Jonnata Doll & Os Garotos Solventes – Alienígena

 

Gênero: Rock alternativo
Faixas: 10
Duração: 32 min
Produção: Fernando Catatau
Gravadora: Risco/Tratore

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Quais são os parâmetros do punk rock? Raiva contra o sistema? Sim. Desejo de mudar as coisas? Sim. Sonoridade cáustica, enguitarrada e mais próxima da emoção que da técnica? Certamente. Sintonia com os fatos do presente e noção de inserção social? Muito. E é neste último ensinamento – dentre muitos outros que existem próximos ao punk – que Jonnata Doll se encaixa perfeitamente. Seu “Alienígena” é uma sucessão de dez cacetadas na hipocrisia da sociedade brasileira tradicional e na sua lamentável versão mais recente, modelo 2019.

 

O que diferencia Jonnata de tanta gente que se diz “punk” por aí é, justamente, a noção de que não precisa seguir definições de outros tempos, apenas interpretá-las e adaptá-las a novos contextos. Sendo assim, pra ser punk no Brasil de hoje, é preciso entender o que aconteceu na política, quem foi eleito presidente e como. E perceber o quanto esta escolha define resultados e quem a fez. Em suma: é identificar seu alvo e atacá-lo com tudo que há em mãos. “Alienígena” é exatamente isso. Jonnata e seus Garotos Solventes já amargaram noites na rua, fome, necessidades mil. Aprenderam e legitimaram sofrimentos e provações e elas são o combustível de sua obra, que já conta com este terceiro trabalho. Aqui, sob a produção do conterrâneo Fernando Catatau, o verve de Doll tem o foco ampliado e sua caixinha de referências bastante melhorada.

 

O som é moderno. Guitarras estão por toda parte, mas há toques e sacadas de estúdio que são indispensáveis hoje em dia. “Edifício Joelma”, por exemplo, é dotada de uma levada tradicional, totalmente inglesa, anos 1970, mas há nela uma urgência totalmente 2019, sanguínea, essencial. “Trabalho, Trabalho, Trabalho”, com participação de Ava Rocha, é uma espécie de atualização de “Livre Iniciativa”, do mundo livre s/a, só que com letra descritiva e questionadora da necessidade de cumprir as normas do capitalismo 9/5, 24/7 ou mesmo aquiescer diante do desmantelamento das estruturas. Funciona que é uma beleza.

 

“Filtra Me” é sombria e totalmente sintonizada com a urbe paulistana, assim como a climática “Vale do Anhangabaú”, que se vale de climas e detalhes guitarrísticos bem legais, para engatar numa levada roqueira que poderia ser de um Raul Seixas na faixa dos vinte anos. “Vai-vai” e a ótima “Derby Azul” já confirmam a belezura instrumental da banda, traduzidas em levadas luxuosas com ênfase no baixo e nos timbres da guitarra, erguendo até detalhes mais dançantes. “Volume Morto” é mais uma nesta onda incandescente e puladinha, lembrando algo que poderia ser do Camisa de Vênus.

 

“Alienígena” é um belo disco. Tem força, tem peso e, acima de tudo, inteligência para entender a que veio e a quem deve incomodar. E consegue cumprir sua missão. Necessário em 2019.

 

Ouça primeiro: “Derby Azul”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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