Antes de The Killing Moon

 

 

“The Killing Moon” é a música da Echo & The Bunnymen mais executada em plataformas de streaming e uma das mais conhecidas da banda. Ela foi divulgada em 1984. Quatro anos antes, o quarteto inglês tinha debutado com o álbum Crocodiles. É dele – e com merecimento – que vamos falar aqui, 40 anos depois.

 

Por alguma razão, este é o terceiro comentário que escrevo sobre uma estreia de 1980 em terras britânicas. Naquele ano, Echo, U2 e Bauhaus lançaram seus primeiros álbuns. Além do ano, as bandas têm em comum o vínculo com o pós-punk. Demonstram, na sua variedade, os caminhos diversificados aonde o ímpeto de “ir além do punk” estava levando.

 

É muito interessante perceber como referências comuns – Velvet Underground, Bowie, The Doors, por exemplo – podiam conduzir a resultados bem diferentes, mesmo quando não estavam em jogo grandes experimentações. Pois não deixam de ser bandas pop. Um pop esquisito, oblíquo, que quer ir bem além do entretenimento.

 

Fora as referências longínquas, havia aquelas mais próximas, como PIL, Siouxsie and the Banshees e Joy Division. Echo, U2 e Bauhaus representam, por isso, uma espécie de segunda geração do pós-punk britânico. Dessas três bandas, a Echo é a que investe mais em um formato convencional de música e, por isso mesmo, suas composições chamam a atenção pelas variações que as costuram. Aversão a monotonias: parece uma formulação adequada para caracterizar as canções da Echo, desde seu início.

 

Então falemos desses inícios. A Echo nasceu em 1978 como um trio, formado por Ian McCulloch (vocais e guitarra base), Will Sergeant (guitarra), Les Pattinson (baixo). Na percussão, uma bateria eletrônica. Os garotos eram parte da cena musical de Liverpool, de onde surgiram outras bandas pós-punk, aglutinadas por lugares como o Eric’s para shows e por um selo independente como o Zoo. Foi esse selo que lançou um EP da Echo em 1979, mesmo ano em que houve a primeira apresentação no programa de John Peel na rádio BBC.

 

Ainda em 1979 passa a integrar a banda o baterista Pete de Freitas. A repercussão dos shows rende um contrato com a WEA, que decide lançar a Echo para promover um novo selo, o Korova. É já como um quarteto que a banda entra em estúdio – o Rockfield, em Gales, o mesmo onde a Queen registrou seu álbum Sheer Heart Attack – para gravar Crocodiles. A produção ficou nas mãos de pessoas próximas à banda, Bill Drummond (que também empresariava os rapazes e formaria a KLF) e David Balfe (que dirigiria os dois primeiros videoclips da Blur).

 

Antes do álbum, um segundo single já havia sido divulgado, puxado por “Rescue”, música que ilustra bem o estilo obcecado, como assinalei acima, por variações. Sergeant larga um riff esquelético. Entram o baixo e o bateria, com uma levada que desconcerta e só é “arrumada” no refrão. Mas aí a guitarra já soa diferente. Após uma repetição, essa estrutura é novamente reconfigurada para gerar um crescendo, cujo clímax leva a uma calmaria que evolui para outro crescendo, e então a música se encerra com outro andamento, como se divagasse…

 

O verso que se repete nas partes finais de “Rescue” é “Is this the blues I’m singing?” Ele merece dois comentários. Aponta, primeiro, para o clima geral das letras, onde a desorientação é um tema recorrente. Há aí um contato com o gótico (reforçado pela foto que ilustra a capa do álbum), mas é só pela tangente. As frases de McCulloch mais aludem do que elaboram, mais sugerem do que relatam. E a sonoridade da banda em geral passa longe de climas sombrios. Na verdade, aponta para cenários multicoloridos, suas bases oferecendo bastante espaço para a guitarra de Sergeant viajar em muitas direções, com diálogos possíveis com teclados em composições complexas.

 

O segundo ponto é a referência ao blues em um álbum no qual outra faixa traz em seu título o jazz. Mais do que inspirações (embora o teclado em “Villiers Terrace” tenha mesmo uma levada jazz), a diversidade de gêneros reforça a opção pelas variações dentro das músicas. “All That Jazz” não tem nada de jazz. É marcial, um dos momentos mais enérgicos do álbum, ao lado da faixa título, “Crocodiles”, na qual se destaca o timbre metálico da guitarra de Sergeant. “Pictures on my Wall”, regravação do single de 1979, faz o contraponto, com sua sonoridade mais acústica, uma característica também da maior parte de “Stars are Stars”. O clima onírico predomina na última faixa, “Happy Death Man”, a mais psicodélica, com direito a um naipe de metais.

