Bob Mould – Blue Hearts

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 35 min.
Faixas: 14
Produção: Bob Mould
Gravadora: Merge

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Experimente se colocar na pele de um americano que acredite, de fato, na igualdade e na liberdade. Que pense que estes são valores inalienáveis, que execra a política empreendida por seu próprio país, recentemente entregue aos desígnios de um cara como donald trump. Que não entenda como, pleno 2020, é preciso explicar e justificar sua opção sexual perante a sociedade. Pensou? Não deve ser fácil ser um cara assim e esta é a impressão que o disco novo de Bob Mould transmite em cada instante de seus 35 minutos. Quem o conhece sabe que Bob é gay assumido, guitarrista que criou uma sonoridade própria quando fazia parte do Husker Dü, lapidando essa marca sonora no Sugar ao longo dos anos 1990 e que, desde os anos 2000, vem gravando bons discos solo com regularidade. Só na década de 2010 foram quatro e agora vem este sensacional “Blue Hearts”, que confirma a ótima fase que Bob Mould vive. E, como não poderia deixar de ser, seu objetivo aqui é dissecar – ou tentar – o jeito como estamos vivendo neste mundo.

 

Bob produz, toca vários instrumentos, compõe tudo que está aqui. Ele é acompanhado por Jason Narducy no baixo e Jon Wurster na bateria. Ouso dizer que, mesmo estando nas duas ótimas bandas que liderou na passado, que estes dois são os parceiros musicais mais eficientes que Bob já teve. Tudo aqui é dinâmico, pesado, melódico, original e instigante. Sempre digo que não existiria Foo Fighters se não fosse pela criação desta sonoridade que Mould vem colocando em prática desde sempre. Este é mais um disco em que isso fica totalmente evidente e deste jeito também fica o valor da síntese. Apenas uma faixa extrapola a marca dos três minutos, ficando “Blue Hearts” caracterizado por porradas curtas e bem aplicadas. Tem espaço pra todo mundo no comando da metralhadora giratória que Bob empunha ao longo do disco. E não há uma única bala desperdiçada, todos os vilões são atingidos em cheio.

 

Os singles que Mould lançou já antecipavam o movimento. “Siberian Butterfly” falava sobre o pasmo de ser gay em 2020 e precisar dar satisfações. A melodia, como é característico por aqui, é doce e pop, mas surge no meio de uma parede de guitarras e microfonias, quase irreconhecível. Em pouco mais de dois minutos ele fala de transformação e liberdade, e reconhece as dificuldades do passado: “Passei por alguns anos de ódio a mim mesmo como um jovem gay – nunca me sentindo “bem o suficiente”, não reconhecendo as qualidades positivas que tinha a oferecer, enquanto inibia o desenvolvimento de minha identidade gay”. Noutro single, a furiosa “American Crisis”, ele mirou nos evangélicos radicais que povoam as esferas de poder e na própria sociedade, chamando o país de “evangelical ISIS”, numa referência ao estado islâmico.

 

E o disco é todo assim. Porrada na cara, porrada na lata, tudo bem desferido, bem pensado, executado. O grau de maestria que Bob conseguiu atingir confirma a sua genialidade e sua marca sonora está por todos os cantos. Até em momentos como “Password To My Soul”, “Everything To You” e “Leather Dreams”, mais pendentes para o campo dos sentimentos, ele posiciona a sua aceitação como gay de forma a criar neste ato a resistência necessária para seguir vivendo nos nossos tempos. Se vivemos uma época em que a individualidade é massacrada em nome de uma uniformização que visa o consumo e a alienação absolutos, Bob Mould é uma voz a ser ouvida, levada em conta e admirada por sua integridade, postura e presença artística.

 

“Blue Hearts” é mais um álbum nesta tradição recente de ótimos trabalhos. Tem barulho, melodia, ótimas letras, engajamento e combatividade. Ouçam e passem adiante.

 

Ouça primeiro: “American Crisis”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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