Julico expande seu som em novo álbum

 

 

 

 

 

Julico – Onirikum
39′, 13 faixas
(Toca Discos)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

 

Julio Andrade, Julico para os que ouvem seu trabalho, é um artista em franca ascensão. Revelado na The Baggios, banda que mantém como “projeto principal” em sua carreira, o sergipano de São Cristóvão já coleciona vários êxitos, entre eles, uma indicação para o Grammy Latino e muitos discos bacanas, como “Brutown” (2016), “Vulcão” (2018) e o ótimo “Tupã-Rá” (2021). Mas, como mente pensante e reflexiva sobre a música nacional e suas várias tradições e ramificações, Julico precisa dar vazão a um outro trabalho, com menos influências de rock e blues – como é a The Baggios -, enveredando pelos caminhos aveludados do soul e do funk brasileiro dos anos 1970/80. Foi com “Ikê Maré”, de 2020, que ele iniciou esta caminhada paralela e dá mais um passo com este ótimo e novíssimo “Onirikum”, lançado há pouco. Ao ouvir as treze faixas do álbum, fiquei com a impressão de que ele atende às necessidades de um clássico do soul-funk verde-amarelo, caso ele fosse gravado agora, 2023.

 

Ao mesmo tempo em que aponta para o presente e para o futuro com vários detalhes bacanas, “Onirikum” tem uma pegada vintage que é essencial, sem falar que faz várias interseções com influências nordestinas, algo que estava muito presente, por exemplo, na estreia de Tim Maia, há 53 anos. Além disso, há samba, rock, psicodelia, ou seja, Julico mostra que tem cancha pra transitar por vários caminhos e estilos, sem perder o passo ou desafinar o tom. O cara tem repertório, recursos, habilidade como produtor e tem uma marca sonora que já tem suas características próprias, sendo facilmente identificável nas primeiras audições. E tem aquela instância de sensibilidade e sentimento que confere um carimbo de habilidade: as canções mais lentas/de amor, que exigem certo desnudamento estético e um abraço à sensibilidade, que pode soar até meio anacrônico em 2023, mas que é prova de talento indispensável a uma trajetória como parece ser delinear a de Julico.

 

“Onirikum” foi produzido pelo próprio e tem sonoridade que incorpora timbres elegantes para exercitar sua versão de soul funk brasileiro. Tudo é moderno mas com um pé nos aspectos mais clássicos, sem perder a originalidade e também revelando a fluência de Julico como compositor e artesão sonoro. O sujeito segue como ótimo guitarrista e vem se tornando um vocalista com boa marca, usando o que tem com inteligência, o que evita, por exemplo, que Julico saia pelo álbum tentando emular gente como Cassiano, Tim Maia ou Marku Ribas, só para citar em soulmen brasileiros nos quais se inspirou para realizar “Onirikum”. Algumas canções realmente bacanas transitam ao longo dos quase quarenta minutos de percurso sonoro. “Mon Amour”, por exemplo, é uma boa síntese do que este trabalho tem para oferecer. Guitarras bem colocadas, a serviço de uma melodia bela e um arranjo que transita pelo tempo, ora mais clássico, ora inegavelmente moderno.

 

A faixa-título já é o outro lado da moeda. Mais acústica e contemplativa, ela é totalmente setentista, com letra de amor que oscila entre com quem e onde se vive, glorificando tudo isso como se fosse um sonho que se materializou. O arranjo é realmente belo e doce, coisa de quem sabe o que está fazendo. “Música” é mais uma faceta que Julico oferece, novamente com guitarra marcante, levada aerodinâmica e um naipe de metais que pontuam a melodia. Os vocais aqui emulam essa negritude setentista com bom resultado, mostrando lastro nos aspectos mais clássicos, enquanto “Cervejoim” já serve um banquete funk de guitarras em wah-wah e levada dançante, que celebra a capacidade da música como meio de expurgar agruras diárias. O trabalho de arranjo aqui é coisa muito séria. E “Funkão”, como o nome já diz, é uma ode a esta variação brasileira do estilo americano, com marcas nítidas de Tim Maia no arranjo e dinâmica.

 

“Onirikum” é a prova incontestável de que Julico é um nome sério no cenário musical atual, com capacidade de soar distinto em influências e múltiplos trabalhos, mas que também é detentor de uma identidade própria e cheia de detalhes bacanas. Belezura total.

 

Ouça primeiro: “Música”, “Funkão”, “Cervejoim”, “Mon Amour”, “Onirikum”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *