Ayrton Montarroyos – Um Mergulho no Nada

Teatro da Amrigs, em Porto Alegre, em 9 de maio de 2019

Os melhores shows musicais são os que logram (co)mover aqueles que os testemunham em dois planos, o geral e o específico. Nestas ocasiões, experimentamos a música no seu aspecto mais poderoso e encantador, o que transmuta um grupo heterogêneo de pessoas que nunca se viram até aquele momento em uma verdadeira comunidade enquanto se comunica de forma única e intensa com a experiência de cada espectador. Artistas veteranos, com repertório musical extenso e fartamente divulgado e com longa vivência no contato direto com o público, costumam produzir momentos transcendentes sobre o palco com frequência e por isso são muito estimados pelas multidões. Para artistas muito jovens, atingir este grau de excelência artística é tarefa que requer muito discernimento.

Ayrton Montarroyos tem apenas vinte e três anos de idade, mas canta desde a pré-adolescência e posicionou-se como profissional da música aos dezesseis. Pode não ser muito tempo de estrada quando pensamos em artistas com carreiras mais longevas, mas para Ayrton a experiência abarca quase toda a vida dele. Muitos cantores na mesma condição ainda revelam imaturidade artística e pessoal, mas Ayrton, que teve contato desde menino com a música brasileira da “velha guarda” por meio de gravações de Dalva de Oliveira, referência incomum para pessoas da mesma faixa etária dele, demonstra um surpreendente senso de responsabilidade para com a herança musical brasileira. Há um evidente contraste entre as escolhas estéticas maduras de Ayrton e sua aparência de jovem nerd. É neste lugar, se é que podemos descrever de tal modo o ponto situado entre a pouca idade cronológica e o alto grau de desenvolvimento individual, que reside o fenômeno que é Ayrton Montarroyos.

“Um Mergulho no Nada” é o nome do CD que Ayrton lançou em 2018. O disco é registro de show ao vivo feito por Ayrton em companhia do exímio violonista Edmilson Capelupi, músico que já acompanhou grandes nomes da nossa música popular, entre eles (a saudosa) Beth Carvalho, Zizi Possi, Nana Caymmi, Paulinho da Viola, Altamiro Carrilho e Paulo Moura. A turnê de divulgação do álbum lançado pelo selo Kuarup amplia o repertório dele, circunscrito a dez faixas. Thiago Marques Luiz, produtor de Ayrton Montarroyos e figura importantíssima da cena contemporânea de música popular do Brasil, informa que o repertório do show, cravejado de clássicos do nosso cancioneiro, alguns deles pouco revisitados por nossos intérpretes, foi todo selecionado pelo jovem cantor, assim como o belo figurino que ele veste durante a performance, um traje preto inteiriço que à primeira vista parece um vestido, mas depois percebe-se que tem pernas como uma calça. O traje confere imagem ascética de sacerdote a Ayrton Montarroyos e valoriza sua presença cênica ao destacar naturalmente as mãos e o rosto claros do jovem longilíneo. Não há cenário e a iluminação é simples, mas não é aleatória, é imbuída de propósito dramático.

À austeridade de recital contrapõe-se a emoção presente na voz que escorre pelas canções como água pelo leito de rio, borbulhante e fluída, que se expande ou se recolhe de acordo com o percurso escolhido. A apresentação ao vivo de Ayrton Montarroyos é mais uma instância que refaz o tempo da delicadeza mencionado em canção por Chico Buarque, compositor presente no setlist do show com “Mar e Lua” e “Cálice”, esta última cada vez mais relevante no ambiente político retrógrado em que vivemos.

Ayrton Montarroyos é um intérprete, não um cantor de karaokê como alguns dos competidores que enfrentou no reality show The Voice em 2015. Por isso, pode encarar “Açaí” de Djavan sem medo de ser confundido com cantor de barzinho. O repertório do show repete as canções incluídas no CD “Mergulho no Nada”, mas apresenta belas surpresas, entre elas a inclusão da contundente “Debaixo do Sol”, pinçada do raríssimo LP “A Frauta de Pã” de Carlos Walker, publicado em 1975. “Ele sempre tentou evitar as palavras/Como se elas tivessem veneno no corte” dizem os versos de Walker interpretados com a justa dose de veneno pelo cantor pernambucano (fica a sugestão para que Ayrton grave esta canção no próximo disco).

Outra composição impactante que não entrou no disco (infelizmente), mas que fornece um dos melhores momentos do show de Ayrton Montarroyos é “Cidade Vazia”. Escrita por Baden Powell e Lula Freire e celebrizada por Elizeth Cardoso, “Cidade Vazia” aparece ressignificada no show, transformada em urgente declaração sobre os dias sombrios em que vivemos: “Há um momento na vida/Em que é preciso lutar/É quando um sonho da gente/Resolve um dia acordar/Não adianta sorrir/Nem vale a pena cantar/Se é verdade que o amor/Um dia vai se acabar”. As declarações políticas incluídas no show de Ayrton Montarroyos são bem dosadas e vão na contramão do espírito do tempo porque são sutis, inteligentes e sobretudo inclusivas.

Entre sambas-canção, canções românticas e até mesmo uma guarânia, a voz de Ayrton Montarroyos transita incólume, segura, sem erros. Esta foi a primeira apresentação em Porto Alegre do cantor, que deixou bem claro a todos os presentes que terá carreira longa e recompensadora (para ele e para nós). O tal “mergulho no nada” foi, na verdade, imersão total no riquíssimo catálogo de canções populares do Brasil, um dos nossos maiores tesouros. Explorar esta mina de canções preciosas como se deve é tarefa para poucos. Nos palcos e em discos, Ayrton Montarroyos mostra que está preparadíssimo para realizar tão necessária e tão prazerosa missão.

Zeca Azevedo

Zeca Azevedo é. Por enquanto.

Um comentário em “Ayrton Montarroyos – Um Mergulho no Nada

  • 15 de maio de 2019 em 21:58
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    Belo texto! Vi o show no Rio e assino embaixo suas palavras

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