Sem paciência para Mestre do Sabor

 

 

Ontem, por acaso, pousei meus olhos cansados sobre alguns momentos da final da segunda temporada do Mestre do Sabor. Sim, o reality show culinário da Globo, apresentado por Claude Troigros e seu ajudante, Batista, com o objetivo de escolher mais um cozinheiro vencedor, que irá ostentar o prêmio, abrir um restaurante e colocar um menu cheio de pratos sagazes, inteligentes, originais. O vencedor foi um ex-participante de uma edição pregressa do Masterchef Profissionais, o Dário Costa.

 

Certo, a paciência aqui é zero para este tipo de programa. Porque, ora bolas, Brasil, já estamos cansados de reality show de qualquer tipo, ainda mais um reality show culinário, certo? Reality show é a gente ter que lidar com um presidente da república oferecendo cloroquina para uma ema, posto que ele já foi bicado por outras – ou a mesma? – dias atrás. Reality show culinário é a gente tentar sobreviver com a cesta básica, equilibrando aqui e ali, tirando do almoço pra comprar a janta e vice-versa. Reality é isso, tentar resistir e, sinceramente, programas como este não ajudam nada. Certo, claro, estou ranzinza – talvez muito – mas, como alguns de vocês já sabem, quem realmente gosta de comida, despreza esse tipo de programa.

 

Por quê?

 

Porque ele pega tudo de afetivo que a comida tem pra nós e suga deslavadamente e injeta num corpo frankenstein remixado com doses exageradas de disputa, competição, tempo curto, rebuscamento estéril, tudo o que não passa pela cabeça de ninguém de verdade quando está cozinhando. Sabemos bem: cozinhar é fazer aquele mexidão com o que sobrou, economizar na promoção do mercado, suar a camisa pra comprar um vidrinho de aliche, e, quando muito, tentar copiar a receita que viu na Internet. Não tem nada a ver com gente tentando destruir e eliminar ninguém de nada. Os tempos não pedem mais esse tipo de postura, gente. É hora de união, de samba e soul na mesma música, como diziam Totó Mugabe e Lady Zu em 1979. Não dá mais pra ver um vencedor no pódio. Nem pódios, a menos que eles comportem todo mundo possível.

 

E, vocês sabem, comida é algo sagrado. Não deveria ser objeto de competição. Em nenhum aspecto. Acho sensacional ver programas em que chefs ensinam receitas, dão dicas, nada mais do que a obrigação deles, que já acumularam fama e fortuna pelo esforço advindo do trabalho. Repartir é bom e necessário. Mas, quando entra um tempo curto pra cozinhar, um quesito em que você tem que correr mais que o competidor ou prejudicá-lo deliberadamente para vencer, meu estômago embrulha. Por isso, quando me perguntam: você é competitivo, CEL? Eu respondo: não. Nem um pouco. Pode ganhar aí que eu nem ligo. E isso é verdade. Nosso tempo não comporta a competição como meio de existência/finalidade de vida. É hora, repito, de união.

 

E sobre o Claude, cara que parece ser gente boa, eu digo o seguinte: o sotaque tá forçado demais, o Batista merece mais espaço e protagonismo, além de aparecer não como o ajudante, não como decoração, mas como um chef de cozinha tão importante quanto. Sotaque ele também tem, adorável, da Paraíba.

 

Chega de reality show de culinária, gente. Já basta a vida. A Covid-19.

 

Parem. Estamos de saco cheio. Ou eu estou.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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