Bob Marley: 13 canções +1 (e um disco bônus)

 

 

Ontem, dia 11 de maio de 2021, lembramos dos 40 anos da morte de Bob Marley. O cantor, compositor e ativista jamaicano é, certamente, o maior nome do reggae em todos os tempos, não só pela representatividade de sua carreira, mas por ter transcendido o âmbito do estilo e, a partir disso, tê-lo popularizado em várias partes do mundo. Secundado por sua sensacional banda, os Wailers, Robert Nesta Marley teve influência decisiva em artistas brasileiros, de Gilberto Gil a Chico César, além de ter composto e gravado uma procissão de clássicos da música planetária, não apenas, “do reggae”

 

Aqui no Brasil a presença do estilo jamaicano é tão forte que foi instituído o Dia Nacional do Reggae em 2012, com aprovação do governo Dilma Rousseff, para lembrar a importância da mensagem do reggae. O que poucas pessoas sabem é que esta forma de música foi uma das mais importantes no avanço tecnológico dos estúdios e das próprias gravações. A partir de improvisos feitos por conta de falta de recursos, produtores de reggae criaram variantes como o dub, que enfatizava efeitos e versões instrumentais de canções, além de terem semeado as primeiras formas de remix e versões estendidas.

 

Pra lembrar a importância de Bob Marley, fizemos uma versão da nossa já tradicional lista de 13 canções. Além das nossas preferidas de Bob Pai, temos uma releitura de um artista brasileiro, que conseguiu fazer algo melhor que o original. Como outro bônus, acrescentamos um álbum dos anos 1990, que talvez seja o único trabalho que conseguiu levar a música de Bob Marley para um outro lugar, um outro terreno. Vejam e ouçam!

 

 

13 – No Woman, No Cry (1976) – talvez esta seja a canção primordial de Bob Marley para quem não é um fã dedicado da obra do sujeito. Do álbum “Natty Dread”, ela teve versões de Jimmy Cliff e, em português, de Gilberto Gil, gravada em 1979, no seu álbum “Realce”.

 

12 – Get Up, Stand Up (1973) – faixa de “Burnin'”, esta canção é um chamado à luta, seja ela qual for. “Vamos, levante-se, posicione-se pelos seus direitos e não desista da luta”. Uma porrada atemporal.

 

11 – Time Will Tell (1978) – meditações sobre o passar do tempo, devidamente aplicadas à lutas pessoais e coletivas. Esta canção é tão singela que pode passar como uma belezura pacífica, mas é uma poderosa reflexão da condição humana.

 

10 – One Dub (One Drop) – (1979) – esta é a versão dub de “One Drop”, faixa presente no álbum “Survival”. O original é ótimo, mas esta releitura cheia de efeitos é uma maravilha pouco ouvida e conhecida do fã menos engajado. Destaque absoluto para a magia do estúdio enfumaçado em ação. Ela pode ser ouvida na compilação de raridades “Songs Of Freedom”, de 1992.

 

9 – Stir It Up (1973) – esta canção contém pouco mais de três minutos e meio de belezura e harmonia. A melodia é tão bela, os vocais são tão bem gravados, os instrumentos estão perfeitos e ornamentando tudo o que se ouve, na melhor medida possível. Um dos triunfos da música popular em todos os tempos. Do álbum “Catch A Fire”.

 

8 – Three Little Birds (1977) – nerds lembrarão do personagem de Will Smith em “Eu Sou A Lenda”, que amava esta canção singela e linda, presente no álbum “Exodus”. Um dos muitos momentos doces da obra de Bob Pai. “Não se preocupe, tudo vai dar certo”.

 

7 – Keep On Moving (1977) – um dos pequenos tesouros não tão conhecidos da lavra de Bob. Outra faixa de “Exodus”, na qual ele mistura a mensagem de seguir em frente e fazer a sua parte no mundo, mas com um groove matador e irresistível. Coisa de mestre.

 

6 – Is This Love (1978) – outra canção bem conhecida, outra prova da capacidade de Bob de escrever sobre o amor e sobre senti-lo. Faixa mais conhecida de “Kaya”, seu belo álbum de 1978, talvez o momento mais pop de sua carreira.

 

5 – Buffalo Soldier (1983) – canção póstuma, lançada no álbum “Confrontation”, de 1983. Ela mostra como a poesia de Marley assumia níveis altíssimos relatando a história dos “Buffalo Soldiers”, escravos americanos recrutados para lutar contra os índios em troca de liberdade nos Estados Unidos do século 19. Uma obra-prima.

 

4 – Redemption Song (1980) – uma canção de superação que é, ao mesmo tempo, um lamento e um chamado de consciência. “Redemption Song” é tão poderosa que já foi regravada por ícones como Joe Strummer e Johnny Cash, feito para poucos. A letra é primorosa, triste e bela. Do álbum “Uprising”, de 1980.

 

3 – Could You Been Loved – 12′ Mix (1980) – mais uma faixa de “Uprising”, dessa vez mostrando como os Wailers eram capazes de tudo em estúdio. Aqui eles entabulam um groove dançante e aerodinâmico, com direito a mensagem de amor não correspondido da letra. O prazer é ainda maior nesta versão extendida da canção.

 

2 – Waiting In Vain (1977) – “Eu não quero esperar em vão pelo seu amor” é a linha mestra da poesia cantada que é esta canção. Tudo aqui é perfeito, do canto ao arranjo, com destaque para um raro e pequeno solo de guitarra. O momento mais romântico de Bob Marley.

 

1 – Zimbabwe (1979) – o país africano, cujo nome era Rodésia (em homenagem a um coronel inglês), tornou-se Zimbábue no fim dos anos 1970 e esta canção foi executada por Bob e os Wailers na comemoração, em praça pública, no dia 18 de abril de 1980. Faixa de “Survival”, ela é imbatível na mensagem, na musicalidade e na representatividade. Um marco.

 

Bônus 1 – Gilberto Gil – Tempo Só (2002) – Gilberto Gil é um gigante da música mundial e sua carreira não deixa nada a dever à de Bob Marley. Mesmo sendo totalmente influenciado por Marley, Gil só foi registrar um disco inteiro em homenagem ao jamaicano em 2002, com “Kaya N’Gan Daya”, gravado na Jamaica e produzido por Liminha. Nele, em meio a versões e regravações, Gil se saiu com uma versão bilíngue de “Time Will Tell”, na qual, na minha humilde opinião, ele supera o original de Bob.

 

 

Bônus 2 – “Dreams Of Freedom (Ambient Translation Of Bob Marley In Dub)” – Bill Laswell (1997) – este álbum é uma obra-prima de experimentação, no qual Laswell (um dos mais cascudos pilotos dub de estúdio do mundo) coloca várias canções de Marley num processador de efeitos, levando-as para um mundo de novas formas e contextos, despindo-as de andamento e ritmos, conferindo novas roupas e, ao mesmo tempo, não maculando os originais. É um dos trabalhos de releitura mais admiráveis que eu conheço.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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