Volta dos Smiths em 2020? Não, obrigado.

 

 

Esta notícia surgiu ontem e foi disseminada como um vírus nas redes sociais. Os Smiths podem estar voltando no que vem.  Eu digo: não, obrigado.

 

Vamos direto ao assunto: a carreira solo de Morrissey não é mais viável, apesar de muita gente ainda se acotovelar pelo cara. A recente assunção de identidade fascista pelo bardo de Manchester coloca em xeque mais de 70% das letras que escreveu até hoje. E Johnny Marr tem uma trajetória como músico e artista solo que suplantou qualquer coisa que Mozzy – como disse um amigo no Facebook outro dia – tenha feito recentemente. Sendo assim, a volta dos Smiths em 2020 é mais um dos inúmeros truques de uma indústria sem escrúpulos e só interessada no lucro.

 

Sim, porque, pensem bem: os Smiths tocariam em que tipo de espaço? Num clube enfumaçado para 200 pessoas? Não. Eles hoje seriam uma atração para estádios, ginásios e tudo mais. Tudo por uma questão de apropriação da cultura pop por suas canções introspectivas, algo que, repito, não serve de nada se tiverem sido escritas por um fascistóide. Será que “There’s Is A Light That Never Goes Out” teria o mesmo impacto dilacerante que tem nas pessoas – em mim, por exemplo – se soubéssemos, lá em 1986, que Mozzy era um admirador secreto do National Front? Ou será que “Some Girls Are Bigger Than Others”, “William It Was Really Nothing” ou “Barbarism Begins At Home” ou tantas outras boas canções teriam a mesma ressonância que tiveram em nossa cultura desde que foram compostas ou desde que a banda tornou-se indisponível?

 

Hoje fica mais claro o piti que Morrissey deu por conta de Marr ter participado do ótimo disco “Naked”, do Talking Heads. Segundo consta, este teria sido a gota d’água para a separação dos Smiths naquele ano. Eles haviam lançado “Rank”, um bom disco ao vivo, que sucedia o ótimo – e subestimado – “Strangeways Here We Come”, de 1987. Em termos de produção, é o melhor trabalho da banda, ainda que perca esteticamente para “The Queen Is Dead”, a obra-prima do grupo, de 1986.

 

 

Olhando em retrospecto, as opiniões de Morrissey seriam as mesmas de Margaret Thatcher hoje em dia. Ou que as da Rainha Elizabeth II, ambas alvos de seus ataques em 1986. Ou será que ele esqueceu? Será que Moz cantaria suas diatribes antissistema hoje? Como seria, se caso as cantasse com um broche do UKIP, partido ultra-conservador britânico?

 

E a imprensa especializada, babando o ovo da mera possibilidade da banda retornar? Enquanto isso, acho que só a Célula Pop noticiou por aqui a majestade que foi o concerto do The Cure – um dos alvos preferidos de Morrissey – no Hyde Park, comemorando seu 40º aniversário.

 

Se formos pensar em bandas inglesas dos anos 1980, no minimo The Cure e Echo And The Bunnymen suplantam os Smiths. Isso porque não estou incluindo no balaio gente como Prefab Sprout, Lloyd Cole And The Commotions, Waterboys e Aztec Camera. Não que The Smiths não fosse legal, era, e muito. Mas não é pra tudo isso, gente.

 

Se acontecer, será assunto para várias digressões. Se acontecer, será como algo que os Smiths jamais foram, justiça seja feita: uma banda comercial, de estádios. E será o seu fim. Pela segunda vez.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

5 comentários em “Volta dos Smiths em 2020? Não, obrigado.

  • 10 de novembro de 2019 em 23:05
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    Cel, talvez e lamentavelmente (também) seja um caso de uma própria transformação de visão de mundo (para pior) do Moz… Mas é isso aí, foste cirúrgico na crítica a essa possível volta dos Smiths a ativa. E sinta-se abraçado quando dizes que considera The Cure e Echo & The Bunnymen bandas mais importantes que o Smiths naquela época. Smiths foi muito bom, muito legal, mas não era A LUZ QUE NUNCA SE APAGAVA (rs) do rock britânico nos anos 1980.

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    • 10 de novembro de 2019 em 23:33
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      Possível. Felizmente o Marr já vetou – e zuou.

      Obrigado pelo comentário!

      1+
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  • 7 de novembro de 2019 em 23:49
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    Não sei o que é mais ridículo: o fã dos Smiths que acredita nessa balela de que a banda pode um dia se reunir novamente no palco ou o (novo) antifã do Morrissey que acredita nas balelas e distorções publicadas sobre ele pela imprensa estrangeira e replicadas aqui copiosamente pela sempre xerocado imprensa alternativa brasileira…

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    • 8 de novembro de 2019 em 00:12
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      Pois é, mas é sempre importante a gente repercutir…..e dando nossa opinião. Acho que seria um novo fim da banda…

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  • 7 de novembro de 2019 em 17:45
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    Essas reuniões caça niqueis apenas para os saudosistas e viúvas de luto eterno, alias a mídia europeia e muito culpada por bajular o Morrisey inclusive lhe outorgando o titulo de o ” inglês vivo mais importante ” e outras sandices, mas para mim esse flerte com o conservadorismo já não era novidade no auge dos Smiths ele sempre revelava alguma coisinha em suas entrevistas e varias vezes era questionado por que o total “desprezo”, com a musica negra, mas ele sempre vinha com uma resposta pronta que adorava os girl groups negras, infelizmente se essa reunião se concretizar provavelmente vai ser saudado como a nova vinda do messias!!!! ( putz!!! podem confundir com aquela coisa escrota chamada Bolso…..!!! )

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