Entrevista – Ayrton Mugnaini Jr. – “Adoniran foi legítimo punk à brasileira”

Ayrton Mugnaini Jr. é uma figura rara da cultura brasileira. É jornalista, pesquisador de música, escritor, tradutor e músico! Além de um rico trabalho autoral, Ayrton tocou em bandas como Magazine e Língua de Trapo. É autor de “Adoniran: Da Licença de Contar…”, biografia de Adoniran Barbosa. Na entrevista abaixo, Ayrton fala sobre a relação do sambista com o conceito de “Luta de Classes” de Karl Marx e faz um balanço da obra do sambista.
– Quanto tempo levou para o processo de feitura de “Adoniran: Dá Licença de Contar”, sua biografia do Adoniran Barbosa?
Eu vinha escrevendo artigos sobre ele desde os anos 1980. Comecei uma primeira versão do livro para a coleção Biblioteca Musical, da editora “Nova Sampa”, que desde 1993 lançou livros meus sobre artistas como Raul Seixas, Rita Lee, a banda Queen. Os volumes 9 a 11 da coleção seriam, não nessa ordem, Elis Regina, Cazuza e Adoniran, em 1995 e 1996. Mas de repente a editora resolveu priorizar outros temas além da música e cada um desses meus três livros acabou saindo de um jeito: Cazuza pela editora e gravadora BMGV (um dos primeiros livros virtuais brasileiros), Elis por minha conta em PDF (com incentivo da BMGV e permissão verbal de João Marcelo Boscoli) e Adoniran na coleção “Todos Os Cantos”, da Editora 34, revisado e atualizado até o momento de ir à gráfica, como é de meu estilo (risos), em 2002, com uma segunda edição melhorada e atualizada em 2013.
– Você acha que em algum momento de sua vida, Adoniran teve contato com a obra de Karl Marx?
Suponho que sim, ainda que esse contato tenha sido de relance. Certamente, frases como “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” tem tudo a ver com Adoniran, autor de sambas sobre opressão sofrida pelas classes menos favorecidas como “Saudosa Maloca”, “Carolina” (homenagem em parceria com Marcos Cesar, seu colega na rádio e TV Record) à escritora Carolina Maria de Jesus), “Torresmo à Milanesa” (parceria com Carlinhos Vergueiro) e “Despejo Na Favela”, e acho que ele reformataria a ideia em algo como “Proletários e proletárias de todo o mundo, vamos nos unir!” Inclusive, essa frase de Marx que citei foi adaptada, em inglês, “workers of the nation, unite”, pelo compositor inglês Ray Davies, da banda The Kinks, cuja obra também inclui muitas canções irônicas, porém empáticas, sobre a vida suburbana, inclusive sugerindo que o suposto “purismo” da esquerda pode ser tão opressivo quanto a postura “a aparência é tudo” da direita. Percebo Davies como um equivalente inglês de Adoniran, a ponto de um de meus passatempos como músico e tradutor ser adaptar a obra de um para o idioma e a linguagem musical do outro, assunto para uma outra vez (sorri).
– Concorda que Adoniran talvez seja o artista brasileiro que, mesmo sem ter intenção, foi o que mais abordou a luta de classes em sua obra?
Intenção de abordar ele teve, sim, mesmo com o jeitão informal de compositor popular. Basta lembrar que seu samba “Despejo Na Favela” quase foi proibido porque a censura federal implicou com o verso “mas essa gente ai, hein, como é que faz?”. Talvez Adoniran tenha mesmo sido o artista brasileiro que mais cantou sobre a luta de classes, e sem dúvida foi um dos pioneiros a seguir mais frequentemente essa temática, famoso inclusive como “cantor das malocas”.
– Como você descreveria Adoniran e sua obra?
Adoniran foi legitimo punk à brasileira, com sua postura desconcertante, com frases secas e objetivas ditas de modo quase sempre jocoso e muitas vezes suavemente agressivo. Um exemplo: ele quase sempre escondia sua vida particular, a ponto de ter uma filha, Maria Helena (que inclusive entrevistei para meu livro), mas uma vez a “Folha de S. Paulo” lhe perguntou se ele tinha filhos ou filhas e ele mandou “não tenho, vou comprar na feira!”. E a obra de Adoniran é uma das que melhor representam São Paulo e o Brasil, com ritmos brasileiros muito bem unidos a melodias italianadas – não fosse Adoniran filho de casal imigrante italiano – e letras que refletem e observam o cotidiano paulista e brasileiro, a famosa linha “canta tua terra e serás universal”. Universal em todos os sentidos, pois a obra de Adoniran inclui regravações por cantores e cantoras de outros países. Afinal, poucas pessoas brasileiras têm sido regravadas por artistas como Elis Regina, Maysa, Marlene, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida, Isaura Garcia, Sylvia Telles, o Zimbo Trio, João Gilberto, Tom Zé, Jards Macalé, João Bosco, Ivan Lins, os Três Moraes, Passoca, Raul Torres, Rolando Boldrin, Cascatinha e Inhana, Beth Carvalho, Leci Brandão, Tetê Espindola, Wanderléa, Rita Lee, Carlos Gonzaga, Premê, Nasi e, fora do Brasil, o israelense Matti Caspi, o italiano Riccardo del Turco e o cubano-italiano Don Marino Barreto Jr.. Para terminar, recomendo quatro livros sobre Adoniran. Um é o pioneiro Adoniran, Um Sambista Diferente, de Breno Gomes. Outro é Adoniran – Uma Biografia, onde o autor Celso de Campos Jr., casperiano, adoniranólogo e “Jr.” como eu, foi fundo na vida de Adoniran, complementando o meu, que usa a vida dele como fio condutor para falar de sua obra. Os outros dois, sem falsa modéstia, são este meu e Adoniran Em Partitura, em parceria com o músico e pesquisador Tomas Bastian e analisando composições de Adoniran lançadas somente em partituras. E espero que alguém leia esta página e também ouça, estude e toque Adoniran, melhor ainda se também escrever um livro. Nois vai, nois vorta! (ri e pega o violão).

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
