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Guitarras eletrônicas no meio da noite sem fim

 

 

 

 

Benzina e Tartamudo – As Ondas Estão No Ar
36′, 7 faixas
(Benzina)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Antes de qualquer coisa: não deixe esse disco passar batido por você. Se há espaço para uma música brasileira, eletrônica, personalíssima, bem informada e muito, muito bem feita, ele está em “As Ondas Estão No Ar”. Aqui não há os banalizadores do estilo, DJs com pendrive, remixes xexelentos e nenhum dos signos que permeiam a música eletrônica para o senso comum emburrecido. Aqui estamos bem além do banal, num álbum que surge da colaboração entre um músico muito versátil e uma dupla de dedicados produtores, ouvires sonoros sintéticos. Edgard Scandurra veste novamente o pseudônimo de Benzina, seu alterego eletrônico, fluente nos beats e bytes e encontra Zepedro Gollo e Wilton Rossi, que formam o Tartamudo, virtuoso duo eletrônico brasiliense. Juntos eles entregam este ótimo “As Ondas Estão No Ar”, em que fazem caminhos e idas e vindas ao pós-punk original, de Gang Of Four, The Cure e Joy Division, para depois passar pela Manchester dos anos 1990, que misturou batidas, sintetizadores, psicodelia, tudo em meio ao estouro da sensacional cena eletrônica britânica noventista, que apontou caminhos sensacionais, nunca trilhados plenamente como deveriam. Sendo assim, os três, mais um time bacana de convidados, propõem sete faixas em que passeiam por timbres e nuances tristemente raríssimas na música feita aqui. No sentido da novidade, poucas coisas são mais legais que esse disco em 2026. Vejamos o porquê.

 

Em primeiro lugar, “As Ondas…” não é um disco “apenas” de música eletrônica, pelo menos não como esse senso comum emburrecido a entende. Aqui temos timbres, tonalidades, guitarras, batidas, vários elementos entrelaçados, que possibilitam ao trio singrar mares que são apenas tangenciados quando a via “eletroacústica” dos instrumentos musicais é suscitada. Uma faixa como “Saudade do Submundo”, por exemplo, um instrumental vertiginoso e sensacional, pode conter nuances de pós-punk em nível tão alto que coraria o mais purista dos roqueiros ortodoxos. O trabalho de guitarras é excepcional, a construção de clmas, o desfecho da canção, tudo é perfeito. A mente aberta e a visão de longo alcance permitem a Tartamundo e Benzina entender que praticamente tudo é possível nessas sete faixas. E o que se ouve é um híbrido sonoro muito bem feito e bem pensado, que guarda uma beleza virtuosa, dedicada. Os tons são noturnos, urbanos, talvez acenando para essa fusão entre a Brasília da dupla e a São Paulo de Scandurra, vá saber. Além deles, o percussionista João Parahyba (do Trio Mocotó), a cantora Silvia Tape (que está nas Mercenárias atuais) e o sempre sensacional Fausto Fawcett ajudam a dar os contornos do álbum.

 

Uma das grandes qualidades de “As Ondas…” é a surpresa. Há uma lindeza melódica quase inesperada em “Que Eu Possa”, a faixa que encerra o álbum. O arranjo é soberbo, de uma delicadeza inesperada para um álbum tão visceral em sua boa parte. Dá pra dizer que há ecos de Brasil anos 1970 em sua melodia, algo que poderia ser de Roberto Carlos ou Antônio Marcos, certamente uma influência/referência que não parecia próxima de surgir em meio ao álbum. Fausto Fawcett, um dos maiores cyberpoetas (ou algo assim) que temos por essas bandas, surge em dois momentos bem distintos. O primeiro, “Insetos No Coração”, traz a sua prosa peculiar, flertando com o apocalíptico, observando detalhes de facetas não exatamente vistas como “belas” do ser humano. O instrumental cria uma tensão insuportável e crescente enquanto Fausto vai falando sobre corações expostos e insetos que os pesquisam. Já em “Fora do Radar”, ele se revela num tom muito mais relaxado, quase solar, quase vulnerável, para falar de … amor e de fugir de tudo para namorar numa praia “fora do radar”. Para quem não lembra, é dele a bela “Balada do Amor Inabalável”, que o Skank gravou no início dos anos 2000, até hoje uma de suas canções mais criativas. Aqui, “Fora do Radar” tem uma batida quebrada, quase dançante, pontuada pela guitarra aditivada de Benzina, num efeito sensacional.

 

Na faixa-título, com vocais de Silvia Tape, o clima já é mais próximo da psicodelia abstrata de uma espécie de lado B de bandas inglesas do início dos anos 1990. Algo que soaria familiar no repertório do Ride, por exemplo, especialmente em álbuns mais recentes. O tom é de sonho, de transe, algo que tem o groove ritmado próximo de batidas de coração, uma lindeza de mil camadas. Em “Admirável Intolerância”, os ecos de efeitos e construições de climas – além da ótima guitarra – levam a canção em rumos ainda mais noturnos e estranhos. É mais ou menos o oposto de “Ode a Argento”, na qual o beat dançante marca presença, mas isso não significa, necessariamente, que se trata de uma música para dançar. É mais para admirar a mecânica de como e quando – e onde – os timbres e tons vão se casando ao longo da melodia.

 

“As Ondas Estão No Ar” é uma beleza de álbum. Cativa o ouvinte curioso sem prometer o que não se dispõe a fazer. E o que faz é levar o ouvinte para um universo de possibilidades que soam imensas aos ouvidos. Um dos grandes discos de 2026.

 

Ouça primeiro: “Fora do Radar”, “Saudade do Submundo”, “Que Eu Possa”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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