Humberto Gessinger – Não Vejo a Hora

 

Gênero: Rock alternativo
Duração: 35 minutos
Faixas: 11
Produção: Humberto Gessinger
Gravadora: Deck

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

Ouvindo este novo disco de Humberto Gessinger, lembro que ele já foi um dos compositores mais populares do Brasil. Se você não lembra ou não sabe, basta dar uma olhada no tamanho que sua banda, Engenheiros do Hawaii, tinha lá pelo fim dos anos 1980, início dos anos 1990. Quando Paralamas, Titãs e Legião, os outros três integrantes da primeira prateleira do rock oitentista nacional, atravessaram por crises estéticas, Gessinger, Licks (guitarras) e Maltz (bateria) assumiram o controle e emplacaram nas mentes da juventude discos como “Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém”, “Alívio Imediato” e “O Papa é Pop”. Este último, inclusive, marca o apogeu do grupo, quando mudou-se de Porto Alegre para o Rio, em 1990.

 

Muita água passou embaixo da ponte de Humberto e ele segue com sua carreira em três frentes possíveis: os próprios Engenheiros, atualmente desativados, mas que, com o tempo, se tornaram ele mesmo, com alguns músicos acompanhantes. O Pouca Vogal, que surgiu como um projeto meio alternativo com Duca Leindecker, mas que, em essência, é ele quem dá as cartas e, novamente, em carreira solo. Seja qual for o formato, o ouvinte busca a poesia fluente de Humberto, aquela maneira peculiar que ele tem de encapsular frases, rimas, trocadilhos e letras, tudo num universo à parte, que serve como uma luva para seu público. É impressionante como ele tem a fidelidade de uma multidão que se renova enquanto o artista vai mudando seu formato de expressão musical. A verdade é que este “Não Vejo A Hora” é uma atualização da visão de mundo de Gessinger e tal movimento tem uma demanda enorme.

 

Sendo assim, este álbum é uma sucessão de pequenas crônicas musicadas de Humberto Gessinger sobre o mundo atual, sobretudo revelando uma preocupação especial com o passar do tempo. “Há um tempo para tudo, ele não para, não” é o verso que norteia “Algum Algoritmo”, que puxa esta reflexão sobre o transcorrer dos fatos. Tal missão de falar do presente que era futuro, mostra que Gessinger continua a abordar os assuntos de uma forma bastante peculiar: “algoritmo algum ousaria nos ligar”, ele prossegue, falando que o amor e as pessoas são, na verdade, imunes aos gatilhos da pós-modernidade vigente. Como se ele fosse imune à passagem do tempo e, por isso, conseguisse isenção para tecer comentários. É válido, acho.

 

É engraçado ver que a tal “poesia peculiar” de Gessinger não foi afetada pelo tempo. “O preço da pressa atropela tua timeline, atrás do troll elétrico só não cai quem já morreu” ele entoa em “Calmo em Estocolmo”, exibindo aquela verve juvenil que seus fãs admiram tanto. Em “Olhou Pro Lado, Viu”, ele volta com outros achados: “quem tá vivo, vive mudando. Quem tá vivo, vive aprendendo” (em “Maioral”) ou “Quando um pastor em transe pregava sobre o Monte Sinai, ele chegou na rodoviária, vindo da fronteira com o Uruguai”, em “Outro Nada”. Ou seja, é Humberto Gessinger padrão, levando adiante sua métrica, forma e tudo mais.

 

“Não Vejo a Hora” tem o conteúdo que os fãs desejam e este é seu maior mérito. Seu maior pecado é ter uma produção que entregue pouco em termos musicais, com Gessinger surgindo em molduras acústicas e elétricas meio frouxas. Talvez fosse melhor um instrumental maios seguro e protagonista em alguns momentos. Ou não, talvez o público do disco nem esteja ligando muito pra isso.

 

Ouça primeiro: “Calmo em Estocolmo”

 

1+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 comentários em “Humberto Gessinger – Não Vejo a Hora

  • 17 de outubro de 2019 em 10:31
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    Com o fim dos Engenheiros em 2008 e principalmente com a carreira solo desde 2013 sai muito caro para os fãs e quem acompanha sua obra essa postura do Humberto em ter enchido o saco de tudo que permeia a indústria musical e buscar conforto em músicos de apoio apagados, sem ego e tecnicamente fracos e trabalhos autoproduzidos sem a mão de um terceiro para dar a estes coesão e força. Nos dois álbuns, a impressão que fica é de um “sim, e aí?”. Trabalhos que caminham para lugar nenhum, algo estranho para um fã de grandes álbuns do Rock Progressivo. Humberto aparentemente está muito mais feliz do que nos anos de EngHaw. Já quem curte sua obra, dividido e, geralmente, desapontado.

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    • 22 de outubro de 2019 em 12:03
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      Ele pouco mudou o jeito de fazer música, acho que é o desejo dos fãs.

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