Cinema Nacional sob ataque

 

Faz parte da política do atual governo o ataque à cultura nacional. Sabemos que o termo é amplo, mas posso dizer que entendemos por “cultura nacional” toda manifestação que tenha a coragem de dar uma voz ao Brasil enquanto nação independente. Aquelas que tentam inserir nosso país no mundo, falando das nossas peculiaridades, dos nossos traços étnicos, da nossa religião peculiar, da nossa gente. Cultura nacional tem a ver com negro, com escravo, com cidade urbanizada desigualmente, com pobreza, com esforço, com resistência, com brilhantismo, com putaria, com repressão, com improviso, com uma série de outras palavras que, de uma forma ou de outra, as pessoas do nosso país tornaram realidade. E o Cinema Brasileiro, assim como outras formas de manifestação artística, sempre enfatizou isso.

 

O atual governo é de extrema direita e, se tudo der certo, teremos filmes retratando-o com precisão num futuro próximo. Aliás, já temos, pelo menos, dois. “Bacurau” e “Divino Amor“, ambos lançados neste ano. São duas obras distintas, nordestinas, engajadas e que mostram o quanto o Brasil é plural. Uma delas usa a alegoria de uma pequena cidade – que não está no mapa – para mostrar a saga de resistência de um povo diante da ameaça estrangeira, materializada da forma mais cruel e perversa possível. O outro fala de uma sociedade em que a religião matou a cultura secular e invadiu a casa das pessoas, se valendo da fragilidade emocional e da falta de informação. Ambas se situam num futuro próximo, soam como alertas para algo que já começou. E estão certas, há uma marcha de eventos, que visa modificar o Brasil e torná-lo um lugar estéril e desigual.

 

A presidência da Ancine, a secretaria especial de cultura, a presidência da Funarte, são postos que o governo colocou contra a produção independente e brasileira de significados. O governo deveria apoiar e fomentar a cultura, mas, ao contrário, está anulando e dificultando sua produção. Corte de patrocínios, de incentivos e, de ontem pra hoje, a retirada de cartazes de filmes nacionais da sede da Ancine e de seu site, mostram o quanto a política não é casual, é intencional. Fico pensando se obras que exaltam o bispo edir macedo – já há dois filmes lançados, cujos nomes não me darei ao trabalho de procurar no Google – serão atingidos por estes cortes. Mas, enfim, este é um problema menor.

 

Pensei que poderia colocar uma lista de filmes nacionais para que as pessoas se sentissem animadas a vê-los, mas noto que muita gente nem sabe que o cinema brasileiro existe, de fato. As pessoas mais humildes da população, que tiveram, num futuro recente, condição de ir às salas de exibição pela primeira vez em suas vidas, agora não podem mais porque, do contrário, não terão dinheiro para comprar comida ou remédio. As mais abastadas não se preocupam com isso porque têm acesso ilimitado a canais propagadores de cultura e, em muitos casos, preferem ver o novo capítulo da saga “Rambo”. É gente que diz: “ah, cinema no Brasil não presta”. E essas pessoas às vezes substituem o termo “cinema” por “música”, “teatro” ou qualquer outra forma de arte. É pra elas que a Ancine existe agora.

 

Isso é triste mas não é mero acaso, lembrem-se disso. O atual governo foi eleito se valendo de uma postura “nacionalista” mas segue destruindo qualquer traço genuinamente nacional – no sentido explicitado acima – que possamos ter. O conhecimento, a arte, as ideias, são os alvos destas pessoas, que, repito, SABEM O QUE ESTÃO FAZENDO. Quando vemos um secretário de cultura atacando a atriz Fernanda Montenegro, precisamos lembrar que ele SABE O QUE ESTÁ FAZENDO.

 

Agora vejo pela mídia que o prefeito do Rio de Janeiro, o bispo da igreja universal do reino de deus, marcelo crivella, determinou que o reveillon em Copacabana terá música gospel em seus quatro palcos. Pois bem, se você viu o longa “Divino Amor”, sabe que esta possibilidade foi exposta no filme de forma constrangedoramente real. E, crivella, outro político inteligente e anti-povo, sabe que sua proposta vai contra tudo o que a festa significa. O Rio, ex-capital do país, cidade que já foi polo difusor de manifestações culturais como Cinema Novo, Bossa Nova, Tropicália, Funk Carioca, está reduzido a um cenário da série Walking Dead.

 

Como tudo isso se tornou possível? Essa destruição? Com os votos das últimas eleições. Temos a chance de começar a mudar este cenário no ano que vem. Vamos lá? Ou ficaremos retrocedendo até a Idade Média, quando a igreja católica decidia quem tinha acesso ao conhecimento? Pensem nisso.

 

OBS: minúsculas intencionais

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Cinema Nacional sob ataque

  • 4 de dezembro de 2019 em 14:11
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    Gostaria de comentar, mas por ora ainda sob o efeito do termo: “terrabolista”, não consigo. Belo texto.

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