Marilyn Manson – We Are Chaos

 

 

Gênero: Alternativo, metal

Duração: 42 min
Faixas: 10
Produção: Shooter Jennings, Marilyn Manson
Gravadora: Loma Vista/Concord

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Eu não ligo muito pra carreira de Marilyn Manson, mas o respeito. O cara vem se vestindo de zumbi-metamorfo-burlesco-apocalíptico desde o fim dos anos 1990 e tem a decadência humana como seu tema principal. Para isso, conseguiu forjar uma sonoridade que tem muito de eletrônica, muito de peso, muito de mis-en-scéne e uma inegável capacidade de criar paisagens assustadoras, decadentes, opressoras. E tudo isso soa terrivelmente pop, palatável e sua legião de fãs se abastece regularmente desses momentos em que Marilyn ressurge de algum subterrâneo para renovar a sua falta de fé na humanidade. Com o tempo, nada mais coerente do que enxergar nele uma espécie de profeta da atualidade. A humanidade nunca pareceu tão decadente, diluída entre likes, trumps, bozos, queimadas e esforços para chamar de volta alguma empatia, alguma ética, algum valor que não seja aferido por cifrões. E o diabão lá está, recitando seus versículos sobre a pilha de entulho que somos nós. É uma viagem difícil se não for bem feita, mas Manson tem a manha e este disco é uma bem pensada atualização de seu discurso. Afinal, “WE ARE CHAOS”. Ou não? Quem tem coragem de refutar esta afirmação? Eu não tenho.

 

O disco tem a produção de Shooter Jennings, que já trabalhou com Manson outras vezes e, mesmo sendo um sujeito criado nas pradarias do country contemporâneo, é um bom tradutor musical dessa pantomima discursiva que sempre está presente nos discos do sujeito. E esta tradução passa por doses generosas de detalhes muito legais. A música de MM não é “heavy-metal”, algo que é claro. Ele se vale de várias influências conhecidas – alternativo, glam – para temperar com sua figura e seu discurso estas sonoridades e transformá-las em algo “novo”. Há ecos de Smashing Pumpkins e Nine Inch Nails na superfície, mas há muito de David Bowie por baixo de tantas camadas de distrações. Em muitos momentos temos muita referência aos boogies glam de um T.Rex ou algo parecido.

 

Há momentos realmente interessantes por aqui. A faixa de abertura, “Red, Black And Blue” tem alguns riffs engenhosos emoldurando a voz de morto-vivo que vomita versos “Now I’m a bee, the king bee/And I will destroy every flower (I will destroy every flower)/And I will cover the Earth in honey (cover the Earth in honey)/And everyone will eat themselves”. O refrão explode em caos e a alternância entre barulho e silêncio é muito bem explorada e tudo por aqui lembra Smashing Pumpkins fase “Gish”. A faixa- título, logo em seguida, é uma típica canção bowieana safra 1973, com um belo arranjo e letra que diz no refrão: “We ara sick/Fucked-up and complicated/We are chaos/We can’t be cured”. Como negar isso? Podemos escolher ouvir coisas mais aprazíveis e otimistas, mas a mensagem dada é muito realista. “Don’t Chase The Dead”, que vem logo após, é uma canção mais linear, com andamento moderno e pesadão, com teclados e outros detalhes interessantes.

 

Manson se mostra um discípulo aplicado da estética sonora do glam setentista: “Paint You With My Love” é uma típica balada romântica pós-explosão da bomba atômica, “Half- Way & One Step Forward” também se posiciona próxima, ainda que tenha um andamento mais em midtempo. “Infinite Darkness” é a faixa mais eletrônica do álbum, com batidas sintéticas turbinando o vozerio macabro em meio a guitarras aqui e ali. “Perfume”, que brada “get behind me, Satan” em seu refrão, é nada mais que um boogie setentista devidamente montado para o dia de Halloween. “Keep My Head Together” é outra que lembra algo do Smashing Pumpkins, mas já no início dos anos 2000, enquanto “Solve Coagula” e “Broken Needle” são duas tours de force pelo escuro da mente, das perspectivas e da falta de desesperança.

 

“We Are Chaos” é um disco que reflete seu tempo. Para o bem e para o mal. Ouça, mesmo que você não seja fã do Marilyn Manson. Ele conseguiu fazer um trabalho que parece uma versão inimaginável dos noticiários televisivos, em que os apresentadores surgiriam em versões decadentes, bizarras e mortas-vivas, apenas confirmando o estrago diário que fazemos ao planeta e aos nossos semelhantes. Um soco no estômago.

Ouça primeiro: “Red, Black and Blue”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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