Midnight Oil – The Makarrata Project

 

 

Gênero: Rock, alternativo

Duração: 33 min
Faixas: 7
Produção: Wayne Livessey
Gravadora: Sony

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

 

Já fazia 18 anos que o Midnight Oil não lançava um álbum de inéditas. Naquele distante ano de 2002, o grupo australiano soltou o bom “Capricornia” e, algum tempo depois, encerrou as atividades. A retomada dos shows e o registro ao vivo “Armistice Day”, de 2018, documentando estas apresentações ao vivo em vários lugares do mundo, Brasil incluído, mostraram que o Oil poderia soltar algumas canções inéditas ocasionalmente, mas ninguém esperava por um novo álbum. Na verdade, este “The Makarrata Project” não é exatamente um álbum, nem mesmo um trabalho do Midnight Oil. É uma abertura de espaço e prestígio que os caras, liderados pelo ótimo Peter Garrett, concedem a uma causa justíssima: a preservação da memória e a reparação aos chamados “First People”, na Austrália, ou seja, os descendentes das populações aborígenes, que foram dizimadas e descaracterizadas pela presença do colonizador britânico por aqueles lados.

 

Em 2017, uma emenda constitucional, chamada “The Uluru Statement”, foi incluída na Constituição australiana, concedendo este espaço de memória paras as “First Nations”, assegurando políticas governamentais de preservação e reconhecimento. Por isso, “makarrata”, o título do álbum, é o equivalente a “fez-se a paz e o entendimento” na linguagem local, o yolngu. Pois bem, finda a explicação da causa – justíssima – e do engajamento do grupo – pra lá de louvável – ficamos com a música e aí está o maior problema do álbum. Das sete faixas, apenas duas se salvam de um oceano de indulgências que se explica por este ser muito mais um projeto colaborativo e de afirmação de artistas locais do que um trabalho do grupo propriamente dito.

 

As tais questões, “Gadigal Land” e “First Nation”, lançadas como singles, são, justamente, as que mais se assemelham a singles que o Midnight Oil poderia ter soltado em seus dias de glória, especialmente a primeira. As boas levadas de baixo e bateria, sustentando ótimas guitarras, metais e a voz peculiar de Garrett, estão presentes, mostrando que a banda ainda sabe como fazer. Em “First Nation” a coisa fica um pouco aquém, mas ainda é possível curtir. Depois delas, meu jovem, minha jovem, temos uma procissão de artistas locais, citações de leis, poesias declamadas e um monte de manifestações que têm o seu lugar, mas que só fazem sentido para quem está engajado e/ou envolvido com a situação.

 

As faixas são longas, totalmente fora dos parâmetros radiofônicos ou algum indicador neste mesmo sentido. Funcionam apenas como veículos para a causa ser divulgada e a realização da tal emenda constitucional ser celebrada, o que, repito, é justíssimo.

 

Com disco, mais ainda, como um lançamento do Midnight Oil, “The Makarrata Project” só sinaliza que a banda retomou os trabalhos em estúdio e, a julgar pela beleza de “Gadigal Land”, reeditar as melhores canções do passado não será problema. De resto…

Ouça primeiro: “Gadigal Land”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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