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O disco “climático” do Queens Of The Stone Age

 

 

 

Queens Of The Stone Age – Perfecth
36′, 9 faixas
(Matador)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Se você esperava um novo disco do Queens Of The Stone Age mais próximo do peso e do mistério de vários de seus trabalhos anteriores, vai ter que se contentar apenas com o mistério. E isso não é ruim, pelo contrário. O que Josh Homme e sua turma conseguem em “Perfecth”, seu nono álbum, é a construção de um clima noturno, underground e próximo do fantástico, apostando muito mais nas sutilezas e referências do que em peso – pelo menos no sentido convencional que o termo pode suscitar. Explico. À primeira vista, esse feixe de nove faixas poderia soar “leve” com o arranjo e concepção que o grupo encontrou. Elas mais parecem versões acústicas de canções que existem fortes e sujas em algum multiverso. Essa impressão, longe de confundir o ouvinte, acrescenta um charme enigmático extra ao todo. É como se o Queens fosse fazer um “Unplugged MTV” bem no espírito que o velho especial da Music Television propunha – elementos marcantes do artista, alguma alegoria audiovisual da fase vigente dele e o chantilly estilístico que a pegada desplugada oferecia. E vamos mais além – o que “Perfecth” traz implícito é uma homenagem total e absoluta a David Bowie, mais ou menos no mesmo tom que outro habitante dos anos 1990/00 gostava de fazer: Scott Weiland. Senão vejamos.

 

A citação de Scott, ex-vocalista do Stone Temple Pilots, se encaixa por conta de seu primeiro – e esquecido – álbum solo, o brilhante “12-Bar Blues”, lançado em 1998, que marcou um mergulho do artista no universo noturno, underground e fantástico, com um amor declarado pelos momentos mais marcantes de Bowie, algo que ele levou para sua banda matriz a partir dali, pegando em cheio os dois últimos trabalhos que gravou com o grupo. O último álbum do STP com Weiland, homônimo, lançado em 2010, era muito bowieano. Mas, claro, o QOTSA está milhas além dos Pilots, mas o tom da referência e a pegada sonora que Josh Homme imprime em “Perfecth” partem de origem semelhante. E o resultado, ainda que seja mais denso que qualquer criação de Weiland e de sua banda, têm parentesco sonoro e estético. O que era eletricidade e peso/sujeira se transforma em algo que soa meio proibido, profano, misterioso, de um jeito que até suplanta criações mais usuais do grupo. É como se a banda pegasse o conceito de trabalhos recentes, como “In Times New Roman…” (2023) e “Villains” (2017) e os filtrasse sob uma pegada 1979 do Bowie de “Lodger” ou de “Heroes”. Se pegarmos canções desses dois trabalhos, “Carnavoyeur”, por exemplo, de “In Times…”, veremos essa tendência se insinuando do mesmo jeito.

 

A partir do que se ouve ao longo das nove faixas, “Perfecth” é um disco para pequenos espaços, para momentos mais íntimos. Ele tem muito mais climas, detalhes, boas sacadas, que exigem atenção do ouvinte. Não é um trabalho feito para ser cantado em grandes espaços, pelo contrário. Isso não significa que é um disco sem punch. Algumas canções presentes aqui são ótimas. De cara, “Insignificant Other” se destaca, fazendo uso de uma levada que não estaria fora de lugar em “Some Girls”, disco dos Rolling Stones de 1978, com um refrão que explode em tons que tangenciam o potencial do groove lento e quase dançante que a banda vai construindo com ótimos vocais sobrepostos, pianos e guitarras que se dobram e mudam de direção. Os vocais de Homme cumprem sua função de amarrar o pacote sem protagonizar, gerando um belo espécime coletivo. Como o QOTSA é uma banda noturna, obscura, sinistrosa, “Where The Goth Girls At?” é quase que uma trilha sonora perfeita. A levada ainda é meio torta, mas não é nada dançante, ainda que pegue emprestados tons aqui e ali. As guitarras dão o ritmo, a bateria e o resto dos instrumentos vão atrás, novamente com Homme mostrando uma ótima forma vocal.

 

“From The Cliff” é uma não-balada acústica, de amor total, uma canção que não julgaríamos possível estar presente num álbum do QOTSA, mas ela se beneficia do clima do disco, envolta em mistério, com tons levemente suicidas, dando sentido à sua presença. Em seguida, “Sunday”, é outro momento explícito de devoção a David Bowie, com vocais totalmente decalcados dos melhores momentos do homem, com um arranjo de guitarras em comichão, bateria nervosa e andamento que suscita a dança, mas, de um jeito todo próprio. E fechando o álbum, “Run Away From The Mob”, outra faixa que começa lenta e acústica, mas que vai ganhando corpo e força à medida que o arranjo avança e os climas vão se desenvolvendo, com vocais que desorientam e tensão criada numa letra que fala de fugir de falsos moralistas, gente tacanha e retrógrada, mas de um jeito que qualquer mensagem politicamente correta soa a milhas de distância do usual.

 

“Perfecth” é um disco que desorienta, confunde e atrai, tudo ao mesmo tempo. É difícil de dissecar, de entender e até de gostar, mas, uma vez fisgado, o ouvinte não quer deixar seus domínios para trás. Docemente pervertido.

 

Ouça primeiro: “Sunday”, “Run Away From The Mob”, “From The Cliff”, “Where The Goth Girls At?”, “Insignificant Other”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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