “folk brasileiro” que a crítica atribui a Suricato seja muito mais do que essa música diluída e sem face.

 

Ouça primeiro: “Hoje”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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