“Powderfinger”

 

 

Como a maioria das pessoas que usam serviços de streaming, eu tenho uma enorme playlist com minhas canções favoritas e outras tantas. A ideia é fazer minha própria rádio, que só toque o que eu quero. Sim, é um desejo de criança que se realizou. Entre tantas músicas de ontem, de hoje e sempre, algumas chegam com força. E quase sempre preciso ouvi-las mais de uma vez. É o caso de “Powderfinger”, de Neil Young.

 

Tenho quatro versões dela na minha playlist Atemporal – aliás, quem quiser, pode segui-la à vontade. Três delas são com Neil: uma é a oficial, no essencial álbum “Rust Never Sleeps”, de 1979; a outra é sua versão ao vivo, em “Live Rust”, do mesmo ano e a última é o registro original, de 1976, que surgiu no álbum “Hitchiker”, lançado há dois anos, contendo gravações do Véio no seu rancho californiano. A última é a do grupo canadense Cowboy Junkies, de 1990, quando releu a canção por completo em seu disco “The Caution Horses”, dando-lhe um clima de tristeza que nenhuma das versões de Young foi capaz de dar.

 

E por que “Powderfinger” é tão importante? Bem, fiquemos com seu original, de 1979. A gravação tem Neil e sua Crazy Horse, abrindo o que era o “lado elétrico” de “Rust Never Sleeps”, um disco que falava de rock naquele tempo de punk, com reverência e atenção pelo momento em que surgiu, ciente de que o mundo mudava. Neil Young sempre foi um cara atento à passagem dos anos e entendeu que o próprio rock mudava rapidamente. Em “My My, Hey Hey” outra canção do mesmo disco, ele saudava o próprio Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols, mas isso é outra história. Em “Powderfinger”, Neil faz o que parece ser uma incursão pela mitologia da América cindida pela Guerra de Secessão, ocorrida entre 1861 e 1865.

 

A letra fala de um jovem que avista um barco chegando pelo rio. Nele há homens armados e inscrições nas laterais, significando que aquela gente é invasora. O personagem da canção avisa a mãe e pega o rifle do pai, lamentando ser o único homem no local, precisando pensar rápido para defender seu lugar e sua família. A narrativa fala de perdas e tristeza e logo sabemos que a morte do jovem é inevitável. E ele percebe também, pois, mesmo preparado para a chegada dos invasores, ele tem tempo de notar a sua incapacidade diante do que vem e sua vulnerabilidade por conta das perdas da vida. Há tempo para que ele até lamente pelo tanto que não irá realizar em sua vida, que logo cessará.

 

Se as palavras são perfeitas, o invólucro sonoro que Young e a Crazy Horse proporcionam é igualmente apropriado. Guitarras trovejam enquanto acompanham a melodia. Sabemos que elas são poderosas e rascantes, mas o arranjo as mantém sob controle. Young usa sua voz peculiar para narrar a história, enquanto vocais de apoio surgem no momento certo, conferindo dramaticidade. Os riffs de guitarra são movediços, não dá pra identificá-los com precisão, eles parecem se somar à própria melodia, mas há alguns momentos de evidência. E os solos de guitarra que surgem no início e do meio pro fim são desajustados o bastante para transmitirem a emoção bruta que a situação narrada exige. É um trabalho de gênio, produção do próprio Neil e de David Briggs e Tim Mulligan.

 

Interpretações mais recentes da letra de “Powderfinger” colocam o lugar da narrativa como sendo a de uma família tentando cruzar o Rio Grande, na fronteira entre Estados Unidos e México. Críticos também comparam a história da letra à sequência dos helicópteros em “Apocalipse Now”. O que se sabe é que a canção é um dos maiores momentos de Neil Young como artista e isso, meus caros e caras, não é pouco.

 

 

Look out, Mama, there’s a white boat coming up the river,
with a big red beacon and a flag and a man on the rail
I think you’d better call John
’cause it don’t look like they’re here to deliver the mail
And it’s less than a mile away
I hope they didn’t come to stay
It’s got numbers on the side and a gun,
and it’s making big waves
Daddy’s gone, my brother’s out hunting in the mountains
Big John’s been drinking since the river took Emmy Lou
So the powers that be left me here to do all the thinking
And I just turned twenty-two
I was wondering what to do
And the closer they got,
The more those feelings grew
Daddy’s rifle in my hand felt reassuring
He told me, ‘Red means run, Son, numbers add up to nothing’
But when that first shot hit the dock, I saw it coming
Raised the rifle to my eye
Never stopped to wonder why
Then I saw black and my face flash in the sky
Shelter me from the powder and the finger
Cover me with the thought that pulled the trigger
Just think of me as one you never figured,
to fade away so young
with so much left undone
Remember me to my love
I know I’ll miss her

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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