George Benson – Weekend In London

 

Gênero: Soul, jazz

Duração: 72 min.
Faixas: 14
Produção: Kevin Shirley
Gravadora: Mascot/Provogue

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

Uma das primeiras lembranças musicais que tenho é de George Benson cantando “On Broadway” ao vivo, com um solo interminável de guitarra, scats, estilo, em pleno 1977/78, num registro contido no disco duplo “Weekend In L.A”. Eu gostava já com seis pra sete anos e, dali pra frente, até o início dos anos 1980, vi Benson cravar sucessos nas paradas como “Give Me The Night”, “In Your Eyes”, “Love X Love”, “Nothing Is Gonna Change My Love For You” e outros. Depois fui perdendo o homem de vista, me interessando por bandas de rock e só revisitei sua carreira ocasionalmente nestes anos todos. Pois é bem interessante que Benson volte a lançar um álbum ao vivo aos 77 anos de idade, com um show gravado ano passado, no Ronnie Scott’s, famosa casa noturna londrina, algo que ele não fazia há 30 anos. E, se levarmos em conta o “Weekend In L.A”, há um espaço de 37 anos separando os registros, algo bem considerável.

 

O que você precisa saber é que Benson oferece aqui exatos 72 minutos de excelência musical. A banda que o acompanha tem talento de sobra pra executar em modo “live” todos os sucessos – e mais algumas pepitas – desta fase soul-jazz-pop da carreira do velho guitarrista, lembrando que a origem dele é o jazz nos anos 1960, como um dos grandes discípulos de Wes Montogomery e Grant Green. De algum jeito bastante natural, Benson incorporou essas influências jazzísticas em sua música, de modo que é possível senti-la facilmente em seu uso da guitarra e da técnica de dobrar a sonoridade das seis cordas com os vocais, algo que tornou-se uma característica marcante de suas performances. O repertório do álbum também foca nesses standards recortados da virada dos anos 1970/80, todos levados a cabo com naturalidade cativante.

 

George continua sendo um mestre da guitarra, colocando o instrumento a serviço dos arranjos, mas sem abrir mão dos espaços para dar solos mansos, discretos, nada espalhafatosos. Ainda que seja sempre legal ouvir sua destreza no instrumento, o mais bacana em “Weekend In London” é constatar que o homem é capaz de enfileirar várias pérolas ao vivo com a mesma classe dos registros em estúdio. Além do mais, um show que abre com a colossal “Give Me The Night”, fruto da parceria entre Benson e Quincy Jones, faixa-título de seu disco de 1980, merece todo o nosso respeito. É a senha para o show já começar em alta octanagem, com a banda mandando ver nos arranjos que repetem a quase totalidade dos originais. É o caso específico de uma de suas canções mais legais, “Turn Your Love Around”, direto de 1981, cheia de balanço pianístico e ótima performance de bateria.

 

E o desfile vai seguindo com naturalidade, com a chegada de “Love X Love”, “In Your Eyes”, a ótima versão de “I Hear You Knocking” (de Fats Domino), “Feels Like Making Love”, “Nothing Is Gonna Change My Love For You”, “Feels Like Making Love”, além de uma entusiasmada releitura de “The Ghetto”, de Donny Hathaway. E tome pepitas com ótimo potencial dançante, como “Love Ballad” (1979), que exala aquele cheiro de canção padrão Los Angeles na virada das décadas de 1970/80. Tudo perfeito, no lugar exato, arranjo preciso, ótimas guitarras base, teclados e tudo mais. E o balanço irresistível segue com “Never Give Up On A Good Thing”, outra cacetada sacolejante, cheia de ótimas linhas de baixo e execução cristalina da banda de apoio do homem. “Affirmation”, faixa do ótimo “Breezin'”, de 1976, revisita o histórico jazzístico de Benson, e prepara para o fim da linha, que vem com “Cruise Control”, que é uma canção de 1998, mas que guarda a inspíração total na fase oitentista do homem.

 

“Weekend In London” é um desses lançamentos que você nem vai saber que aconteceu, dado o padrão de pauta da imprensa musical nacional dos dias de hoje. Nada mais injusto. Aqui George Benson faz um registro irrepreensível, verdadeiramente exuberante, que você precisa ouvir. Caia dentro.

 

Ouça primeiro: “Never Give Up On A Good Thing”

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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