Doves – The Universal Want

 

 

Gênero: Alternativo

Duração: 47 min.
Faixas: 10
Produção: Doves, Dan Austin
Gravadora: Virgin

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Surgido na virada do século, o Doves veio naquele pacotão de bandas que faziam uma mistura de influências progressivas, psicodelia e uma visão de mundo pós-Radiohead. Era parente de Coldplay, Muse, Elbow e outros bebês. Hoje, 20 anos depois, estes grupos trilharam caminhos diferentes e o trio de Manchester tornou-se o mais elegante e econômico dentre eles. Após onze anos de hiato, “The Universal Want” surge como o quinto trabalho do Doves, ainda na mesma pegada original. O que diferencia o disco é, justamente, o que já dava pinta na própria banda, quando surgiu: um desejo de fazer música enorme, no sentido grandioso, épico, do termo, temperado por uma característica indispensável aos bons sons, que é o talento que Jez Williams, Jimi Goodwin e Andy William têm para compor ótimas canções. A certeza é que este é o melhor trabalho do Doves até agora. Nada mau para quem volta de tanto tempo parado.

 

Talvez seja o tempo, talvez sejam os tempos, mas o fato é que a música do Doves cai como uma luva. Este The Universal Want tem a força da estreia – “Lost Souls”, de 2000 – com o clichê jornalístico do “polimento”. Aquele indicativo de que o grupo, claro, lapidou sua sonoridade, encaixou melhor seus limites e espaços ao longo destes 20 anos e se tornou capaz de oferecer um disco que pega o ouvinte por motivos que vão bem além do encantamento por um grupo novo ou pela entrega com que ele se dedica às canções. O que antes era uma aposta – o talento dos caras – foi se maturando em bons trabalhos ao longo dos anos 00 – além de “Lost Souls”, “The Last Broadcast” (2002), “Some Cities” (2005) e “Kingdom Of Rust” (2009). Deste tempo, o Doves ainda traz o mesmo líquido amniótico que alimentava seus irmãos de época. E isso é bom.

 

Há muitas faixas em “The Universal Want” que lembram o primeiro disco do Coldplay, “Parachutes”, lançado também em 2000. O clima de pessimismo, de prostração e de passividade diante do milênio que aquele álbum trazia, é substituído aqui por inconformismo, crítica e boas sacadas sonoras. A faixa-título, por exemplo, que parece algo lá do Coldplay inicial, é rendida em sua metade por um ataque de corais e guitarras que lembram algo do Simple Minds do fim dos anos 1980, meio dramático, meio grandiloquente. Funciona. E também dá certo quando a banda dá uns vôos meio experimentais, chegando a fazer umas petergrabrielzices, como na canção que abre o álbum, “Carousels”, que tem andamento meio percussivo, chegando a lembrar um … forró? Sensação igual permeia “I Will Not Hide”, também com bateria quebrada e ambiência de guitarras interessante.

 

Mas os acertos superam os vacilos eventuais. A melodia de “Cycle Of Hurt” é linda e o arranjo é dramático. “Broken Eyes” é outra canção com tonalidades épicas que lembra alguma coisa do U2 do início dos anos 2000. “For Tomorrow” também vai neste mesmo caminho, com boas inflexões de guitarras e refrão bombástico. O grande, enorme, acerto no alvo é “Prisoners”, a melhor faixa do álbum e da carreira da banda. É uma crítica à futilidade do nosso tempo, nos entendendo como prisioneiros desta época, em que tudo parece líquido. Ao fim do refrão, bate o otimismo com a certeza de que “isso logo vai passar”. Em tempos de covid-19 e demais flagelos da nossa época, é um alento ouvir tal mensagem sucinta. Tudo isso sem falar na estrutura e no arranjo da canção, que são belíssimos.

 

“The Universal Want”, põe o Doves pra jogo, como dizem por aí. É uma banda que evoluiu, melhorou e oferece seu melhor trabalho agora. É um álbum bem produzido, bem composto e que tem tudo pra ganhar o ouvinte logo de cara. Beleza.

 

Ouça primeiro: “Prisoners”

 

3+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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