Ilessi – Dama de Espadas

 

 

Gênero: MPB, alternativo

Duração: 49 min
Faixas: 11
Produção: Elísio Freitas e Vovô Bebê
Gravadora: Rocinante

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Com mais de 20 anos de carreira, a cantora carioca Ilessi entrega um álbum que é o grito de inúmeras de nós em uma sociedade de cultura de estupro, dominação dos corpos e vozes e espíritos. “Dama de Espadas” é seu quarto álbum e o primeiro trabalho autoral e um disco poderoso, sensível e forte. A faixa de abertura, que dá nome ao disco, carrega uma força que pega de jeito e uma pegada intimista, um blues forte, como é a raiz da música negra. É sobre nós mulheres e tudo que que podemos ser, correr lobos, velejar, mergulhar e molhar em si, é sobre nós que sentamos na cadeira amarela de um bar e bebemos sozinhas, é sobre a nossa potência. Dama de Espadas é uma parceria com Iara Ferreira e é o retrato da mulher que faz sexo com quem quiser, toma a cerveja que quiser e sente o sereno da noite e a fumaça em uma esquina qualquer. Livre e viva, como somos por natureza, mas não por cultura. E “sapata que te partiu”, o que é a força desse verso?

“Tem opinião
Sobre quase tudo
Carregam no ventre
A mazela do mundo
Ele foi um perfeito lorde
Mas ficou de bode com a sua lady
Na hora da cama
Essas damas de espadas
Matam o homem de sede”

 

É, meu Brasil, tu carregas mulheres fortes, mas prefere matá-las das mais diversas formas. e Ilessi nos presenteia ao cantar tudo o que tá entalado em nossa garganta. É disco para refletir ao ser reflexo da nossa sociedade preconceituosa, machista e doente até a raiz da unha do pé. “Oração pro Gil” é uma bela música de vibrações composta em 2016 para Gilberto Gil, àquela época enfrentando problemas de saúde. É uma homenagem que foi gravada em 2019, com pitacos dos baianos Gabi Guedes e Kainan do Jêje. Dama de Espadas é a conexão com a mulher, com o feminino, que não é rosa bebê, mas é magenta, é superação, força, profundeza, intuição e sobretudo luta. Há quem pense que pintamos os olhos para ficarmos bonitas, pintamos como aquele que vai pra guerra. “Mar de te amar” é sobre navegar e se afogar em amores. sobre viver a intensidade das ondas que nos carregam para a areia e para as profundezas. Amor tem disso, nos carrega, eleva e transcende.

 

E seguem as faixas “Vagalume” e “Desperto de você” com essa mesma leveza e poesia, sendo que a segunda começa com um assobio leve, fala sobre as partidas, sobre o brilho que se vai ao despertar do que já não é mais sonho. Uma poesia linda em uma melodia igualmente bela e envolvente. “Vivo ou morto” é sensacional, lembrou as melhores interpretações de Elis Regina, com brincadeiras ao cantar, voz com nuances de deboche.

“O que é destino
É um desatino
Que desconstrói
Quando a radiação do raio cobriu a cidade fazendo
Cenário para assombração
O homem pensou na razão
De ainda estar vivo
Qual é o motivo
Da concessão
É relativo
É sim e não
Pois é homem tá lá
Vivendo sem saber que vive
Ele vive sabendo que não saberá
Que o raio não vai lhe contar “

 

É tudo muito vivo e potente em Dama de Espadas. Além de passear por faixas que desbravam o mundo de dentro, o primeiro álbum autoral de Ilessi, traz tudo que deve ser exposto e banido dessa sociedade fundada em preconceito. passeando com liberdade entre estilos e estéticas Ilessi vai do Blues à MPB, passando por elementos da cultura afro que é forte na carreira da artista. Ladra de lugar de Fala, composta por Thiago Amud, tem modernidade, energia e uma urgência que desencadeiam nesse grito:

“vem cá, me dá um beijo, meu fascista preferido
vem cá, me dá um beijo, meu feitor, meu inimigo
eu quero ver o mundo velho se acabar”

 

Ano passado, Ilessi venceu na categoria “Melhor Intérprete Mostra Competitiva Novos Talentos da Música, realizada pela FIRJAN com essa canção. Outra interpretação do álbum “Eu Não Sou Seu Negro” traz um clima mais sério, em camadas de elementos sonoros que se misturam com sons da natureza, sintéticos e batuques que envolvem a voz da cantora. Com letra falada, é um relato da existência e resistência do povo negro, adaptada do filme homônimo, de Raoul Peck.

“eles precisavam de nós para colher algodão
e eles não precisam mais
e agora que eles não precisam mais, eles vão matar todos nós
como fizeram com os índios
e eu não posso dizer que é uma nação cristã
que seus irmãos nunca farão isso,
pois o passado é muito sangrento
todos seus cadáveres enterrados, agora começam a falar
e se fôssemos brancos?
e se fôssemos irlandeses?
se fôssemos judeus, se fossemos poloneses?
Se tivéssemos em mente as mesmas referências
os nossos heróis seriam os seus heróis também”

 

É um belo de um soco no estômago da sociedade da hipocrisia. Com Dama da Noite, Ilessi consegue abordar com muita qualidade todos esses assuntos latentes e que precisam ser gritados. É certamente um dos discos mais importantes feitos neste ano surreal. É um presente aos ouvintes.

 

Ouça primeiro: “Dama de Espadas”, “Ladra do Lugar de Fala”.

 

0

Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *