El ratón

 

 

O tempo nos traz reflexões importantes: olhando para minha existência até agora, tenho orgulho de nunca, jamais, em tempo algum, ter visto o programa do ratinho. Sim, o ratinho, aquele apresentador televisivo, lá do Paraná. Aquele que ainda detém horário nobre, se não me engano, pelo SBT, e que, dado o alcance de seu programa e a crônica deficiência de educação do brasileiro médio, adquiriu em tempos ultramidiáticos, status de “formador de opinião”. Sob o manto da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e outras expressões civilizatórias, humanitárias e democráticas, os conservadores – como o ratinho – dão declarações que vão diretamente contra estes preceitos. A última foi proferida por esses dias.

 

Nela, o ratinho dizia que o Brasil precisava de uma solução igual à de Singapura, que “colocou um general no poder, consertou tudo o que estava fora do lugar, chamou todos denunciados e disse: ‘vocês têm 24 horas para deixar o país ou serão fuzilados’. Limpou Singapura”.

 

Pensem bem.

 

Se olharmos para trás, lá em 1964, esta foi a mesma linha de pensamento da direita civil brasileira, de UDN e setores do PSD. Vamos usar os militares para tirar essa gente daí, não importa as eleições e a vontade do povo, a gente tira eles e, no ano que vem – 1965 – com as eleições, a gente ganha. Bem, sabemos que isso não aconteceu, certo? Tanto foi desastroso o movimento destes senhores que os militares, com o AI-5, colocou políticos como carlos lacerda na alça de mira das cassações e eles se tornaram proscritos em meio ao cenário que ajudaram a consolidar. A ponto de lacerda ser um dos articuladores da Frente Ampla, movimento suprapartidário que combatia os generais-presidentes e que, com o mesmo ato institucional, foi silenciado.

 

Mas, ora, estamos em 2021, certo?

 

Falas como a do ratinho, cujo filho é governador do Paraná, são atentados contra a democracia, naturalizados pela nossa sociedade. O que ele disse, sem a retórica popularesca foi: precisamos de um momento de suspensão dos direitos individuais, das liberdades, das instituições e, a partir disso, vamos “limpar” o país e fuzilar/exilar quem não pensa da forma que o governo federal atual pensa. Isso significa dizer a falta de apoio à vacinação, a intolerância absoluta com as diferenças, a desumanidade total sobre pobreza, miséria e desemprego e, acima de tudo, a contínua liquidação do patrimônio público para o capital transnacional.

 

O ratinho é um “homem do povo”, ainda que seja riquíssimo. Ele sabe falar para seu público, tem a oratória daqueles poucos afortunados de uma cidade pequena que tiveram a chance de estudar na capital, mas que voltam para onde nasceram e adquirem status privilegiado porque “são inteligentes”.

 

Em tempo: tenho minhas dúvidas se o ratinho sabe, de fato, algo sobre Singapura ou sua situação. Talvez nem desconfie que o país asiático tem uma das mais baixas avaliações em termos de liberdade de imprensa. Fico me perguntando se, caso discordasse dos rumos adotados aqui, após a limpeza que ele mesmo sugere, ratinho conseguiria escapar da ratoeira do estado.

 

Acho que não.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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