 

A psicodelia está, na verdade, presente desde o início, pois “Going Up” começa com um teclado e com efeitos de “outro mundo”, em um fading in interrompido com uma levada tão new wave quanto o nome da banda. Isso vai até começar o refrão, que leva a música para outro andamento. “Pride” mostra o mesmo apreço pelas variações, assim como a esplendorosa “Monkeys” (anteriormente batizada como “I Bagsy Yours” e faixa de uma coletânea de bandas de Liverpool, Street to Street) e a vigorosa “Simple Stuff” (esta não incluída em Crocodiles, mas lançada no single de “Rescue”, ambas com a produção de Ian Broudie, parceiro de Bill Drummond na Big in Japan).

 

Parte das variações das músicas da Echo opera na lógica do quiet-loud que seria fartamente explorada pela Nirvana e outras bandas grunge. Nunca reparei se esse crédito foi atribuído aos britânicos. Em seu caso, faz paralelo às menções a altos e baixos que recorrem nas letras.

 

A edição estadunidense de Crocodiles, lançada alguns meses depois, traz duas faixas que ficaram de fora da edição britânica. “Do It Clean” (exemplo de quiet-loud) foi registrada nas mesmas sessões de gravação das demais faixas e divulgada como o lado b do single “The Puppet”, ainda em 1980. Ambas foram incluídas (assim como “Rescue”) na excelente coletânea Songs to Learn and Sing, de 1985. Esta coletânea cobre o período dos primeiros quatro álbuns da banda e que se encerra depois do álbum seguinte, com a saída (temporária) do vocalista e a morte (definitiva…) do baterista.

 

A outra faixa incluída na versão estadunidense é “Read it in Books”, uma das composições mais antigas, partilhada entre McCulloch e seu parceiro de Liverpool, Julian Cope (que se destacaria à frente da The Teardrop Explodes, com sua própria versão da mesma música). É interessante comparar a versão de Crocodiles com registros de 1979 – seja a do EP, seja a da Peel Session. Aí percebemos como De Freitas é uma peça fundamental da sonoridade da banda. Sua bateria é descomplicada, mas seu vigor cultiva variações que não são comuns no pós-punk. É uma excelente companhia para a guitarra polivalente de Sergeant, o baixo marcante de Pattinson e a voz aveludada (comparada à de Jim Morrison) de McCulloch.

 

Desde aquela época, as apresentações da Echo eram parte da fama da banda. Crocodiles, que teve boa recepção na crítica musical e na parada britânica, foi levado para vários lugares na Grã-Bretanha e no final de 1980 viajou para o continente europeu. Na volta para casa, já no começo de 1981, o show mereceu um duplo registro: em vinil, com o EP Shine So Hard, e em vídeo, no curta homônimo dirigido por John Smith. A sobriedade da performance do quarteto contrasta com a atmosfera envolvente produzida pela névoa, pela iluminação e pelo cenário.

 

O repertório já trazia músicas que seriam incluídas no álbum que sucedeu Crocodiles. “Zimbo” (que se tornaria “All My Colours” em Heaven Up Here, de 1981) mostra a influência da Joy Division, com a qual a Echo chegou a dividir alguns palcos. “Over the Wall” aponta uma das direções na qual a banda seguiria, dando ainda maior protagonismo à bateria de Pete de Freitas.

 

Quando a Echo esteve no Brasil em 1987, como parte de sua primeira tour pela América do Sul, é claro que tocaram “The Killing Moon”. Mas tocaram também (tomo como fonte a setlist do show de Porto Alegre) cinco faixas de Crocodiles, que havia ganhado sua edição nacional naquele ano. Ao contrário dos dois outros álbuns estreantes de bandas britânicas comentadas acima (U2 e Bauhaus), a première da Echo mereceu inclusão no livro dos “mil e um discos que você precisa ouvir antes de morrer”. Em 1993, a New Music Express destacou Crocodiles em sua lista de 50 melhores álbuns da década de 1980. Se ainda não teve a experiência, aproveite a efeméride para curtir os passos iniciais dessa banda realmente incontornável.

 

 

 

Nota. A versão de Crocodiles disponível no Spotify traz um material bem rico: as 10 faixas da versão britânica, as duas faixas que entraram apenas na versão estadunidense, gravações anteriores de três faixas (incluindo “Simple Stuff”) e as quatro faixas do EP Shine So Hard.

 

 

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Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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