Gruff Rhys – Pang!

 

 

Gênero: Rock alternativo
Duração: 29 minutos
Faixas: 9
Produção: Muzi
Gravadora: Rough Trade

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Em tempos como os nossos, ir contra o sistema é sempre louvável. Ir contra o sistema fazendo algo sensacional, é melhor ainda. Gruff Rhys tem seu público cativo, que o conhece desde os tempos em que era o vocalista do combo Super Furry Animals, lá no País de Gales dos anos 1990. Após o fim da banda, ele adentrou uma carreira solo sensacional, completamente fora de qualquer parâmetro, mas, basicamente, fazendo música pop em galês, via de regra, cantando em inglês, mas com um senso estético único, psicodélico e colorido. Esta carreira solo já tem quase 15 anos e “Pang!” é seu novíssimo fruto. Ele também marca o amor de Gruff pelos ritmos africanos modernos, levado adiante aqui com a colaboração do sul-africano Muzi, que o acompanha disco adentro e assina a produção. Te garanto: “Pang!” é diferente de tudo o que você vai ouvir este ano.

 

 

E, mais que diferente, é arejado, inventivo e inovador. Condensa elementos tão distintos quanto o tal afropop contemporâneo, o pop anglo-americano mais tradicional e alguns tiques e taques psicodélicos, que surgem via música eletrônica de vez em quando. É um álbum de seu tempo, quando é possível sintetizar tantas influências de origens distintas, tornando-as correlatas dentro de um contexto próprio. Sob a batuta de Gruff Rhys, tudo isso faz sentido, pois a gente espera dele tudo, menos o óbvio e o simples. Mas não pense que ouvir as canções de “Pang!” vai exigir de você um grande distanciamento do que está acostumado a ouvir. O legal é, justamente, perceber as nuances familiares numa música tão nova e desconhecida, completamente descolada do óbvio.

 

Vamos fazer um pequeno guia de referências pra facilitar o seu prazer auricular. Há ecos de um baticum afrobeat logo na primeira canção, a faixa-título, mas ele é sufocado por palmas sintetizadas e colocadas de um jeito que vira percussão eletrônica, algo que você poderia ouvir num disco recente do Radiohead. A faixa seguinte, “Bae Bae Bae”, é colorida, com metais diaspóricos, riffs de guitarra curtos e precisos, embalando os vocais de Rhys, em galês. “Digidigol”, logo em seguida, é uma balada mais convencional, com violões dedilhados que dialogam com uma construção rítmica mais complexa, e um refrão que poderia ser de uma faixa perdida de … Khaled, aquele do “El Arbi”, que fazia parte da trilha sonora da novela “O Clone”.

 

“Ara Deg” é mais próxima da música eletrônica, mas tem um andamento solar e inegavelmente tropical, desses que surgem sob os coqueiros numa praia qualquer, entre Câncer e Capricórnio. Os vocais de Gruff estão inseridos neste contexto, logo, soam luminosos e felizes. “Eli Haul”, logo após, tem os vocais mais solenes, conduzindo uma melodia que começa ao violão, mas que vai se revelando aos poucos, num arranjo que ganha em sutileza enquanto mantem sua unidade. “Niwi o Anwiredd” mantém a magia eletroacústica reinante e abraça metais noturnos, que vão pontuando uma levada que tem parentesco distante com a bossa nova. “Taranau Mai” é uma canção que tem letra em … zulu. Sinceramente, se não fosse o release, poderíamos achar que era outra faixa em galês, mas o instrumental aqui é muito mais próximo das raízes africanas do produtor Muzi, com ambiências e toques pessoais.

 

“Ôl Bys/Nodau Clust” é outra belezura de canção, mas que traz o arranjo mais oitentista de todos, com algo de tecnopop em seu andamento, na sutileza das batidas e na progressão de acordes. “Annedd i’m Danedd” encerra o disco com mais metais e andamento percussivo/violões, com uma celebração sob o sol, uma espécie de encerramento de uma Copa do Mundo portátil dentro da sua caixa de som.

 

“Pang!” pode soar estranho aos ouvidos numa primeira audição, mas tem um visgo fortíssimo, que vai te fazer achar tudo meio banal por um bom tempo. Se entregue a esse mundo subversivo e sensacional, uma ponte entre o moderno País de Gales e a moderníssima – e atemporal – África.

 

Ouça primeiro: “Bae Bae Bae”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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