Deconstructed: Avaliando Um Campeão dos Sebos de CD

 

Os sebos são um reflexo do capitalismo. Lojas de itens usados – livros, discos, CDs, DVDs, Blu-Ray – que são uma espécie de porta dos fundos do consumismo. Eu não tenho nada contra, sou um consumidor de livros e CDs há muito tempo e já vivi momentos na vida em que precisei me desfazer deles para conseguir algum dinheiro numa situação de emergência. Felizmente, se pesar estes apertos financeiros e compará-los com as inúmeras vezes em que entrei em sebos para comprar alguma coisa mais barata, verei que não tenho muito do que reclamar nesta vida. Apesar disso, este tipo de loja também está sumindo, uma vez que as pessoas não compram mais mídias físicas ou livros (uma mídia física primitiva? Sim.). Vivemos o tempo do streaming, não possuímos mais as coisas, pagamos pelo seu uso sem a sua posse. Não quero entrar nestes temas mais filosóficos acerca da função social do sebo de discos/livros, mas voltarei a eles uma outra vez. A ideia aqui é avaliar um CD que está presente em TODOS os sebos que visito. “Deconstructed”, do grupo inglês Bush.

 

Há menos de um mês – após um hiato enorme – entrei num sebo no Centro do Rio. O motivo: vendas dos últimos ítens antes de fechar as portas, algo que é melancólico, mas que significa oportunidade de adquirir tesouros. Trouxe alguns álbuns do Prince – “Grafitti Bridge” e “Sign O’The Times”, uma coletânea do saxofonista Jr. Walker, entre outras belezuras e, em meio à procura nas prateleiras, topei com algumas cópias deste verdadeiro campeão dos sebos. O disco com capa preta e uma cruz vermelha, meio borrada, com o nome BUSH escrito como se as letras pingassem de algum inferno. Pra quem não sabe, este “Deconstructed” não é o único campeão dos sebos em que estive: também vejo com muita frequência discos dos grupos americanos Soul Asylum, Spin Doctors e Smash Mouth, às vezes em edições importadas, o que me dá pena do antigo dono. Gastou uma grana importando estes álbuns, ou – pior – esteve no exterior e trouxe algum deles, movido pela volatilidade das paradas de sucesso. Eu mesmo já tive o primeiro disco do Spin Doctors “Pocket Full Of Kryptonite”, de 1992, que era legal quando foi lançado, mas que se tornou inaudível pouco tempo depois. Nem com nostalgia via memória afetiva este álbum voltou. Espero que não volte.

 

Mas, e o “Deconstructed”, do Bush? O grupo inglês surgiu na esteira do grunge americano ou, melhor dizendo, do que foi chamado de grunge. O rockão punk-metaleiro de Seattle, mais autêntico que o termo, levado por gente como Soundgarden, Mudhoney e Alice In Chains, era muito abrasivo para a turma britânica, liderada pelo vocalista bonitinho Gavin Rossdale, que surgiu nas paradas de sucesso em meados dos anos 1990, com uma balada – “Glycerine” – e uma outra canção, mas “pesada”, “Machinehead”. Ambas puxaram seu primeiro disco, “Sixteen Stone”, lançado em 1994, para o sucesso indiscriminado, como se o Bush fosse uma variação mais dura e sem esperteza do Pearl Jam. Os vocais de Rossdale, como a maioria dos cantores surgidos no pós-1993, emulava a rouquidão de Eddie Vedder, daí ficou fácil para o público médio cair neste conto. Depois de “Sixteen Stone”, o Bush veio com “Razorblade Suitcase”, lançado em 1996, que meu amigo Leonardo Salomão um dia chamou de “Razorblack Suicide”.

 

Este segundo disco tinha mais sucessos fáceis, a saber, “Swallowed” e “Greedy Fly”, que levavam adiante a mesma receita: rockões lentos, pesados, sem jogo de cintura e calcados nas emulações vocais de Rossdale. Até aí, tudo bem. O Bush formara uma legião de fãs que entendiam a banda como um grupo sensacional e original mas que, na verdade, era uma sequela mercadológica de algo que passara. O grunge perdeu forças já a partir de 1995, o que tornava “Razorblade Suitcase” no limite da validade. Como Rossdale não era burro – e não é, o cara está na ativa com o Bush até hoje – era preciso pensar numa maneira de atualizar a proposta sonora do grupo e, no meio do processo, trazer mais fãs para a carteira. A solução? UM DISCO DE REMIXES. Sim.

“Deconstructed”, lançado em 1997, é um álbum com versões remixadas e eletrônicas de canções dos dois primeiros discos do Bush. O mais interessante é que ele é superior a tudo que o grupo lançou e lançará em sua carreira, mas não foi bem sucedido em seu propósito, o de capturar mais admiradores. Pense bem: o cara que cantava as músicas do Bush de olhos fechados no quarto, jamais admitiria as interferências eletrônicas propostas nas versões alternativas de “Deconstructed”, assim com o admirador de gente como Chemical Brothers ou Underworld jamais acharia possível zarpar em viagem raver a partir de reimaginações de “Swallowed” ou “Everything Zen”…ou “Synapse”. Ou qualquer outra faixa. O mais interessante do álbum é que ele conta com alguns pesos-pesados da remixagem eletrônica de então, a saber, Goldie, Tricky e Lunatic Calm que conseguiram trazer algo novo para as engessadas versões originais. Tricky, por exemplo, faz de “In A Lonely Place” um tema que coloca medo no ouvinte, daqueles que a gente tem de ir na cozinha depois de ver um filme de terror cavernoso. Goldie passa “Swallowed” num processador de cozinha e a remonta com caos e confusão, num exercício que beira a magia, em se tratando de possibilidades de mudar uma canção a partir de um remix.

 

Eu não teria uma versão física de “Deconstructed” em casa e a incidência de sua presença nos sebos há mais de 20 anos mostra o quanto ele ferrou com o fã da banda. Já vi edições japonesas lacradas à venda por valores camaradas, mostrando a desilusão com o fã original – que importou uma cópia do Japão – e o desespero do lojista, tentando passar o item adiante, literalmente a qualquer preço. Mesmo assim, confesso: gosto das versões de Tricky e Goldie para os rinocerontes sonoros do Bush e fico pensando nas expressões de “what tha fâck” em seus rostos, quando receberam a tarefa de repensá-los. Quanto aos sebos, em breve eles também serão um assunto do qual só falamos com os verbos no passado, reflexo deste nosso tempo de transição. No meio deste caminho, olhamos para os detalhes e vemos, entre os escombros de um novo tempo, milhares de cópias de “Deconstructed”, todas de segunda mão, desamparadas, sem sentido, perdidas no espaço-tempo.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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