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50 Anos da Obra Prima de Stevie Wonder

 

 

Hoje, dia 28 de setembro, é o quinquagésimo (adoro essa palavra, “quinquagésimo”) aniversário de lançamento de um álbum musical que capturou de modo amoroso a imaginação e o coração de milhões de pessoas em 1976 e ainda os mantêm cativos. “Songs in the Key of Life” é um abuso de poder criativo, um exagero de beleza e a demonstração definitiva de que Stevie Wonder estava muito acima da concorrência em termos musicais.

 

Em 21 faixas espalhadas por dois LPs e um EP (que chamávamos antigamente de “compacto duplo”), Stevie cobre temas pesados como a miséria da população negra dos EUA e o racismo a que era (ainda é) submetida, mas também tange tópicos espirituais, celebra a paternidade e fala de amor romântico de modo efusivo, mas também com um toque de desilusão (em “If It’s Magic”). “Songs in the Key of Life” é um continente, repleto de vida, reflexo da diversidade da vida, mas ciente da mortalidade e das injustiças infligidas a populações inteiras.

 

Tenho uma cópia em LP de “Songs in the Key of Life” adquirida por mim mesmo em 1979. Fiz a bobagem de tentar segurar algumas páginas do belo encarte com durex, que não só não as segurou como deixou marcas nelas. Ainda assim, o encarte está inteiro e os discos estão em bom estado. É o item fonográfico que possuo há mais tempo, seguido de perto pelo LP “True to Life”, de Ray Charles. Os dois títulos entregam a minha devoção duradoura à soul music. Tenho duas cópias em CD do álbum de Stevie, a primeira edição (com caixa “gorda”) e uma remasterizada. Não me importaria de ter uma cópia nova em LP, mas essas são caras e, de todo modo, prefiro ouvir CDs.

 

A essa altura, conheço o disco de cor. Sei, ou melhor, sabia assoviar todo o solo de harmônica de “Isn’t She Lovely”. Não sei mais não porque esqueci como é o solo, mas porque desaprendi a assoviar. Dobro a língua, faço biquinho com os lábios e não sai som nenhum, rsrsrsrs. Dizer que “Songs in the Key of Life” é o disco de uma vida inteira para mim é pouco porque ele é assim também para um enorme contingente de pessoas de todas as partes do globo. É tão grande que, para muita gente, ofuscou tudo o que Stevie fez depois em discos, mas eu, esquisito como sempre, acho “Stevie Wonder’s Journey Through “The Secret Life of Plants”” tão magnífico quando o quase cinquentão.

 

O que me espanta ainda hoje é como ele equilibra o gênio do estúdio com o cronista da rua. Num minuto você está em “Village Ghetto Land”, com aquele arranjo de cordas que parece ter sido escrito por um fantasma do século XIX para narrar a favela americana de 1976, e no minuto seguinte está pulando no quintal com “I Wish”, com o baixo de Nathan Watts correndo que nem criança descalça. “Sir Duke”, que ele escreveu para Duke Ellington e que virou hino de toda banda de escola nos EUA, ainda tem aquela pausa de metais que me arrepia a espinha 50 anos depois. E “Pastime Paradise”, com o coral da igreja Hare Krishna mais o cravo, virou 20 anos depois “Gangsta’s Paradise” com Coolio — o mesmo loop de angústia social, só que trocando o gueto do Bronx pelo gueto espiritual que o Stevie já tinha visto. E ainda foi trilha sonora do filme “Dangerous Minds”, com Michelle Pfeiffer.

 

E tem as histórias que o encarte não conta. Esse disco quase não saiu. A Motown já tinha reservado o Crystal Sound Studios em Los Angeles por quase dois anos, Stevie trocou de engenheiro três vezes, chamou mais de 100 músicos e gravou “Isn’t She Lovely” com sua filha, Aisha, recém-nascida chorando no estúdio ao fundo — o choro que a gente ouve no final é de verdade. Dizem que quando Berry Gordy ouviu a fita final, falou: “Isso não é um disco, é um país”. Pois é. É o país onde eu moro desde 1979, com durex no encarte e tudo.

 

Nota do Editor 1: ao longo do tempo, várias canções assumiram o posto de preferidas, várias delas citadas aí. De uns anos pra cá, meu amor repousa em “Summer Soft”.

 

Nota do Editor 2: Stevie Wonder celebrou a ocasião desengavetando quatro faixas inéditas das sessões originais do álbum. Reunidas em um EP de quatro faixas, o lançamento traz as canções resgatadas “It’s Easier”, “My Life Story of Love”, “I Can See the Sun In Late December” e “I’m Into Livin’”. As gravações foram produzidas por Wonder e mixadas pelos engenheiros originais de gravação e mixagem do álbum, John Fischbach e Gary O Adante (creditado como Gary Olazabal no original).

“Convivemos com Songs in the Key of Life por cinquenta anos, mas ainda há mais para ouvir”, disse Wonder em comunicado à imprensa. “Nós não incluímos essas músicas no álbum, mas elas faziam parte do que eu estava sentindo e descobrindo enquanto o fazíamos. Elas me trazem de volta àquele momento da minha vida, e agora elas passam a fazer parte da vida de vocês.” Ouça as quatro novas músicas de Wonder abaixo.

Wonder ainda vai celebrar o 50º aniversário de Songs in the Key of Life com uma turnê especial pelo Reino Unido, Europa e EUA este ano. A perna americana, com seis datas, começa em 19 de novembro em Nova York, com shows em seguida em Chicago, Washington D.C., Detroit e Los Angeles.

 

PS do autor: Sabem o que senti ao ouvir as quatro canções inéditas das sessões de “Songs in the Key of Life” lançadas por Stevie Wonder hoje? ACOLHIMENTO. Não encontrei palavra melhor para descrever o meu primeiro encontro com “I Can See the Sun in Late December”, “I’m Into Livin'”, “It’s Easier” e “My Life Story of Love”. Eu senti um prazer comparável àquele que tenho quando me deito em uma cama limpinha, com travesseiros fofos e cobertores bem cheirosos. Minha história de vida de amor à música de Stevie Wonder é muito forte e o sentimento que tive e descrevi prova isso para mim.

Não direi qual das novas canções gostei mais porque isso não interessa nem mesmo a mim. Cada uma delas revela uma das inúmeras veredas da arte de Stevie. O que encontramos nelas são as melodias lindas, as harmonias absurdas, os instrumentais inventivos e AQUELA voz. Se elas são (devem ser) uma amostra do que é o legendário acervo de gravações inéditas de Stevie, quero que o músico lance tudo o quanto antes, não posso partir desse mundo sem conhecer esses tesouros musicais.

 

Zeca Azevedo

Zeca Azevedo é. Por enquanto.

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