Odair José – Hibernar Na Casa Das Moças Ouvindo Rádio

Gênero: Rock
Duração: 32 min
Faixas: 11
Produção: Rafael Freitas
Gravadora: Monstro Discos

4 out of 5 stars (4 / 5)

Odair José nunca saiu de cena. Quem deixou os palcos foi sua persona de cantor romântico/popular, que o fez tornar-se conhecido no Brasil dos anos 1970/80. Sua origem é o rock sessentista, via Beatles e Rolling Stones. Há algum tempo que Odair recolocou esta sua persona original em primeiro plano e vem colhendo frutos, especialmente junto aos fãs da música alternativa, num raro exemplo de experiência/ousadia. Este novíssimo “Hibernar Na Casa Das Moças Ouvindo Rádio” é um representante direto de suas crônicas cotidianas sobre um Brasil profundo e desconhecido para a maioria dos habitantes do eixo-Sul- Sudeste.

A sonoridade de Odair neste trabalho é similar à dos dois últimos, “Dia 16” (2015) e “Gatos e Ratos” (2016), ou seja, um rockão de talhe clássico, com ecos de Eric Clapton e Raul Seixas, naquela levada primordial em que respingam blues e country aqui e ali, conferindo uma elegância sonora que cai bem à empreitada. Além da parte sonora, o teor das letras é o que mais chama atenção, não pela novidade – porque Odair sempre teve sua veia contestadora cultivada – mas pelo vigor criativo. Por exemplo, no single “Chumbo Grosso”, que ele ganha a participação de As Bahias e Cozinha Mineira, ele desfere: “O assunto agora é a cultura da bala/Na falta de argumento a solução é uma vala/Alguém mergulhou nas contas do pré-sal/Não deu praia, se deu mal”.

A contestação de costumes e contexto não é política no plano partidário, mas derrama no plano pessoal, dando a Odair um contorno de insatisfação de cidadão comum. Isso se repete por todo o disco. Em “Fora da Tela” ele fala: “quanto mais eu ouço, mais eu fico surdo”, mostrando a contradição entre conhecimento e informação, uma das grandes pragas da pós- modernidade diante dos nossos olhos. Em “Imigrante Mochileiro”, uma canção que poderia ser de Raul Seixas, ele vem com a rotina do homem idealista na cidade grande, sempre de passagem, em meio ao burrismo reinante. Os vocais são divididos com Jorge Du Peixe, que confere ainda mais profundidade à narrativa.

“Pirata Urbano” meio que complementa essa caracterização de identidade. Odair seria tanto um imigrante de passagem como um pirata urbano, que tem visão crítica e consciência diante da procissão de absurdos que se desvela diante dos seus olhos. Ele não esquece do lado decadente da cidade, entoando surpreendentes versos como “Um drink no inferno com a turma do mangue, largue este terno e vem pro gangbang”, em “Gangbang”, algo surpreendente para um cantor romântico. Além destas, “Fetiche” é cadenciada e pessimista (“nada é pra sempre, nem mesmo o futuro”) e a ótima “Ouvindo Rádio”, que cita “Radio Ga-Ga”, do Queen, em seu refrão.

Vigoroso, bem feito, bem produzido, este disco de Odair José reafirma – como se fosse necessário – sua força criativa e o posiciona como um dos compositores criativos e ativos dessa música brasileira confusa e caótica deste tempos. Vale ouvir.

Ouça primeiro: “Imigrante Mochileiro”

 

Foto: Arquivo Globo

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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